O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, presidiu à Vigília de Oração pela Paz, na noite desta quinta-feira, dia 26 de março, na Basílica da Estrela, e apelou a que os cristãos não esqueçam as populações afetadas pelos conflitos armados, lembrando que “a guerra pertence ao reino das sepulturas” e que “a paz será possível quando a própria humanidade se sentir renovada no seu coração”.
A iniciativa, promovida pelo Patriarcado de Lisboa sob o lema ‘Dai-nos a Vossa Paz’, reuniu fiéis, responsáveis civis e militares e incluiu momentos de silêncio, testemunhos, escuta da Palavra de Deus e adoração do Santíssimo Sacramento.
Na saudação inicial, D. Rui Valério recordou palavras de Martin Luther King, ativista político norte-americano, para alertar contra a indiferença perante o sofrimento provocado pela guerra. “Mais do que estar preocupado com a maldade dos maus, o que o preocupava era a indiferença dos bons”, lembrou.
O Patriarca evocou também um diálogo recente com o bispo do Chipre, auxiliar do Patriarca Latino de Jerusalém, que lhe pediu simplesmente que os cristãos não se esqueçam das populações afetadas pelos conflitos. “Ele limitou-se a dizer isto: ‘Não se esqueçam de nós. Tenham-nos presentes’”, partilhou.
Neste contexto, D. Rui Valério convidou os participantes a fazer da oração um gesto de comunhão com todos os que vivem o drama da guerra. “Que através de nós, pela nossa oração e pela nossa fé, se abra uma nesga para que a força de Deus possa fazer aquilo que a força dos homens parece já não ser capaz: transformar campos de morte em campos de vida”, pediu.
“A paz pertence a quem venceu a morte”
Na homilia da Vigília de Oração pela Paz, o Patriarca de Lisboa partiu das palavras de Jesus ressuscitado – «Dou-vos a minha paz» – para sublinhar que a verdadeira paz nasce da transformação interior da pessoa. “A paz pertence a quem venceu já a morte ou as mortes na sua vida. A guerra pertence ao reino das sepulturas, ao domínio das trevas e da morte”, frisou.
Segundo D. Rui Valério, a construção da paz começa por vencer as “mortes” presentes na vida humana, como a violência, o egoísmo, o materialismo ou o vazio existencial: “A paz será possível quando a própria humanidade se sentir renovada no seu coração”.
O Patriarca recordou também o significado bíblico da palavra hebraica ‘shalom’, explicando que a paz é apresentada na Sagrada Escritura como “a bênção das bênçãos”, pois é condição para todas as outras realidades da vida humana.
“Só com a paz é possível a colheita boa, a posse da terra, a geração das gerações. Só com ela é possível o desenvolvimento, a escola e a vida”, destacou.
Dois gestos ao alcance de todos
Na reflexão dirigida aos participantes, D. Rui Valério apontou dois gestos simples que todos podem assumir na promoção da paz: a oração e a memória das vítimas da guerra. “Pelo muito pouco que eu possa fazer pela paz, há duas coisas ao alcance de todos nós: acreditar que, na oração, é possível o acontecer da paz; e não esquecer os países, as comunidades e as pessoas que são vítimas da violência da guerra”, pediu.
Durante a vigília, cada participante recebeu um pequeno papel com o nome de uma pessoa concreta que vive atualmente numa zona de conflito, como sinal de compromisso de oração e de proximidade. Um gesto que foi destacado pelo Patriarca: “Somos apenas uma pequenina gotinha neste oceano que é o mundo, mas o mar seria mais pobre sem aquela gotinha que és tu”.
Segundo o pároco da Estrela, Cónego Duarte da Cunha, todos os nomes escritos nos papéis eram “de pessoas concretas, reais”. “Posso assegurar que pedi estes nomes a pessoas que as conhecem: o Bispo de Teerão, Cardeal Mathieu, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, os Padres Espiritanos, os escuteiros do Líbano, a Cáritas, um diácono Maronita, um padre que está na Jordânia e que pediu também nomes a uma irmã que está em Gaza, a famílias que têm pessoas amigas ou conhecidas, um padre e um Bispo da Ucrânia…”, revelou o sacerdote.
A Vigília de Oração pela Paz rezou, desta forma, pelas “populações do Irão, do Iémen, e de todo o Médio Oriente”, mas também pelos “cristãos que vivem em sofrimento na Terra Santa”, pelas “populações da Ucrânia”, pelos “povos do Sudão do Sul, da Somália, dos Camarões, da República Democrática do Congo, do Sudão, da Nigéria, do Burkina Faso, da República Centro Africana, da Etiópia, da Nigéria, do Mali”, e ainda por “Cabo Delgado, e todo o norte de Moçambique”, sem esquecer “Myanmar”.
“Deus da Paz, olhamos também para nós mesmos, examinando a consciência. E porque a guerra não começa só ao longe, mas também na dureza das nossas palavras, na indiferença, no modo como tratamos os outros e nas faltas de amor tão frequentes, dai-nos, Senhor, a coragem de escolher, todos os dias, o perdão e a paz”, rezaram os fiéis e as pessoas de boa vontade que participaram na vigília.
Testemunho do general Lemos Pires
A vigília teve início com o testemunho do general Lemos Pires, que partilhou experiências vividas em missão militar no Afeganistão. O militar recordou episódios marcantes do seu serviço e sublinhou o sentido de missão e de serviço associado à defesa da vida humana. “Nós, aqueles que vestimos farda, somos guardiões das almas e peregrinos do bem”, salientou.
Entre os episódios recordados esteve um encontro vivido na noite de Natal numa mesquita em Cabul, onde militares portugueses e muçulmanos rezaram juntos pelas populações afetadas pela guerra: “Rezámos juntos pelo bem das nossas populações”.
Para o general, mesmo pequenos gestos podem ter impacto real na vida das pessoas. “Mesmo que seja só uma vida que salvamos ou uma vida a quem damos esperança, trazemos muito mais felicidade ao mundo”, garantiu o general Lemos Pires.
Gratidão pela presença e compromisso pela paz
No final da Vigília de Oração pela Paz, após a bênção com o Santíssimo Sacramento, o Patriarca de Lisboa agradeceu a presença de todos os participantes e sublinhou que cada pessoa pode contribuir para a construção da paz. “Cada um de nós pode fazer a diferença”, garantiu.
D. Rui Valério destacou também que a vigília respondeu a um apelo do Papa Leão XIV, que tem insistido na necessidade de iniciativas concretas em favor da paz. “O nosso encontro foi uma resposta à solicitação do Santo Padre, que tem sido incansável nas iniciativas e nas mensagens para que a paz reine e impere na terra”, lembrou.
Dirigindo-se particularmente aos militares presentes, o Patriarca deixou uma palavra de reconhecimento: “A paz é exatamente a vossa profissão, a vossa arte”.
A celebração terminou com um agradecimento dirigido a todos os participantes, numa expressão que D. Rui Valério considerou “a palavra mais bonita que temos em Portugal”: “Um grande obrigado a cada uma e a cada um de vós”.
A Vigília de Oração pela Paz organizada pelo Patriarcado de Lisboa contou com a presença do Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, um representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros, um representante do Ministro da Defesa Nacional, do líder parlamentar do CDS-PP, Paulo Núncio, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, do vice-presidente da autarquia, Gonçalo Reis, e do vereador Vasco Anjos, de diversas autoridades militares, do presidente da Junta de Freguesia da Estrela, Luís Almeida e Mendes, bem como de D. Isabel de Bragança e do filho D. Dinis, da Casa Real Portuguesa.
Estiveram também presentes representantes de outras Igrejas cristãs, nomeadamente da Igreja Lusitana, da Igreja Anglicana e ainda da Igreja Ortodoxa.
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