“A fé, quando é autêntica, é inseparável da caridade”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, encontrou-se com mais de 150 agentes da pastoral sócio-caritativa, provenientes de cerca de 50 instituições, na manhã desta sexta-feira, 27 de março, no Encontro da Quaresma 2026, no Centro Diocesano de Espiritualidade, no Turcifal, e defendeu que “os cristãos são chamados a percorrer o caminho da fecundidade invisível da bondade”.
Na abertura da iniciativa, após o acolhimento e a oração (Hora Intermédia), o diretor do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa, Manuel Girão, destacou a importância de momentos como este para fortalecer a comunhão entre instituições e agentes.
Segundo o responsável, o encontro pretendia ser um tempo para “parar um pouco neste turbilhão de acontecimentos que vamos tendo nas nossas respostas sociais e nas nossas comunidades”, permitindo aos participantes refletir e rezar juntos sobre a missão comum.
Manuel Girão sublinhou também os desafios que se colocam atualmente às instituições sociais, num contexto marcado por incertezas. “Não se avizinham tempos muito fáceis para as nossas instituições, porque a realidade do nosso país e do mundo traz uma série de incertezas. A única forma de conseguirmos enfrentar essa realidade é estando juntos e partilhando as nossas dificuldades”, garantiu.
A exortação ‘Dilexi Te’ como programa espiritual
A reflexão central do encontro foi conduzida pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, que apresentou a exortação apostólica ‘Dilexi Te’, do Papa Leão XIV, dedicada ao amor para com os pobres.
Perante responsáveis e colaboradores de diversas instituições de solidariedade ligadas à Igreja, o Patriarca começou por classificar o documento como mais do que um simples texto magisterial. “Não é apenas uma carta papal, mas um verdadeiro programa espiritual para o nosso tempo”, afirmou.
Partindo do título da exortação – que significa ‘Amei-te’ –, D. Rui Valério explicou que o texto convida a Igreja a regressar à fonte do amor de Cristo, sublinhando a inseparabilidade entre fé e caridade.
“A fé, quando é autêntica, é inseparável da caridade. O gesto de nos ajoelharmos perante o Santíssimo Sacramento transforma-se em serviço e em ação ao encontro do pobre e do irmão mais pequenino”, afirmou o Patriarca.
A “fecundidade invisível da bondade”
Entre os temas destacados na reflexão esteve a ideia da “fecundidade invisível da bondade”, expressão utilizada pelo Papa Leão XIV para descrever a força dos pequenos gestos de amor e proximidade.
Segundo D. Rui Valério, mesmo os gestos mais simples têm um valor profundo. “Nenhuma expressão de carinho, nem mesmo a menor delas, será esquecida, especialmente se dirigida a quem se encontra na dor, sozinho ou necessitado”, recordou, citando a exortação.
Para o Patriarca, os cristãos são chamados a viver uma lógica diferente da dominante na sociedade contemporânea: “Quando no nosso mundo só tem valor aquilo que é útil ou que dá lucro, os cristãos são chamados a percorrer um caminho diferente, o da fecundidade invisível da bondade”.
Os pobres, presença de Cristo
Na sua intervenção, no auditório do Centro Diocesano de Espiritualidade, D. Rui Valério sublinhou ainda que a relação da Igreja com os pobres não é apenas uma questão social, mas profundamente teológica.
“O pobre não é apenas uma causa social, mas uma presença teológica. O encontro com o pobre é um sacramento de Cristo”, observou.
Nesse sentido, para o Patriarca de Lisboa, a caridade não pode ser vista como uma atividade marginal da vida da Igreja, mas como o seu centro: “A caridade não é uma opção entre outras. É o coração da fé”.
O perigo de uma Igreja apenas “eficiente”
Durante a reflexão, o Patriarca alertou também para o risco de reduzir a ação caritativa a critérios meramente organizativos ou administrativos. Recordando uma experiência vivida com as Irmãs da Caridade, em Roma, sublinhou que a eficiência nunca pode substituir a proximidade humana.
“No dia em que as nossas instituições se focarem apenas na eficiência e desvalorizarem a ternura e a dimensão humana, seremos apenas funcionários de uma máquina”, advertiu.
Escutar: uma necessidade do mundo de hoje
Num momento de diálogo com os participantes, D. Rui Valério respondeu a diversas questões colocadas pelos agentes pastorais, sublinhando a importância do acompanhamento humano e espiritual.
Para o Patriarca, uma das maiores necessidades do mundo atual é simples: pessoas que saibam escutar. “O que o mundo hoje mais precisa é de ouvidos, de gente que oiça”, afirmou.
A escuta, explicou, é essencial para a missão da Igreja. “Escutar é dizer ao outro: entra, tens lugar cá dentro. A tua história deixa de ser apenas tua e passa a ser nossa”, frisou.
O Patriarca destacou ainda que a ação social da Igreja deve estar sempre ligada à dimensão espiritual e sacramental. “Dizer que o pobre é a carne de Cristo não pode estar desligado da Eucaristia. A Eucaristia tem de ser o centro da nossa vida: de lá tudo deve partir e para lá tudo deve confluir”, considerou.
Segundo D. Rui Valério, o serviço aos mais vulneráveis é também uma forma de participação no sacerdócio de Cristo, através da oferta da própria vida e do cuidado pelos outros.
Congresso da Pastoral Sócio-Caritativa em Mafra
No final do diálogo, o diretor do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa, Manuel Girão, anunciou a realização do 3.º Congresso da Pastoral Sócio-Caritativa, marcado para o próximo dia 15 de maio, no Auditório Municipal Beatriz Costa, em Mafra.
O responsável explicou que o encontro pretende ser um espaço de partilha de boas práticas e reflexão conjunta, abordando temas como o envelhecimento ativo e a educação.
“Queremos que seja um congresso muito participativo, onde estejam não só as direções, mas também profissionais, voluntários e utentes das instituições”, desejou Manuel Girão.
Filme sobre o ‘Jubileu da Caridade’
A manhã no auditório do Centro Diocesano de Espiritualidade terminou com a projeção de um filme sobre o ‘Jubileu da Caridade no Patriarcado de Lisboa’, preparado pelo Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa, a propósito do dia vivido a 6 de junho de 2025, no Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal, que reuniu cerca de 1200 participantes, entre utentes, colaboradores e voluntários de 44 instituições sociais da diocese.
“O ano passado, em 2025, vivemos a bênção de termos o Jubileu da Caridade e muito foi feito. A cruz do jubileu peregrinou por toda a diocese, conseguimos estar em todas as realidades do nosso departamento, desde os reclusos aos migrantes, às pessoas com deficiência, às pessoas em condição de sem-abrigo, aos jovens, às crianças, aos idosos, aos doentes. A cruz do jubileu percorreu todas estas realidades e, no final, fizemos um grande encontro, com o Senhor Patriarca, no Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal. É esse filme que vamos ver”, explicou o diretor do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa, Manuel Girão.
“Mas o Senhor está comigo”
O Encontro da Quaresma 2026 terminou com a celebração da Eucaristia, na capela principal do Centro Diocesano de Espiritualidade Imaculado Coração de Maria, no Turcifal, presidida pelo Patriarca de Lisboa.
Na homilia, D. Rui Valério destacou a força da palavra “mas” na vida cristã, inspirando-se na experiência do profeta Jeremias e no Evangelho. “Essa pequena palavra tem valor libertador: ‘Mas o Senhor está comigo como herói poderoso’. Nada está perdido quando Deus entra na nossa história”, afirmou.
Para o Patriarca, esta palavra simboliza a fé que transforma a realidade e abre caminhos de esperança. “A fé na nossa vida deve ter esta força: inverter a situação e abrir um caminho novo”, observou.
Concluindo, D. Rui Valério convidou os agentes da pastoral sócio-caritativa a continuar a testemunhar o Evangelho através do amor concreto: “Que hoje o mundo possa dizer não apenas ‘olhem como eles se amam’, mas também ‘olhem como eles nos amam’, sobretudo os mais pobres e vulneráveis”.
Desafios éticos colocados pela tecnologia
Da parte da tarde, após o almoço, realizou-se no Centro Diocesano de Espiritualidade, no Turcifal, a Assembleia Geral da Federação Solicitude – Federação dos Centros Sociais e Paroquiais e Outras Entidades Canónicas de Ação Sócio-Caritativa, Formação, Ensino e Saúde.
O encontro reuniu dirigentes e técnicos de instituições associadas, tendo como pontos principais a apresentação do relatório de atividades e contas de 2025 e o debate de diversos assuntos de interesse para as instituições da rede.
Na sessão de abertura da Assembleia Geral, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, partilhou uma reflexão inspirada no documento do Dicastério para a Doutrina da Fé intitulado ‘Quo vadis, humanitas?’ (‘Onde vais, humanidade?’), que analisa o impacto crescente da tecnologia e da inteligência artificial na vida humana.
O Patriarca destacou que o documento questiona a forma como a sociedade contemporânea começa a aceitar a substituição ou modificação de dimensões do ser humano através da tecnologia, muitas vezes em nome da eficácia ou da melhoria do desempenho.
“Constata-se que, na ótica desta nova mentalidade técnica, já não existem obstáculos para substituir parcelas do ser humano por tecnologia, sempre com o argumento de uma maior eficácia ou de melhor desempenho”, afirmou.
Segundo D. Rui Valério, esta tendência levanta interrogações profundas sobre o lugar das pessoas mais frágeis numa sociedade cada vez mais orientada para a performance. “Começa a emergir uma mentalidade segundo a qual o nível exigido para o ser humano é sempre o do topo. E para lá chegar parece que a sociedade está disposta a tudo, até a transformar a própria identidade humana”, alertou.
Dirigindo-se aos responsáveis das instituições sociais, o Patriarca sublinhou que estas realidades exigem atenção e reflexão por parte de quem trabalha ao serviço das pessoas mais vulneráveis.
“A razão de ser da nossa ação é o ser humano, na sua capacidade, mas também na sua vulnerabilidade. E a vulnerabilidade não diminui a dignidade da pessoa”, reforçou.
D. Rui Valério concluiu deixando uma pergunta central, inspirada no próprio documento da Santa Sé: “Quem é afinal o homem? Qual é o ser humano que estamos a servir e que queremos servir?”.