O Patriarca de Lisboa afirmou que a primeira encíclica do Papa Leão XIV constitui um convite a recentrar a humanidade em Deus e na dignidade da pessoa humana, durante a apresentação da ‘Magnifica humanitas’, realizada na Feira do Livro de Lisboa, na tarde desta segunda-feira, 8 de junho.
Na sessão, D. Rui Valério começou por agradecer a presença dos convidados e sublinhou que o momento ultrapassava a simples apresentação de uma obra. “O que hoje está a acontecer aqui é mais do que a apresentação de um livro. É um exercício de discernimento sobre o nosso tempo”, referiu.
O Patriarca destacou que, perante “um mundo frequentemente marcado pela velocidade, pela fragmentação e pela dificuldade em pensar o futuro para além da próxima inovação tecnológica”, a Igreja continua a oferecer “uma luz para compreender o homem e o seu destino, mas sobretudo para o admirar e amar”.
No Auditório Lusíadas Saúde, no Parque Eduardo VII, o evento reuniu várias personalidades para refletir sobre os desafios contemporâneos relacionados com a dignidade da pessoa humana, especialmente no contexto do desenvolvimento da Inteligência Artificial. Além do Patriarca de Lisboa, participaram na apresentação o antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, bem como o comentador e antigo ministro Paulo Portas e o sociólogo António Barreto, proporcionando uma abordagem multidisciplinar ao tema.
Nas palavras de encerramento, após todas a intervenções, D. Rui Valério afirmou que a encíclica do Papa Leão XIV confirma o papel da Igreja como referência para os desafios contemporâneos.
“Este encontro permitiu-nos comprovar, uma vez mais, como a Igreja, através do luminoso magistério do Papa Leão XIV, continua a ser um farol capaz de orientar a humanidade nas tempestades e nas trevas que tantas vezes envolvem a nossa época”, apontou.
Centralidade da pessoa
Segundo o Patriarca de Lisboa, o centro da encíclica encontra-se na valorização da dignidade humana. “No centro desta Encíclica encontramos uma proposta simples e, ao mesmo tempo, profundamente revolucionária: recolocar ‘Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas’ (n. 16)”, frisou.
D. Rui Valério advertiu que o desaparecimento de Deus da vida humana conduz inevitavelmente à perda da centralidade da pessoa: “Quando Deus desaparece do horizonte, também o ser humano acaba por desaparecer do centro. E quando o homem deixa de ser reconhecido na sua dignidade única e irrepetível, tudo se torna funcional, mensurável, calculável e substituível”.
O Patriarca salientou ainda que “a grande questão colocada pela inteligência artificial não é apenas tecnológica”. “É antropológica. É espiritual. É, em última análise, a pergunta sobre quem é o homem”, sublinhou.
Na sua reflexão, destacou igualmente a atualidade da Doutrina Social da Igreja para responder aos novos desafios tecnológicos, defendendo que princípios como “o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça” permanecem critérios de discernimento para o presente.
D. Rui Valério alertou também para o risco de um progresso tecnológico desacompanhado por um crescimento ético e espiritual: “Nem sempre ao desenvolvimento da tecnologia corresponde um desenvolvimento social, cultural, ético e espiritual equivalente”.
E acrescentou: “Que o ser humano acabe por ser medido pela mesma lógica das máquinas que constrói; que a eficiência substitua a sabedoria; que o cálculo substitua a consciência; que a funcionalidade substitua a dignidade”.
Na conclusão, o Patriarca explicou que o próprio título da encíclica sintetiza a sua mensagem. “A humanidade é magnífica. É magnífica porque foi criada por Deus. É magnífica porque foi assumida pelo Verbo na Encarnação. É magnífica porque foi redimida por Cristo. É magnífica porque está chamada à comunhão eterna com Deus”, realçou.
D. Rui Valério terminou manifestando o desejo de que a ‘Magnifica humanitas’ ajude a construir um futuro em que “a tecnologia seja instrumento da humanidade e nunca a humanidade instrumento da tecnologia”, permitindo “ver como a humanidade é magnífica”.
‘Magnifica humanitas’
Publicada no passado dia 25 de maio, a carta encíclica ‘Magnifica humanitas’ (‘Magnífica humanidade’), do Santo Padre Leão XIV, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, é um apelo universal à consciência moral da humanidade, convidando crentes e não crentes a redescobrir a centralidade da pessoa humana, o valor da fraternidade e a urgência de uma ética capaz de orientar o futuro da civilização digital.
“Na sua primeira encíclica, ‘Magnífica humanidade’, Leão XIV reflete com audácia e lucidez sobre os desafios múltiplos com que o mundo hoje se confronta, da revolução digital à nova corrida armamentista, das fake news à emergência da inteligência artificial. Para o Papa, a humanidade atravessa um momento histórico em que é chamada a decidir que caminho quer trilhar. A proposta da Igreja é clara: que o ser humano não se aliene da sua identidade profunda, hipnotizado por ideologias que traem a dignidade que lhe advém de ter sido feito à imagem de Deus e de o próprio Deus, em Jesus, ter querido assumir a sua forma. Deste ponto de partida espiritual decorrem várias consequências muito práticas, e o Papa não teme pôr o dedo na ferida, alertando para a distopia em marcha, que exige, de crentes e não crentes, uma resposta pronta e em diferentes frentes (relações internacionais, educação, comunicação social…). Com a sua primeira encíclica, Leão entra a pés juntos no debate em curso sobre o nosso futuro comum, mostrando que a Igreja, com a sua reflexão social já multissecular, tem um contributo valioso a dar”, refere o resumo, publicado pela Paulinas Editora.