Lisboa |
Terceiro encontro quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’
“Vamos sair um pouco da sacristia. A vossa fé tem de acontecer na sociedade”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, refletiu sobre as tentações aos jovens, no terceiro encontro quaresmal do ciclo ‘Com Jesus, ao deserto’, que decorreu em Miraflores, na noite desta sexta-feira, dia 13 de março, afirmando que “a fé é uma chamada, um convite”, que se vive na “liberdade” e no “desejo” de ir ao encontro de Jesus, e desafiando os jovens a levarem os valores do Evangelho para a vida social, incluindo a “economia” e a “política”.

Na Igreja da Santíssima Trindade, em Miraflores, o tema da sessão foi ‘Tentações aos jovens: Escolher quando tudo é provisório’, numa conversa entre o Patriarca de Lisboa e o jovem José Maria Machado da Graça, estudante de 22 anos de Mestrado em Engenharia e Gestão de Energias no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, que pertence ao Movimento Apostólico de Schoenstatt. Durante o diálogo, foram abordados temas como a liberdade interior, o silêncio, o autoconhecimento, a santidade no quotidiano e o compromisso dos jovens cristãos na sociedade.

 

Educar o coração para uma liberdade verdadeira

Questionado pelo jovem universitário sobre como a Igreja pode ajudar a juventude a encontrar uma verdadeira liberdade interior, sem reduzir a fé a um conjunto de práticas exteriores, D. Rui Valério destacou a importância do desejo como motor da vida espiritual.

“Eu sou muito amigo dos desejos. Os desejos são das coisas mais belas que o ser humano pode desenvolver dentro de si”, afirmou, alertando, no entanto, para o risco de estes se limitarem ao “efémero” e à “satisfação imediata”.

Segundo o Patriarca, o desejo é essencial para o encontro com Deus: “Dificilmente nós nos mobilizaremos a ir ao encontro de Jesus, a sair das nossas zonas de conforto, se não o desejarmos”.

Na sua reflexão, sublinhou ainda que a fé nasce de um diálogo entre Deus e o ser humano. “A fé é uma chamada, é um convite. Sentir que eu sou chamado e que a esta chamada eu respondo. Essa resposta é sempre a realização de uma liberdade”, destacou.

Para D. Rui Valério, é precisamente na liberdade humana que se manifesta a presença de Deus: “A liberdade é sinal de Deus, é uma das manifestações da sua presença real no meio de nós”.

 

Parar para refletir e encontrar sentido

Outra das preocupações apresentadas pelos jovens prende-se com o ritmo acelerado da vida, que parece deixar pouco espaço para o silêncio e para a reflexão interior. Perante esta realidade, o Patriarca afirmou que o primeiro desafio de cada pessoa é aprender a conhecer-se a si própria: “O principal desafio que se coloca a qualquer um de nós é em relação a si mesmo”.

Recordando o antigo apelo “conhece-te a ti próprio”, sublinhou que este continua a ser um caminho fundamental para toda a vida.

D. Rui Valério alertou ainda para novas formas de “analfabetismo” presentes na sociedade contemporânea: “Há um analfabetismo afetivo, há um analfabetismo espiritual, há um analfabetismo existencial e há um analfabetismo pessoal”.

Neste contexto, destacou o papel da Igreja ao apresentar Jesus Cristo como referência para compreender o próprio ser humano e a realidade. “A Igreja tem essa oferta para ti, oferecendo Jesus Cristo”, realçou, acrescentando que o próprio Cristo se apresenta como caminho para a vida humana: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

 

Enfrentar a realidade e não fugir às dificuldades

Na reflexão sobre a santidade no mundo atual, o Patriarca apontou também uma tentação frequente: a fuga às dificuldades. “Vejo também que há uma grande tentação de fugir”, lamentou, questionando a forma como os jovens reagem perante o fracasso, a frustração ou o insucesso.

Segundo D. Rui Valério, a sociedade tende muitas vezes a esconder as realidades mais duras da vida, como o fracasso ou a morte, o que pode fragilizar a capacidade de enfrentar a realidade. “A vida às vezes é dura, não é todos os dias, mas por vezes é”, sublinhou, interrogando: “Estamos preparados para enfrentar essa realidade?”.

Para o Patriarca, aprender a lidar com as contrariedades faz parte do crescimento humano e espiritual.

 

Jovens chamados a transformar a sociedade

No final do diálogo, D. Rui Valério lançou um desafio direto aos jovens presentes, incentivando-os a assumir um papel ativo na sociedade. “Os jovens trazem consigo um manancial transformador e único”, considerou. “Ser jovem é ter projetos”, acrescentou.

Nesse sentido, apelou a que os jovens cristãos levem a sua fé para os diferentes âmbitos da vida social, incluindo a economia e a política: “Quero desafiar-vos a empenhar-vos na sociedade, na política concretamente. A viver a vossa fé nesse meio da economia, da política, da sociedade – é ali que eu quero ter os jovens católicos”.

Para o Patriarca de Lisboa, o Evangelho não pode ficar limitado ao espaço da Igreja, mas deve inspirar a transformação da sociedade. “Vamos sair um pouco da sacristia. A vossa fé, os valores do Evangelho, têm de acontecer na sociedade”, pediu.

Concluindo a sua intervenção, deixou um apelo aos jovens para que assumam com coragem esta missão: “Por favor, abracem isto a sério. Força, coragem. Não estou a falar de que partido, estou a falar do bem comum”.

 

Perguntas da assistência aprofundaram desafios da fé

Após o diálogo inicial, o encontro contou ainda com três perguntas colocadas pela assistência, que permitiram aprofundar alguns desafios concretos da vivência da fé.

A primeira intervenção abordou a situação de pessoas que, apesar de terem sido educadas na fé católica, acabam por afastar-se e considerar a religião apenas um mito. Em resposta, D. Rui Valério sublinhou que “o primeiro passo é sempre o respeito pelo caminho pessoal de cada um”. O Patriarca recordou que o encontro com Deus é, antes de mais, iniciativa do próprio Deus e não resultado de uma imposição humana: “Não somos nós a encontrar Deus; Ele é que nos encontra a nós”. Por isso, destacou a importância da oração e do testemunho de vida, acrescentando que, muitas vezes, é através da experiência pessoal que a pessoa redescobre essa presença de Deus.

Numa segunda questão, um jovem referiu o desafio de viver a fé numa sociedade marcada por excesso de informação e por múltiplas correntes de pensamento, questionando como a Igreja pode ajudar os jovens a aprofundar melhor a doutrina e a Sagrada Escritura. O Patriarca reconheceu que, nas últimas décadas, houve uma certa tendência para afastar a dimensão doutrinal da vida cristã. “A dimensão mais doutrinal do cristianismo acabou por ficar muitas vezes reservada aos eruditos”, afirmou. Contudo, considera que o tempo atual desafia a Igreja a recuperar esse equilíbrio, oferecendo uma pastoral “próxima” dos jovens, mas sustentada numa “base sólida de verdade e formação”.

A terceira pergunta centrou-se no apostolado e na forma de transmitir a fé, questionando se há um elemento mais importante entre a oração, o testemunho de vida e o anúncio explícito do Evangelho. Na resposta, D. Rui Valério explicou que a tradição católica não separa estas dimensões, mas integra-as. “O catolicismo não é o ‘só’, é o ‘e também’”, afirmou, sublinhando que a vida cristã se constrói precisamente na conjugação entre “oração, ação, testemunho e anúncio da fé”.

Tal como nas duas sessões anteriores de ‘Com Cristo, ao deserto’, após a reflexão e debate teve lugar a adoração do Santíssimo, com os sacerdotes a estarem disponíveis para a confissão dos jovens.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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