Lisboa |
Segundo encontro quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’
“A família é a forma suprema da relação humana”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, refletiu sobre os desafios contemporâneos da vida familiar, no segundo encontro quaresmal do ciclo ‘Com Jesus, ao deserto’, que decorreu nas Caldas da Rainha, na noite desta sexta-feira, dia 6 de março, destacando que “a família surge como a coroação do projeto de Deus para o homem e para a mulher” e alertando que “a principal tentação que hoje se coloca à família situa-se ao nível da qualidade das relações dentro da própria família”. A Igreja deve continuar a ser “uma Igreja de portas abertas” que acompanha as pessoas nas suas fragilidades, garantiu.

Na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, o tema da sessão foi ‘Tentações à família: Ser família num mundo em mudança’, numa conversa entre o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, e o casal Marta Félix Antunes e José Antunes. Casados há 27 anos e pais de dois jovens universitários de 18 e 20 anos, Marta Félix Antunes – médica de família e coordenadora de uma Unidade de Saúde Familiar do SNS em Caldas da Rainha – e José Antunes – historiador de arte, museólogo e diretor da Unidade de Cultura do município – partilharam a sua experiência familiar e interpelaram o Patriarca sobre os desafios que as famílias enfrentam na sociedade contemporânea.

 

A família “na mira da tentação”

Na resposta à primeira questão, que evocava o legado do Papa Francisco e o papel da família como “primeira escola” das palavras “com licença”, “obrigado” e “desculpa”, D. Rui Valério sublinhou que a família sempre esteve exposta a desafios e tentações ao longo da história.

“Quando a Sagrada Escritura nos coloca no contexto do Éden, quem foi verdadeiramente destinatário da tentação foi o homem e a mulher, foi a família”, afirmou.

Segundo o Patriarca, a Igreja procura ajudar a família a manter viva a sua identidade mais profunda, recordando que ela faz parte do desígnio de Deus para a humanidade. “A família surge como a coroação do projeto de Deus para o homem e para a mulher. Por isso, quando contemplamos a família – a chamada Igreja doméstica, célula básica da sociedade – percebemos que ela não é apenas uma construção sociológica, mas tem uma ligação profunda ao próprio mistério de Deus”, explicou.

Para D. Rui Valério, a renovação da família passa por recordar continuamente a sua origem. “A frescura que a Igreja traz para a família é precisamente esta: ajudar a família a nunca esquecer onde está a sua fonte”, reforçou.

 

A família como lugar de relação e identidade

Questionado sobre se a Igreja está preparada para acolher famílias com histórias mais complexas – como separações, perdas ou divórcios –, o Patriarca de Lisboa começou por destacar a dimensão relacional da família. “A família é a forma suprema da relação humana. É um verdadeiro milagre relacional, onde pessoas partilham tudo umas com as outras”, observou.

Segundo D. Rui Valério, é neste ambiente que se constrói a identidade de cada pessoa: “A nossa identidade é profundamente construída na família. É ali que aprendemos quem somos – filho, filha, pai, mãe – e é ali que nascem os afetos e os sentimentos que moldam a pessoa”.

Ao mesmo tempo, alertou que um dos grandes desafios atuais se encontra precisamente na qualidade das relações familiares. “A principal tentação que hoje se coloca à família situa-se ao nível da qualidade das relações dentro da própria família. Quando essas relações entram em crise, isso tem impacto direto na identidade da pessoa”, garantiu.

 

Uma Igreja “de portas abertas”

Respondendo diretamente à questão de José Antunes sobre o acolhimento das famílias em situações difíceis, o Patriarca sublinhou que a Igreja deseja acompanhar todas as pessoas. “A nossa Igreja é uma mãe. É o sacramento daquele Pai misericordioso da parábola do filho pródigo”, afirmou.

D. Rui Valério recordou que a Igreja é chamada a manter sempre as portas abertas. “A Igreja é uma Igreja de portas abertas. Não recusa ninguém. As nossas liturgias são feitas às claras, com as portas abertas, porque a Igreja quer acolher e acompanhar”, sublinhou.

Contudo, acrescentou que esse acompanhamento implica sempre um caminho: “Como tudo na vida, é preciso fazer um percurso”.

 

O namoro como tempo decisivo

Durante o encontro, Marta Félix Antunes destacou a importância de iniciativas que ajudam os jovens a viver a fé e a preparar relações mais sólidas, referindo experiências como a Pastoral Universitária ou a Missão País.

D. Rui Valério concordou, salientando que o namoro é um tempo fundamental na construção da vida familiar. “O namoro é o tempo para captar o essencial, para descobrir e viver o valor fundamental que sustenta a vida: o amor”, afirmou.

O Patriarca recordou ainda que o amor no casamento implica reconhecer no outro a presença de Cristo. “O amor no casamento tem este caráter de olhar para o outro – seja marido, esposa, filho ou filha – reconhecendo que é o próprio Cristo que está ali”, disse.

 

A tentação do niilismo e do relativismo

Ao refletir sobre os desafios culturais que hoje afetam a família, D. Rui Valério alertou para a influência crescente de correntes de pensamento como o niilismo. “Instalou-se sobretudo na cultura ocidental algo que entrou pelas nossas casas sem bater à porta: o niilismo”, reconheceu.

Segundo explicou, esta mentalidade conduz a um esvaziamento de sentido e à relativização de valores fundamentais. “Quando tudo se torna relativo e vazio de substância, também a família deixa de ser vista como referência fundamental”, lamentou.

 

A mentalidade da técnica e o valor da pessoa

Na parte final da conversa, o Patriarca de Lisboa alertou para o risco de a sociedade avaliar as pessoas apenas pela lógica da eficiência e da produtividade. “Hoje o ser humano está a ser avaliado pela lógica da técnica: ser eficiente, produzir muito e gastar pouco”, afirmou.

Perante essa mentalidade, destacou o papel único da família: “A família é o lugar onde a pessoa não é avaliada pela eficiência ou pelo sucesso. É o lugar onde não nos sentimos menorizados quando falhamos”. Por isso, acrescentou, a paróquia deve ser entendida como uma extensão dessa realidade: “Uma paróquia é uma família de famílias”.

 

O sofrimento causado pelo divórcio

No final do encontro, uma participante da assistência partilhou o seu testemunho pessoal de abandono conjugal, após 30 anos de casamento, questionando a forma como a Igreja acompanha estas situações.

D. Rui Valério agradeceu o testemunho e reconheceu o sofrimento associada à separação. “O divórcio é fonte de sofrimento”, afirmou. O Patriarca recordou ainda que o matrimónio cristão tem uma dimensão profundamente espiritual. “O matrimónio continua a estar assente numa verdade que é o próprio Deus. A sua validade não está apenas num papel, mas na promessa feita diante de Deus”, sublinhou.

Ao mesmo tempo, reafirmou que a Igreja procura acompanhar quem vive situações de dor e de rutura. “A Igreja está organizada para acompanhar pessoas feridas com estas experiências de vida”, concluiu.

No final do diálogo, teve lugar a adoração do Santíssimo e confissões. O encontro nas Caldas da Rainha integrou o ciclo quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’, promovido pelo Patriarcado de Lisboa, que procura refletir sobre as tentações do mundo contemporâneo à luz da fé cristã.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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