O Patriarca de Lisboa destacou o legado de D. Daniel Batalha Henriques, o seu ‘irmão gémeo no episcopado’ falecido em 2022, vítima de doença, que “evangelizou também com o sofrimento”. D. Rui Valério apresentou neste Domingo, 14 de junho, na Feira do Livro de Lisboa, a obra ‘Uma vocação dentro da vocação - Diários e crónicas da doença. Testamento espiritual’, que revela “o mais autenticamente humano” vivido à luz da fé.
Na sua intervenção na Praça Azul da Feira do Livro de Lisboa, o Patriarca salientou a forma como D. Daniel Henriques viveu a doença como verdadeira missão. “O D. Daniel teve a coragem de refletir sobre a doença, de se abrir à luz do Espírito Santo para captar o mistério salvífico e redentor que está no sofrimento”, considerou.
D. Rui Valério sublinhou que o antigo Bispo Auxiliar de Lisboa não viveu a doença apenas como um doente, mas como um missionário: “A maneira como ele viveu, como ele encarou, como ele refletiu, como ele rezou, como ele pregou a doença, não foi propriamente a maneira de um doente, mas de um missionário”.
Segundo explicou, para D. Daniel, a doença tornou-se “terra de missão” e “terra de evangelização”, tal como outras realidades da vida humana.
Uma espiritualidade enraizada na experiência
Publicado pela Paulinas Editora no passado mês de março, o livro ‘Uma vocação dentro da vocação - Diários e crónicas da doença. Testamento espiritual’ reúne o diário da doença e outros escritos de D. Daniel Batalha Henriques, antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, falecido em 2022, aos 56 anos, incluindo reflexões espirituais e crónicas da sua experiência com o cancro do cólon, que o próprio designava, com humor, como “o meu primo Colonico”.
Nesta apresentação ao final da tarde, outro dos traços destacados por D. Rui Valério foi a profundidade espiritual presente nos textos da obra: “Todas as experiências humanamente vividas pelo Daniel partiam ou chegavam à vida espiritual”.
O Patriarca referiu que o livro vai além do relato clínico, apresentando “uma outra história, aquela da alma, aquela do espírito”, onde a experiência da doença é integrada numa visão de eternidade. “Estas páginas têm um destino que não é aquele que depois de lido vai para a prateleira dos já lidos. Este livro é daqueles que estão feitos para conservarem a eterna atualidade”, afirmou.
Testemunho de fé e de Igreja
D. Rui Valério destacou ainda o forte sentido eclesial de D. Daniel Batalha Henriques, marcado por um amor profundo à Igreja e pela vivência da comunhão: “Ele começava por ser um apaixonado, um amante da Igreja”.
Segundo o Patriarca – cuja ordenação episcopal teve lugar “no mesmo dia e no mesmo lugar”, como recordou –, a decisão de D. Daniel de escrever e partilhar a sua experiência teve como motivação “esse amor” e “serviço” à comunidade cristã.
O testemunho do antigo Bispo Auxiliar, acrescentou, continua a ser “atual” numa época marcada por desafios “culturais e tecnológicos”, sublinhando que a missão da Igreja permanece centrada “na dignidade da pessoa humana”.
“Esta é a vontade de Deus”
Recordando ainda um episódio pessoal, o Patriarca evocou a atitude de D. Daniel perante a fase final da doença. “Disse-me: ‘Então, mas se esta é a vontade de Deus, eu vou pôr-me aqui a lutar com Deus? Esta é a vontade de Deus’”, partilhou. Para D. Rui Valério, esta atitude sintetiza o modo como o bispo viveu todo o processo, com “confiança” e “entrega” desde o primeiro momento em que conheceu o diagnóstico.
Na conclusão da sua intervenção, o Patriarca de Lisboa destacou a atualidade do testemunho de D. Daniel Batalha Henriques: “Encontramos aqui o mais puro da humanidade na pena e na experiência e na vida de um homem”. E reforçou: “Pelo ser humano vale sempre, sempre, sempre a pena. Sempre o ser humano é uma prioridade, é a escolha de Deus e é a nossa escolha”.
Um testemunho que ultrapassa a doença
A sessão no último dia da Feira do Livro de Lisboa contou ainda com intervenções de Isabel Galriça Neto, médica especialista em Cuidados Paliativos que acompanhou os últimos meses do prelado, de Esmeralda Batalha, irmã do bispo, e foi moderada pelo Cónego Duarte da Cunha.
No seu testemunho, Isabel Galriça Neto destacou a coragem de D. Daniel ao abordar temas muitas vezes silenciados: “Teve a capacidade de escrever que estava a morrer e que estava a receber cuidados paliativos”.
A médica sublinhou que este testemunho ajuda a enfrentar um dos maiores tabus da sociedade. “Nós sabemos que a morte é ainda talvez o último grande tabu. E o senhor D. Daniel fez aquilo que 98% das pessoas não fazem”, observou.
Isabel Galriça Neto salientou ainda a importância de compreender a doença como parte da vida, defendendo uma abordagem mais humana e integral. “As doenças fazem parte da vida, não estamos em nenhuma luta nem em nenhum combate. Estamos a afrontar uma etapa das nossas vidas que nos pode fazer chegar mais próximo de Deus e dos outros”, frisou.
Evocando também a sua experiência pessoal, referiu o impacto duradouro do testemunho do bispo: “A memória do Senhor D. Daniel, na minha própria travessia, impulsionou-me, lembrando-me daquilo que tínhamos conversado e da forma como ele viveu a doença”.
A médica sublinhou que este testemunho representa um contributo importante para uma compreensão mais humana e integrada da doença, valorizando a dimensão física, espiritual e relacional da pessoa.
Um testemunho que gera esperança
Esmeralda Batalha destacou o valor espiritual e humano dos textos deixados pelo irmão, sublinhando a forma como a escrita o ajudou a viver a doença: “O escrever, para ele, era uma forma de refletir, de rezar e de ajudar a viver este processo”.
A irmã recordou também a forma como D. Daniel interpretava a oração dos outros, mesmo perante a proximidade da morte. “Iluminai, Senhor, o seu coração e a sua mente, para verem como têm sido tão poderosas as suas orações, que me têm levado como sobre asas de águia, sem esforço nem combate algum da minha parte”, partilhou.
Sublinhando o impacto do livro, esta enfermeira afirmou: “Isto não é só para doentes, isto é para qualquer um, para a nossa vida”. E acrescentou que os textos continuam a ser fonte de força no quotidiano: “Dá-me força para viver contrariedades do dia a dia e olhar para elas com sentido de esperança, de esperança cristã”.
Viver a doença e a esperança
O Cónego Duarte da Cunha, que moderou a apresentação e acompanhou o processo de publicação em representação do Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa, destacou o valor espiritual e humano da obra, considerando-a um serviço prestado à Igreja e a todos os que enfrentam situações de fragilidade.
Ao agradecer à família de D. Daniel e às Paulinas Editora pela concretização do projeto, o sacerdote salientou que o livro revela “uma maturidade de D. Daniel no viver da doença, no viver da vida” e testemunha a forma como o antigo bispo enfrentou o sofrimento.
“Percebe-se que é um homem que diante da notícia da doença não pestanejou, confiou em Deus”, afirmou, acrescentando que o que mais o impressionou na leitura dos textos foi verificar que D. Daniel “nunca tratou a doença como uma tragédia, mas também nunca tratou a doença espiritualisticamente como se não fosse uma doença e não fosse um problema e não fosse um peso”.
Para o Cónego Duarte da Cunha, esta é uma das principais riquezas da obra: “Assumiu a cruz unida a Jesus Cristo de uma forma muito madura e séria”. Por isso, considerou que o livro constitui “uma ajuda de grandíssima importância”, não apenas para quem está doente, mas também para familiares, cuidadores e todos aqueles que acompanham pessoas em sofrimento.
O sacerdote sublinhou ainda que os escritos revelam um profundo sentido de gratidão de D. Daniel para com os profissionais de saúde e uma visão cristã da doença marcada pela esperança. Referindo-se às páginas do diário, destacou a forma como o autor descreve a sua condição com humor e realismo, sempre iluminados pela fé: “Há uma grande consciência da dor e da doença, mas ao mesmo tempo uma grande esperança”.
O moderador da sessão referiu igualmente que a obra oferece um retrato particularmente significativo do ministério sacerdotal e episcopal de D. Daniel. “É também um livro sobre o que é ser padre”, afirmou o Cónego Duarte da Cunha, destacando a forma como o bispo fala dos sacerdotes, da missão da Igreja e da dedicação pastoral que marcou toda a sua vida.
‘Uma vocação dentro da vocação’
Publicado no passado mês de março, o livro ‘Uma vocação dentro da vocação - Diários e crónicas da doença. Testamento espiritual’ reúne os diários e as crónicas da doença do antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, que faleceu em 2022, aos 56 anos.
“Após ser diagnosticado com cancro no final do verão de 2019, D. Daniel Batalha Henriques (†2022), bispo auxiliar de Lisboa, começou a escrever um diário bem-humorado do seu convívio forçado com a doença. Nestas páginas íntimas, o relato dos desenvolvimentos clínicos da sua situação desemboca invariavelmente num canto de agradecimento a Deus. D. Daniel não esconde a sua fragilidade, física e até espiritual, mas testemunha comoventemente uma forma outra de viver a doença, em unidade com Jesus. O livro reúne ainda algumas das crónicas do Autor sobre a provação/vocação a que o Senhor o chamou, bem como o seu precioso testamento espiritual”, refere o resumo da obra, publicada pela Paulinas Editora.