O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, apelou às Misericórdias para que enfrentem os desafios da Inteligência Artificial com discernimento, colocando sempre a pessoa humana no centro das suas decisões. A reflexão foi apresentada na reunião do Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), realizada no final da tarde desta quinta-feira, 9 de julho, na Santa Casa da Misericórdia do Cadaval.
Perante os representantes das 23 Misericórdias do Secretariado Regional de Lisboa, D. Rui Valério centrou a sua intervenção na recente encíclica do Papa Leão XIV, ‘Magnifica humanitas’, destacando a atualidade da Doutrina Social da Igreja perante as transformações tecnológicas. “Que humanidade estamos a construir?” No início da conferência, o Patriarca sublinhou que a nova encíclica não pretende apenas oferecer uma reflexão sobre a Inteligência Artificial, mas lançar uma interpelação à consciência da Igreja e da sociedade. “A ‘Magnifica humanitas’ coloca-nos diante de uma pergunta decisiva: ‘Que humanidade estamos a construir?’”, afirmou. “Não basta perguntar o que a Inteligência Artificial será capaz de fazer. É necessário perguntar que espécie de pessoas nos estamos a tornar, que relações estamos a criar e que sociedade queremos deixar àqueles que virão depois de nós”, respondeu. Segundo D. Rui Valério, a missão das Misericórdias torna esta questão particularmente relevante, por trabalharem diariamente junto das pessoas mais vulneráveis. Tecnologia deve servir a pessoa Ao longo da intervenção, o Patriarca recordou que a Igreja não rejeita o progresso tecnológico, mas insiste na necessidade de um discernimento ético que coloque a inovação ao serviço do bem comum. “A primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que, unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna”, citou da encíclica. Neste contexto, defendeu que a Inteligência Artificial pode constituir uma ajuda importante na organização e gestão das instituições, desde que nunca substitua a relação humana nem reduza a pessoa a um conjunto de dados. Misericórdias chamadas a preservar a humanidade Dirigindo-se diretamente às Misericórdias, D. Rui Valério recordou que estas são chamadas a testemunhar a misericórdia de Deus através do cuidado concreto das pessoas. Citando a encíclica, destacou o apelo: “Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas”. O Patriarca sublinhou que nenhuma tecnologia poderá substituir plenamente a proximidade, a escuta e o cuidado pessoal que caracterizam a missão destas instituições. Um apelo à esperança Na conclusão da intervenção, D. Rui Valério incentivou as Misericórdias a acolherem os desafios do presente com confiança e responsabilidade. “Não tenhamos medo do futuro. Mas também não entremos nele distraídos. Levemos connosco a sabedoria do Evangelho, o património da Doutrina Social da Igreja e a longa experiência das obras de misericórdia”, afirmou. A reunião do Secretariado Regional de Lisboa da UMP incluiu ainda um momento de partilha de informações do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, seguido das intervenções das Misericórdias presentes, terminando com um jantar de confraternização.![]() |
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