Lisboa |
Primeiro encontro quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’
Patriarca alerta para “tentações à fé” e desafia fiéis a reencontrar “a beleza da abertura a Deus”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, alertou para as principais tentações que hoje desafiam a vivência cristã, sublinhando que a fé é, antes de mais, “uma relação viva com Deus” e não uma construção individual ou meramente intelectual. O primeiro encontro quaresmal ‘Com Jesus, ao deserto’ decorreu na noite desta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, na igreja paroquial de Santa Joana Princesa, em Lisboa, e contou com a participação do professor universitário Henrique Leitão, seguindo-se um momento de diálogo entre ambos, adoração do Santíssimo e confissões.

Refletindo sobre o tema ‘Tentações à fé: Crer quando Deus parece ausente’, o Patriarca partiu do relato bíblico do Génesis para destacar que a tentação começa quando se instala a suspeita sobre o rosto de Deus. Citando o texto sagrado – «É verdade que Deus vos disse: “Não comereis de nenhuma árvore do jardim?”» (Gn 3, 1) – explicou que a serpente “deturpa, desde o início, a imagem de Deus”, levando o ser humano a duvidar da sua bondade.

“O primeiro grande desafio para a fé é o desafio acerca da bondade de Deus e de tudo aquilo que Deus quer para ti ou coloca no teu mundo”, afirmou. A tentação surge quando Deus deixa de ser visto como Pai e passa a ser percecionado como limite ou ameaça.

Evocando o episódio de Massá – «Não tentarás o Senhor teu Deus» (Dt 6,16) –, D. Rui Valério recordou que o povo no deserto murmurava, perguntando se Deus estava realmente com eles. “Queremos acreditar em Deus, mas à nossa maneira”, sintetizou.

A Quaresma, acrescentou o Patriarca, é “tempo de reencontro com o verdadeiro rosto de Deus”. E citou o Evangelho de João: «Quem Me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9). “O pecado distorce, mas Cristo revela”, afirmou.

 

Gnosticismo, emocionalismo e rigidez

Na leitura das tentações contemporâneas, D. Rui Valério identificou vários “rostos” atuais da crise da fé. Entre eles, apontou a redução da fé a mero conhecimento – uma forma de gnosticismo –, descrevendo-a como “uma fé sem carne, sem impacto na história, sem compromisso”.

Alertou também para a tentação de reduzir a fé ao emocional: “Tudo tem que ser intenso, muito intenso. Depois tudo se evapora”. Recordando a experiência espiritual da aridez, sublinhou que “a escuridão das dúvidas pertence ao ângulo da experiência da fé”.

Numa igreja repleta, o Patriarca referiu ainda o fideísmo superficial, a rigidez – “filha do medo” –, o moralismo que transforma a religião num sistema de proibições, e a autossuficiência do homem que se coloca como “critério, princípio e fim de tudo”.

 

Relativismo e indiferença

Neste primeiro encontro quaresmal organizado pelo Patriarcado de Lisboa, D. Rui Valério retomou, na sua intervenção inicial, a análise de Papa Bento XVI, que identificou “duas forças dominantes que corroem a fé dos nossos dias: o relativismo e a indiferença”.

“O relativismo apresenta-se como tolerância, mas é, no fundo, uma demissão da verdade. Tudo vale o mesmo, tudo é subjetivo”, afirmou. E advertiu: “Se tudo é relativo, então também Deus o é. E a fé esvazia-se”.

Citando Jesus – «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 6) –, o Patriarca reforçou que “a fé cristã não é uma ideia entre outras. É o encontro com uma Pessoa viva”.

Quanto à indiferença, recordou a expressão do Papa Francisco, a “globalização da indiferença”. “Não diz ‘não’ a Deus, simplesmente diz ‘tanto faz’. O coração torna-se frio”, afirmou.

Perante este cenário, D. Rui Valério deixou um apelo claro: “O contrário da indiferença não é o fanatismo, mas o ardor da caridade. O contrário do relativismo não é a imposição, mas o testemunho coerente e luminoso”.

 

Henrique Leitão: “Fé vivida como paixão ardente pela eternidade”

Na sua intervenção, Henrique Leitão assumiu, com humor, a sua condição de professor universitário: “Se isto começar a parecer uma aula, levantem o braço”, brincou. A partir da experiência de quatro décadas de contacto com jovens universitários, o orador identificou depois quatro tentações frequentes.

A primeira é “tratar a fé como uma questão intelectual para fugir ao problema real”. Segundo explicou o investigador principal no Departamento de História e Filosofia das Ciências da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, “a questão da fé é eminentemente prática”, manifestando-se “no modo como se vive, nas escolhas que se fazem realmente e na dimensão ética”.

A segunda tentação, de acordo com o Prémio Pessoa 2014, é “a tentação da prova”. “Quando solicitamos provas ou queremos uma evidência maior de Deus, habitualmente é porque a paixão da fé se esbateu”, afirmou, sublinhando que a fé vive precisamente “na ausência de uma prova”.

Para Henrique Leitão, a terceira tentação consiste em construir uma fé individual, esquecendo que “a fé vem de fora”. “A fé não é uma coisa que se constrói. A fé é uma coisa a que se adere”, garantiu, destacando a dimensão comunitária e eclesial da fé cristã.

Por fim, o professor universitário sublinhou que “a fé mostra sobretudo quando é testada”. Nas provações – doença, fracasso, humilhação – somos chamados a “tratar o finito como finito” e a deixar que a fé ilumine o sofrimento, mesmo sem o retirar.

“A nossa vida tem que transportar alguma coisa”, concluiu Henrique Leitão, apelando a uma fé vivida como “paixão ardente” pela eternidade.

 

“Reencontrar a beleza da abertura”

No diálogo final, Henrique Leitão questionou o Patriarca de Lisboa sobre o essencial a pedir a um homem ou mulher contemporâneos para viver a fé hoje. D. Rui Valério respondeu que “a fé fundamentalmente é uma relação”. Mais do que mera religiosidade, é “tratar um Outro, a quem chamamos Pai, abrir-Lhe o coração e confiar-nos inteiramente”.

Considerou que muitas das tentações identificadas são “chaves que fecham portas” e defendeu que o essencial é “reencontrar a beleza da abertura”. Evocando a experiência bíblica de Abraão e dos discípulos, sublinhou que Deus se torna “fundamento e eixo de toda a vida”.

Questionado depois sobre a relação entre Igreja e adesão à fé, o Patriarca partilhou uma experiência pastoral no Alentejo, onde acompanhou comunidades escolares dispersas. “O milagre da Igreja é este: a Igreja está”, afirmou.

Segundo D. Rui Valério, a simples presença, proximidade e disponibilidade da Igreja constituem já um anúncio eficaz. “A presença e a disponibilidade da Igreja são, sem dúvida, um dos meios de proximidade e de atração maior que possa haver”, concluiu.

Após as intervenções, teve lugar um momento de oração, com a adoração do Santíssimo, durante cerca de 45 minutos. Durante este tempo, os sacerdotes estiveram disponíveis para a confissão dos fiéis. O encontro terminou com a bênção do Santíssimo.

 

‘Com Jesus, ao deserto’

O itinerário espiritual ‘Com Jesus, ao deserto - Discernir as tentações do nosso tempo à luz do Evangelho’ prossegue na noite da próxima sexta-feira, dia 6 de março, nas Caldas da Rainha, com o tema ‘Tentações à família: Ser família num mundo em mudança’.

Organizado pelo Patriarcado de Lisboa, este ciclo quaresmal de quatro encontros sobre as tentações do mundo contemporâneo pretende ajudar a ler as provações da vida cristã contemporânea à luz da experiência de Jesus no deserto.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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