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Procissão do Corpo de Deus percorreu novo trajeto na cidade de Lisboa
“É necessário salvar o que de humano existe em cada homem e em cada mulher”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, alertou para os perigos da era tecnológica e da inteligência artificial e destacou a centralidade da dignidade humana, no final na Procissão do Corpo de Deus pelas ruas da cidade de Lisboa, na tarde desta quinta-feira, dia 4 de junho, que ficou ainda marcada por um novo trajeto e pela forte participação dos fiéis.

Inspirado pela recente encíclica ‘Magnifica humanitas’ (‘Magnífica humanidade’), do Papa Leão XIV, o Patriarca sublinhou o apelo à valorização da dignidade humana num contexto marcado pela tecnologia e pela inteligência artificial. “A missão, caras irmãs e irmãos, de sentirmos que é necessário salvar o que de humano existe em cada homem e em cada mulher. Como alerta o Papa Leão XIV, na era da tecnologia, nesta era da inteligência artificial, por vezes nós nos esquecemos de que a vulnerabilidade, a fragilidade, a fraqueza e o fracasso, a queda fazem parte da humanidade. Pois bem, com Jesus no coração, qual glorioso Hóspede das nossas vidas, da nossa alma, nós queremos dizer presente para aquilo que, hoje, a Igreja nos pede: renovar o compromisso com o humano que existe em cada homem e em cada mulher”, afirmou, na reflexão no final da procissão.

No Largo da Sé, D. Rui Valério deixou um apelo claro à comunidade cristã: “Não tenhamos vergonha da fraqueza, não tenhamos vergonha da fragilidade, não tenhamos vergonha de nos identificarmos como irmãos e irmãs de quem é pobre, de quem não teve sucesso, de quem não alcançou êxito, mas que fracassou, mas eu chamo-lhe irmão e o sinto como tal, porque é o meu semelhante”.

 

Um olhar sobre o sofrimento do mundo

Na sua reflexão, o Patriarca tinha começado por destacar a dimensão universal da procissão, sublinhando a proximidade espiritual com os povos que vivem em contextos de guerra e sofrimento. “Nós, esta tarde, quisemos ver mais longe. Fomos àqueles lugares, àquelas terras que hoje são não terras, porque atormentadas pela guerra. Sentimos como nosso o sofrimento de quem é vítima de prepotência, de quem é vítima de injustiça, de quem é vítima de má vontade em alcançar a paz, em alcançar o acordo, em alcançar a fraternidade, em alcançar a reconciliação”, garantiu.

D. Rui Valério evocou concretamente realidades como a Ucrânia, o Médio Oriente, a República Centro-Africana, Moçambique e o Sudão do Sul, sublinhando que, pela “presença de Cristo”, esses povos “tornaram-se tão próximos, tão ao pé de nós, tão presentes”.

 

Um convite à empatia na vida da cidade

O Patriarca convidou ainda os participantes a olhar a cidade para além da sua aparência, procurando compreender as alegrias e sofrimentos escondidos no quotidiano das pessoas. “Não quisemos ficar pela aparência, mas quisemos igualmente sentir o sofrimento e as alegrias que por detrás desses muros e dessas paredes acontecem. Quisemos sentir em profundidade o que cada lisboeta vive no fundo do seu coração, no fundo da sua alma”, referiu.

Neste sentido, D. Rui Valério destacou também a realidade dos que chegam à cidade vindos de outras paragens, muitas vezes marcados por histórias difíceis, mas que encontram acolhimento na população lisboeta.

 

A Eucaristia como modelo de humanidade

Concluindo, o Patriarca de Lisboa recordou que a mensagem da Eucaristia está enraizada na identificação de Cristo com a condição humana, incluindo o sofrimento e a morte. “O desafio que nestes tempos de incerteza o Papa Leão nos lança é esse mesmo: chama àquele que está doente, irmão; chama àquele que fracassou, irmão; chama ao que errou de irmão; chama o pecador de irmão, porque aí está o húmus da humanidade. Disso nós queremos dizer presente”, terminou D. Rui Valério.

 

Bênção à cidade de Lisboa

A Procissão do Corpo de Deus, que voltou a percorrer as ruas da cidade de Lisboa na tarde desta quinta-feira, ficou também marcada por uma alteração no percurso, que teve início e término no Largo da Sé Patriarcal, passando pela Praça do Município, Rua do Arsenal e Praça do Comércio (Terreiro do Paço).

A celebração, que decorreu ao longo de uma hora e meia e reuniu numerosos fiéis, contou também com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e do antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, entre outras individualidades da cidade e do país.

No final da sua reflexão, o Patriarca de Lisboa concedeu a bênção com o Santíssimo Sacramento aos milhares de fiéis presentes e à cidade.

 

O significado “simbólico” do novo percurso da procissão que é manifestação de fé e esperança

Numa entrevista exclusiva à Rádio Amparo, web rádio da Paróquia de Benfica, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, destacou a importância da tradicional procissão do Corpo de Deus, classificando-a como “uma forte manifestação de fé católica”. Referindo-se à edição deste ano, que apresenta alterações no percurso, o Patriarca explicou que a decisão teve como objetivo “salvaguardar a continuidade” da celebração e, simultaneamente, “proporcionar à cidade e aos participantes na procissão uma abrangência maior”.

Nestas declarações antes do início da procissão, D. Rui Valério sublinhou ainda o valor simbólico do novo trajeto, nomeadamente a passagem junto ao centro do poder local: “Aquilo que nós tivemos em conta foi sobretudo o aspeto simbólico dos locais por onde este ano vamos também passar. O facto de ser junto à Câmara Municipal de Lisboa tem o significado exatamente de visitarmos, desta forma simbólica, todos aqueles que habitam em Lisboa, que vivem, visitam e trabalham na cidade”.

Perante a forte adesão de fiéis, que se viam pelas ruas, o Patriarca rejeitou a ideia de que estas manifestações surjam apenas em resposta a tempos de incerteza. “São manifestações que brotam do fundo do ser humano a partir de uma relação, antes de mais, de amor para com o infinito que, em Jesus Cristo, se nos apresentou com um rosto bem concreto”, afirmou.

Comparando esta vivência com o desejo de encontro entre familiares afastados, acrescentou: “É isso que eu vejo aqui: pessoas apaixonadas e ‘enamoradas’ por Jesus, que procuram n’Ele não apenas uma palavra de orientação, mas também um preenchimento do seu interior, um sentido para a sua existência”.

Sobre o impacto da procissão na cidade, D. Rui Valério evocou a dimensão simbólica dos rituais, citando uma imagem inspirada em ‘O Principezinho’. “Os rituais não são um ritualismo ou um formalismo. São momentos em que a pessoa reveste o próprio coração com trajes de festa para assinalar que aquilo é especial”, observou.

Nesse sentido, concluiu que os lisboetas vivem esta celebração como um momento único: “É o momento em que o coração está revestido com os trajes da alegria, da festa e da esperança, pelo facto de ser algo de especial e de novo”.

 

Receber “o próprio Jesus”

De manhã, na Missa na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, celebrada na Sé Patriarcal de Lisboa, D. Rui Valério afirmou que “a Eucaristia não é uma coisa. A Eucaristia é uma Pessoa”, sublinhando que a Igreja vive da presença real de Cristo e não de uma simples ideia ou teoria religiosa.

Na homilia de dia 4 de junho, o Patriarca de Lisboa destacou que, em cada Missa, os fiéis recebem “o próprio Jesus”, Aquele que morreu e ressuscitou e permanece vivo no meio do seu povo. “Está presente Cristo vivo. E esta é a razão mais profunda da nossa alegria e da nossa esperança”, afirmou.

D. Rui Valério sublinhou ainda a humildade de Deus na Eucaristia: “Na Eucaristia, Deus faz-Se pequeno para que ninguém tenha medo de se aproximar d’Ele”, acrescentando que este sacramento é “o amor que nunca se cansa de esperar por nós”.

Referindo-se aos desafios do mundo contemporâneo, marcado pela solidão, pela falta de sentido e pelas divisões, o Patriarca afirmou que “a Eucaristia é a resposta de Deus à sede de infinito que habita cada pessoa” e recordou as palavras de Jesus: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a Mim nunca mais terá fome”.

Ao falar da procissão do Corpo de Deus pelas ruas da cidade, explicou o seu significado: “Não levamos Cristo pelas ruas para que Ele veja a cidade. Levamo-l’O para que a cidade se recorde de que Deus continua a caminhar connosco”.

Na conclusão da homilia, deixou uma interpelação aos fiéis: “A Eucaristia não transforma apenas o pão e o vinho. Quer transformar-nos a nós”, convidando cada cristão a levar Cristo para a vida quotidiana, para a família, o trabalho e as decisões difíceis.

“Enquanto houver um Sacrário aceso na terra, a humanidade nunca estará órfã”, concluiu D. Rui Valério, confiando à intercessão de Maria o desejo de que Lisboa, Portugal e o mundo reconheçam em Cristo “a fonte da verdadeira paz, da verdadeira esperança e da verdadeira vida”.

 

Corpo de Deus 2026

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