A bênção das mãos dos 73 finalistas da Licenciatura em Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa marcou, esta sexta-feira, 3 de julho, a Cerimónia do Compromisso Profissional – ‘Juramento de Nightingale’, na Igreja de São Vicente de Fora. Na Missa que presidiu, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, desafiou os futuros enfermeiros a fazer do cuidado uma verdadeira participação na vida e no sofrimento de cada pessoa. “As vossas mãos não podem ser só instrumento, mas participantes daquilo que o doente está a viver”, apontou.
Organizada pela Escola de Enfermagem (Lisboa) da Universidade Católica Portuguesa, a cerimónia assinalou a conclusão do percurso académico de 73 estudantes finalistas, simbolizando a entrada na profissão e a assunção pública do compromisso ético, humano e profissional inspirado nos princípios de Florence Nightingale. Na saudação inicial da celebração, o Patriarca manifestou a alegria por acompanhar este momento marcante da vida dos novos profissionais de saúde, agradecendo o dom que representam para a sociedade. “Verdadeiramente, vós fostes escolhidos para ser no mundo as próprias mãos de Deus que acolhem, que amparam, que cuidam e que curam. Estas mãos que hoje irão receber uma especial bênção do Senhor em jeito de consagração para a missão”, afirmou. D. Rui Valério sublinhou ainda que o “percurso exigente” vivido pelos estudantes culmina agora numa “missão de serviço à sociedade”, motivo de “gratidão” para toda a comunidade. Uma missão que ultrapassa a dimensão profissional Na homilia, o Patriarca explicou que a bênção das mãos vai muito além de um gesto simbólico, recordando que, na tradição bíblica, a bênção das mãos revelava a origem divina da missão confiada aos sacerdotes e aos reis. “Desta forma, caros enfermeiros, nós poderíamos dizer que a vossa vocação e a vossa missão de enfermeiros não é só para responder a uma necessidade ou a uma contingência da sociedade. É mais do que isso. É para vos comunicar que, na vossa missão, no desempenho da vossa ação, no vosso dia a dia, vós estais revestidos de algo que é divino”, salientou. Segundo o Patriarca, essa dimensão manifesta-se, antes de mais, no serviço: “O enfermeiro ou a enfermeira é um servidor. É alguém que está ao serviço, não de si, mas do outro, dos mais vulneráveis, do doente, da pessoa que necessita de cura. Esta atitude de servir o humilde, o pobre, o carenciado e o doente é uma atitude própria de Deus”. Ao mesmo tempo, acrescentou, os enfermeiros colocam-se ao serviço da vida, “e o autor da vida de toda a vida é Deus”. Mãos que curam e mãos que dão esperança Desenvolvendo a reflexão em torno das mãos, D. Rui Valério apresentou três dimensões fundamentais: funcional, ontológica e antropológica. Na dimensão funcional, recordou que o cuidado não se reduz à competência técnica. “Com as vossas mãos, vós ajudais os doentes, contribuís para a sua cura. Mas isso não chega para o ser humano”, lembrou. O Patriarca evocou depois o testemunho de um capelão hospitalar, durante a pandemia da Covid-19, para ilustrar a importância da proximidade humana. “O ser humano precisa tanto dos antibióticos como precisa de um sorriso. O ser humano precisa tanto daquelas mãos técnicas como precisa de um ato de ternura”, sublinhou, exortando os futuros enfermeiros: “Nunca se esqueçam: com as vossas mãos dais vida, restituís saúde, mas depois dai também alegria, beleza, encanto e sentido à existência”. Participar no sofrimento do outro Na segunda dimensão, inspirada no encontro entre São Tomé e Cristo Ressuscitado, D. Rui Valério afirmou que as mãos revelam a história de cada pessoa e são sinal de participação. “As vossas mãos não podem ser só instrumento, mas por elas e através delas vós tornai-vos participantes daquilo que o doente, o paciente está a viver”, destacou. Neste sentido, acrescentou, o enfermeiro não pode limitar-se aos cuidados clínicos. “Temos que ser aqueles e aquelas que participam do sofrimento do doente. Ele sofre e eu com ele sofro”, pediu. Na última parte da homilia, o Patriarca de Lisboa centrou-se na dignidade da pessoa humana, recordando que toda a ação do enfermeiro encontra sentido no serviço ao outro. “É a pessoa, é o ser humano que dá sentido, que dá vida, que dá razão a toda a nossa vida. Vós sois para as pessoas, vós sois para o ser humano”, reforçou. Recorrendo ao pensamento do filósofo alemão Emmanuel Kant, D. Rui Valério recordou que “jamais o ser humano pode ser um meio para alcançar outros fins” e afirmou que a prática da enfermagem testemunha precisamente essa verdade. “Meus amigos, verdadeiramente a vossa missão, a vossa vocação é profética e revolucionária, porque nos diz que aquela candeia que dentro de alguns instantes irá ser acesa é não só para vos iluminar a vós, mas para iluminar o mundo a partir dos valores da ética, dos princípios morais que vós abraçais, praticais e testemunhais”, frisou. A última palavra do Patriarca de Lisboa foi de gratidão aos futuros enfermeiros: “Obrigado pela vossa disponibilidade, porque sei que um dia a pessoa que lá está a necessitar da vossa corrida de casa até lá pode ser qualquer um de nós. Verdadeiramente, sinto-vos como meus irmãos no sacerdócio da abnegação, do serviço e da entrega”. Diretora destaca compromisso ético e serviço aos mais vulneráveis Na final da celebração, a diretora da Escola de Enfermagem (Lisboa), Amélia Simões Figueiredo, agradeceu aos estudantes, docentes e famílias pelo caminho percorrido, salientando que os novos licenciados passam agora a ser “fiéis guardiões” dos ideais da Universidade Católica Portuguesa. A responsável recordou que o compromisso profissional constitui “uma declaração pública” através da qual os futuros enfermeiros assumem os valores éticos e profissionais que orientarão o exercício da profissão: “Vão comprometer-se perante Deus, perante a Igreja e perante esta assembleia a colocar todo o conhecimento adquirido, baseado na melhor evidência científica, ao serviço das pessoas, das famílias e das comunidades, mas com uma particular preocupação pelos mais vulneráveis e pelos enfermos”. Referindo-se aos três momentos simbólicos da cerimónia – entrega da luz, compromisso profissional e bênção das mãos –, Amélia Simões Figueiredo destacou que estes exprimem a “identidade humanista da enfermagem” e a “missão de cuidar da pessoa na sua totalidade”. Acompanhada do capelão da Universidade Católica Portuguesa, Padre Miguel Vasconcelos, a diretora da Escola de Enfermagem de Lisboa ajudou depois cada finalista a acender a sua lamparina. Seguiu-se o ‘Juramento de Nightingale’, reconhecido desde o final do século XIX como um compromisso que continua a afirmar os valores do cuidado, da responsabilidade e da dedicação ao serviço da pessoa e da comunidade. Após este momento, teve lugar a bênção das mãos pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério.![]() |
Tony Neves
‘Não sejais meros espectadores da história, descei à rua e sede os atores principais da mudança’...
ver [+]
|
![]() |
Guilherme d'Oliveira Martins
De um modo persistente e sem interrupção o Papa Leão XIV tem prosseguido um combate permanente por uma Ética de Paz.
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
O Papa Leão XIV visitou Angola há 3 meses. O tempo vai passando e decantando o essencial dos seus gestos e palavras.
ver [+]
|
![]() |
Guilherme d'Oliveira Martins
A primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, centra-se num tema de grande...
ver [+]
|