Lisboa |
Quarto encontro quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’
“A Igreja de Lisboa precisa de uma profunda conversão missionária”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, debateu com a jornalista e escritora Maria João Avillez sobre as tentações à Igreja, no quarto e último encontro quaresmal do ciclo ‘Com Jesus, ao deserto’, que decorreu na Póvoa de Santo Adrião, na noite desta sexta-feira, dia 20 de março, afirmando que “a Igreja quer ser uma presença de Cristo vivo no mundo” e, alertando que “a verdadeira tentação é o mundanismo”, defendeu ainda a necessidade de “uma profunda conversão missionária”.

Na igreja paroquial de Nossa Senhora da Anunciação, na Póvoa de Santo Adrião, Maria João Avillez traçou, na abertura do encontro quaresmal, um retrato exigente da atualidade, marcada pelo medo, pela violência e por uma “mistura tóxica” entre o mal e a sua amplificação mediática. Defendeu a necessidade de “uma Igreja sem medo”, capaz de afirmar a verdade do Evangelho com clareza e de forma acessível a todos.

A jornalista e analista política alertou ainda para divisões internas na Igreja, sublinhando o risco de polarizações entre diferentes sensibilidades, que podem fragilizar a unidade e a missão junto do “imenso povo do rebanho de Deus”.

 

Igreja chamada a ser presença de Cristo no mundo

Na sua intervenção inicial, o Patriarca D. Rui Valério destacou que a identidade da Igreja não se esgota numa dimensão social ou organizativa, mas radica essencialmente na presença viva de Cristo.

“A realidade da Igreja em todos os tempos nunca se quis confundir com mais uma instância do mundo ou da sociedade. A Igreja quer ser uma presença de Cristo vivo no mundo. Isso é que lhe dá sentido e é aí que vai alcançar a sua força”, salientou.

O Patriarca sublinhou que, antes de qualquer projeto ou resposta social, a Igreja existe para tornar presente essa realidade espiritual. “Antes de ser um projeto de sociedade, a Igreja quer ser igual a uma presença de Cristo vivo no mundo”, reforçou.

 

As tentações: mundanismo, ideologia e moralismo

D. Rui Valério identificou depois três grandes tentações que atravessam a Igreja ao longo do tempo: o mundanismo, quando adota critérios do mundo; o idealismo desligado da realidade concreta; e o moralismo, centrado em proibições.

Sobre a primeira, afirmou: “A verdadeira tentação é o mundanismo, é quando os critérios do mundo se infiltram e nos condicionam”. Ilustrando esta realidade, acrescentou: “Imaginem se entre o clero existisse aquela coisa da carreira, ver quem chegava mais alto ao topo…”

Quanto ao distanciamento da realidade, advertiu: “Existe a tentação de abstrair da vida real, viver numa ‘bolha’, distante da vida concreta de sofrimento, dor e também de alegria”.

E relativamente à terceira tentação, o moralismo, alertou para as suas consequências históricas e o impacto negativo na vivência da fé. “Ao longo dos séculos houve uma existência muito persistente deste moralismo, do ‘não podes’, do ‘não deves’”, lembrou, alertando para as consequências: “As pessoas estão dispostas a ser tudo menos cristãs quando a fé é reduzida a proibições”.

 

A missão da Igreja: anunciar a salvação

Na ‘sua’ Paróquia da Póvoa de Santo Adrião, onde foi pároco durante sete anos, o Patriarca centrou a missão essencial da Igreja na oferta da salvação ao ser humano. “Qual é o bem precioso que a Igreja tem para oferecer? É a salvação. Acreditar que o homem não é um ser condenado à tragédia do nada, mas chamado à salvação”, frisou.

No entanto, levantou uma questão decisiva para o presente: “A minha dúvida é se o homem tem essa apetência”. Num contexto marcado por preocupações imediatas, D. Rui Valério destacou que a Igreja tem o olhar naquilo que “tem a ver com o eterno”.

Depois, alertou para o risco de reduzir a Igreja a uma dimensão social: “Se a Igreja perde essa referência, pode ser identificada como mais uma IPSS”.

 

Conversão missionária como desafio para Lisboa

Referindo-se concretamente à realidade diocesana, o Patriarca apontou a necessidade de uma renovação profunda. “A Igreja de Lisboa precisa de uma profunda conversão missionária”, considerou.

E explicou o alcance desta transformação, manifestando que “esta abertura e esta fé de que o que possuímos é decisivo para a transformação da sociedade”.

Neste sentido, deixou ainda uma reflexão sobre a esperança ativa e o amor ao próximo: “Não esperar nada de uma pessoa é a forma mais atroz de dizer que não se ama aquela pessoa”.

 

Inteligência artificial e dignidade humana

O diálogo abordou também a relação entre o ser humano e a tecnologia, em particular a inteligência artificial. D. Rui Valério sublinhou que os avanços civilizacionais estão ligados à valorização da pessoa humana: “Os passos em termos de civilização aconteceram porque a palavra de Jesus não ficou como palavra morta”. E acrescentou: “O ser humano foi progressivamente tomando consciência da dignidade que o assiste”.

Perante os desafios atuais, advertiu que “a inteligência artificial nunca pode ser um substituto do ser humano”. E reforçou a necessidade de discernimento: “Não podemos ser automáticos”.

Sublinhando o risco de inversão de valores, advertiu para uma sociedade centrada apenas na eficiência. “Aquilo que se quer saber é se és competente. Estamos a aplicar ao ser humano os mesmos critérios que aplicamos a uma máquina”, manifestou.

Ainda assim, rejeitou uma visão alarmista, defendendo um discernimento ético: “Não quero um manifesto contra a inteligência artificial, mas recuperar que a tecnologia seja um instrumento”.

 

A força ética da Igreja

A concluir, D. Rui Valério recordou que, apesar dos desafios, a Igreja possui uma força própria e insubstituível. “A Igreja possui uma força que é aquela força da ética, a força da causa do ser humano”, analisou.

O encontro deixou, assim, um convite à reflexão quaresmal sobre a identidade e missão da Igreja, chamada a viver sem medo, fiel ao Evangelho e atenta aos desafios do mundo contemporâneo.

 

Perguntas da assistência: desafios concretos à missão da Igreja

No diálogo com a assistência, foram colocadas várias questões centradas na concretização da missão evangelizadora da Igreja. Um primeiro interveniente questionou se os meios já existentes – como o apoio social a famílias e as valências educativas – estão a ser plenamente aproveitados como oportunidade de evangelização.

Em resposta, o Patriarca de Lisboa reconheceu o empenho da comunidade da Póvoa de Santo Adrião, sublinhando que “não haja dúvida de que é uma comunidade verdadeiramente empenhada e comprometida com a tarefa do testemunho”, mas destacou que o fruto da ação evangelizadora nem sempre é visível: “O impacto transformador pertence à ordem do invisível”.

Recorrendo à imagem evangélica da semente, acrescentou: “Sabemos apenas que a semente morre, mas não vemos o que acontece no coração das pessoas”. Ainda assim, apontou sinais de esperança, nomeadamente entre os mais jovens. “Nota-se que há ali um desejo de Deus. Quem sabe se todo esse trabalho silencioso não está relacionado com isso”, desejou D. Rui Valério.

Reforçando o apelo à missão, concluiu: “O grande desafio é a conversão missionária, esta ousadia de partilhar com o outro aquilo que nos alimenta”.

Por fim, foi colocada a questão do diálogo com outras religiões, num contexto de crescente diversidade cultural e religiosa. O Patriarca de Lisboa reconheceu a complexidade histórica dessa relação, mas apontou o caminho do respeito e da convivência: “No nosso dia a dia, é através do respeito e de não assumirmos uma atitude de rejeição ou de condenação”.

Mais do que estratégias, D. Rui Valério destacou o testemunho pessoal como essencial. “O caminho é empenhares-te em ser profundamente cristão, viveres o Evangelho, seres fiel a Cristo”, manifestou, concluindo ao apontar Cristo como centro da missão: “Apresentar-se como o rosto de Cristo, a Cristo ninguém vai resistir”.

Após o momento de diálogo, o itinerário espiritual ‘Com Jesus, ao deserto - Discernir as tentações do nosso tempo à luz do Evangelho’ prosseguiu com a exposição do Santíssimo e confissões.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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