O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, inaugurou em Alvorninha, na manhã deste Domingo III da Quaresma, dia 8 de março, um busto de homenagem ao filho da terra e antigo Cardeal-Patriarca, D. José Policarpo. Pela primeira vez nesta freguesia de Caldas da Rainha, D. Rui Valério destacou o significado simbólico da escultura e o modo como traduz a dimensão espiritual do antecessor falecido em 2014. “Ele está a olhar para o Céu, para o horizonte, para nos indicar verdadeiramente que essa é a nossa pátria”, observou.
Nascido em 1936, D. José Policarpo foi homenageado pela sua paróquia, Alvorninha, nas Caldas da Rainha, no ano em que completaria 90 anos de vida, com a inauguração de um busto, colocado junto à Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Visitação. O memorial foi inaugurado pelo atual Patriarca de Lisboa, que na sua intervenção enfatizou o simbolismo da obra, sublinhando como esta reflete a profundidade espiritual do percurso de D. José Policarpo. “Há um pormenor que me chama logo à atenção, que é o horizonte, a meta a que o Senhor D. José mira. Ele está a olhar para o Céu, para o horizonte, para nos indicar verdadeiramente que essa é a nossa pátria”, afirmou. Segundo D. Rui Valério, este olhar para o alto revela a forma como o antigo Patriarca entre 1998 e 2013 viveu o seu ministério e a sua vida cristã: “É aspirando às coisas do alto que nós vamos sendo grandes na santidade, no amor, no empreendimento das pequenas tarefas quotidianas”. A obra escultórica, da autoria de Carlos Oliveira, foi inaugurada num momento de festa para a freguesia, que reuniu responsáveis civis, representantes da comunidade local e muitos paroquianos, numa homenagem à memória de uma das figuras mais marcantes da Igreja em Portugal nas últimas décadas. Na presença de dois dos irmãos do antecessor, Maria da Graça e Fernando, e também de alguns sobrinhos, o Patriarca sublinhou ainda que a grandeza espiritual de D. José Policarpo, falecido a 12 de março de 2014, com 78 anos, se refletia também nas realidades mais simples do dia a dia. “Quando nós somos, como D. José foi, conduzidos por uma elevação e grandeza, cujo padrão era a própria vida eterna, era o próprio Céu, era Deus, então, até nas tarefas mais simples, mais quotidianas, transpiravam, respiravam dessa grandeza”, salientou. No final, D. Rui Valério deixou uma palavra de reconhecimento ao autor da obra: “Ao senhor escultor Carlos Oliveira, um grande bem-haja e certamente foi conduzido pela luz e pela inspiração do Espírito Santo”. Um escultor marcado pelo humor e profundidade do Cardeal Policarpo O escultor Carlos Oliveira explicou que acolheu o convite da paróquia como um verdadeiro serviço à comunidade. “Para mim, é sempre um gosto quando sou chamado a servir”, afirmou, sublinhando que trabalhar em comunidades mais pequenas tem um significado especial: “Quando são meios mais pequenos, eles acabam por ter um outro olhar e outro ponto de vista”. Homem de fé, o artista contou que pediu desde o início o envolvimento espiritual da comunidade no processo criativo. “Desde a primeira hora peço sempre a oração e o envolvimento de todos os paroquianos”, contou. Carlos Oliveira recordou também um encontro que teve com D. José Policarpo, aquando da inauguração de um memorial a Monsenhor Basto, em Peniche. Nesse dia, partilhou com humor uma observação do antigo Patriarca: “Ele dizia que, se um dia lhe fizessem um monumento, que não lhe fizessem algo onde as gaivotas pousassem e deixassem algum registo menos apropriado”. Para além da boa disposição, o escultor destacou a profundidade de uma reflexão que ouviu nesse momento. D. José Policarpo explicou-lhe que um memorial “acaba por ser tornar vida algo que a própria memória vai transformando”, estabelecendo depois uma analogia com a vida cristã: “A Eucaristia é a memória que nós comemoramos todos os Domingos”. Homenagem da comunidade O presidente da Junta de Freguesia de Alvorninha, Filipe Vicente Caetano, destacou o orgulho da comunidade em homenagear um filho da terra. Recordando que foi nesta freguesia que D. José Policarpo nasceu e iniciou o seu percurso de vida, sublinhou que a homenagem pretende reconhecer “uma figura maior da Igreja em Portugal” e preservar a memória de “uma vida marcada pela fé, pela inteligência e pelo serviço”. Também o presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Vítor Marques, salientou que o momento foi vivido com alegria e reconhecimento. Segundo afirmou, o busto recorda a “mensagem” e o “exemplo” deixados por D. José Policarpo, convidando todos a refletir e a procurar “fazer melhor” pela comunidade. Por fim, o presidente da Assembleia Municipal das Caldas da Rainha, Fernando Costa, recordou a relação pessoal que manteve com o antigo Patriarca, destacando a sua vasta “cultura” e “inteligência superior”. Fernando Costa sublinhou também o interesse que D. José Policarpo demonstrava pelo desenvolvimento das Caldas da Rainha e de Alvorninha, recordando projetos ligados à Universidade Católica Portuguesa. O antigo autarca de Caldas da Rainha durante 28 anos, entre 1985 e 2013, manifestou ainda gratidão pela “atenção” e “dedicação” que o antigo Patriarca manteve sempre à sua terra natal, afirmando que todos lhe “devem reconhecimento pelo seu empenho e pela paixão” por Alvorninha e pelas Caldas da Rainha. Após a inauguração do busto, teve lugar um almoço convívio oferecido pela paróquia, no Pavilhão do Centro de Desenvolvimento D. José Policarpo. “Celebrar em espírito de esperança a memória viva de D. José Policarpo” O dia de festa em Alvorninha, na manhã deste Domingo, teve início com a Eucaristia presidida pelo Patriarca de Lisboa, que antecedeu a inauguração do busto de homenagem ao antigo Cardeal-Patriarca de Lisboa D. José Policarpo. Na saudação inicial, D. Rui Valério destacou o sentimento de gratidão que reuniu a comunidade diocesana naquele momento. “Um dia muito alegre, porque somos convocados por um sentimento de gratidão comum, diocesano, que é aquele de fazermos a memória e, ao mesmo tempo, de nos sentirmos como que chamados a um justo reconhecimento”, afirmou. O Patriarca de Lisboa sublinhou que a celebração era mais do que uma simples homenagem: “Mais que homenagem é verdadeiramente celebrar, em espírito de esperança, a memória viva de D. José da Cruz Policarpo”. Recordando o percurso do antigo Patriarca, D. Rui Valério salientou que, sendo “um filho da terra”, foi chamado a servir a Igreja em diferentes responsabilidades: primeiro como presbítero do Patriarcado de Lisboa, depois como Bispo Auxiliar e, mais tarde, como Patriarca. A sua missão ultrapassou também os limites da diocese. “Assumiu durante muitos anos a responsabilidade da presidência da Conferência Episcopal Portuguesa e, em virtude do chamamento ao cardinalato, tornou-se da Igreja, e dessa maneira, um conselheiro, um auxílio preferencial de primeira linha”, referiu, recordando o serviço prestado aos Papas São João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Por isso, acrescentou, trata-se de “uma figura cuja importância e a relevância é literalmente universal”. “Deixa-te conquistar por Cristo” Na homilia, inspirada no Evangelho da samaritana, D. Rui Valério sublinhou que o encontro com Cristo transforma a vida e conduz à verdadeira plenitude. “Que deves fazer para conquistar a água viva, que é a plenitude da vida? Deixa-te conquistar”, aconselhou. O Patriarca explicou que, quando alguém se deixa alcançar por Cristo, descobre “a verdadeira fonte da vida”, tal como a mulher do Evangelho que, depois do encontro com Jesus, se torna “missionária” e vai “anunciar” aos outros aquilo que encontrou. Ligando esta mensagem à vida de D. José Policarpo, D. Rui Valério recordou que o antigo Patriarca testemunhou muitas vezes que a sua própria vida foi marcada por essa experiência de ser conquistado por Cristo. “Quantas não foram as vezes em que ele testemunhou esta faceta da sua existência de que ele foi alguém que se deixou conquistar por Cristo”, disse, lembrando especialmente os encontros com jovens, onde repetia que “na medida em que somos conquistados por Jesus, nós conquistamos a felicidade”. Ao recordar o ministério do antecessor, o Patriarca destacou particularmente o seu empenho na evangelização e na missão. Entre as muitas iniciativas, lembrou o ICNE - Congresso Internacional para a Nova Evangelização, realizado em Lisboa, em 2005, que mobilizou “multidões” na capital, especialmente aquando da passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Para D. Rui Valério, este acontecimento revela duas características fundamentais do antigo Patriarca: “Em primeiro lugar, este zelo pela evangelização” e também a sua profunda “devoção mariana”. Usando uma expressão que dizia muito ao Papa Francisco, o Patriarca acrescentou que D. José Policarpo viveu “sempre com o olho e com o coração nas periferias, onde ele queria chegar”. Por isso, deixou também um apelo à comunidade cristã: “O maior e melhor presente que nós fazemos a alguém é conseguir que esse alguém se aproxime da água viva que é Cristo”. E reforçou: “Se queremos homenagear D. José Policarpo, a melhor homenagem que lhe prestamos é não deixar que esta chama da evangelização e da missão se extinga ou apague da nossa Igreja”. D. Manuel Clemente recorda décadas de convivência Presente na celebração, o Patriarca Emérito de Lisboa, Cardeal D. Manuel Clemente, evocou a figura e o legado do seu predecessor, partilhando um testemunho pessoal marcado “por décadas de proximidade” com D. José Policarpo. Recordou que o primeiro contacto aconteceu ainda na juventude, quando D. José Policarpo foi professor no Seminário de Penafirme. Mais tarde, já no Seminário dos Olivais, foi seu aluno, colaborador e sucessor como reitor. “Acabei por ser sucessor como Patriarca de Lisboa e, de alguma maneira, continuar, tanto quanto pude, o seu lastro evangelizador”, disse, confirmando que o antigo Patriarca era “uma alma inteiramente evangelizadora”. D. Manuel Clemente destacou também uma característica que, segundo afirmou, nem sempre era imediatamente percebida: a sua profunda sensibilidade. “Era um homem de uma grande sensibilidade, uma sensibilidade mariana, muito ligada a Nossa Senhora”, sublinhou. Para o Patriarca Emérito, a figura de D. José Policarpo distinguia-se por uma rara harmonia entre qualidades humanas e intelectuais: “Foi um caso excecional mesmo de unidade entre inteligência e sensibilidade”. No seu testemunho, D. Manuel Clemente recordou também os desafios vividos pela Igreja e pela sociedade portuguesa durante a vida de D. José Policarpo. “Os anos que viveu neste mundo foram anos de grandes mudanças na sociedade e na Igreja”, observou. Entre os exemplos apontados, destacou o momento em que o Seminário dos Olivais atravessava uma profunda crise de vocações. Segundo recordou, foi D. José Policarpo quem assumiu a responsabilidade de relançar a instituição. “Foi ele o único que se prestou a pegar numa instituição que parecia moribunda”, afirmou, sublinhando que o seminário voltou a tornar-se uma casa de formação “muito importante” para muitas dioceses, portuguesas e de outros países. O antigo Patriarca destacou ainda o respeito que D. José Policarpo conquistou na sociedade portuguesa, pela sua capacidade de compreender os grandes desafios do país e de dialogar com diferentes sensibilidades políticas e sociais. “Foi efetivamente uma figura providencial a vários títulos na Igreja e na sociedade portuguesa”, sublinhou. Na parte final da intervenção, D. Manuel Clemente recordou também a ligação afetiva de D. José Policarpo à sua terra natal. “Ele gostava muito desta terra”, garantiu, recordando as histórias que o antigo Cardeal-Patriarca contava frequentemente sobre a infância e juventude vividas em Alvorninha. Por isso, considerou particularmente significativa a homenagem prestada pela comunidade local: “É muito justa esta homenagem que Alvorninha lhe presta”. Uma memória viva na comunidade Pároco de Alvorninha desde o ano 2020, o Padre José Samir Benavides, natural da Colômbia, recordou um encontro pessoal com D. José Policarpo quando chegou a Portugal para a sua formação no Seminário ‘Redemptoris Mater’, em Caneças. Segundo relatou, o antigo Cardeal-Patriarca de Lisboa, “descontraído, com um cigarro na mão”, disse: “Apresenta-te, rapaz”. D. José Policarpo apresentou-se também “com simplicidade e proximidade”, dizendo: “Sou do Pego, uma terrinha ali pertinho de Alvorninha, que depois irás conhecer”. Para o pároco, a memória do filho da terra permanece viva na comunidade, que continua a agradecer o testemunho e o serviço do antigo Patriarca de Lisboa. “Para mim tem sido uma graça e estamos muito agradecidos a D. José Policarpo”, concluiu.![]() |
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