Na síntese final do Seminário de Formação Permanente do Clero, o Patriarca de Lisboa refletiu sobre a Inteligência Artificial e a Doutrina Social da Igreja, alertando para os perigos de uma mentalidade puramente técnica. D. Rui Valério destacou mesmo a necessidade urgente de humanizar a tecnologia, impedindo que as pessoas se tornem meros reflexos da lógica algorítmica.
De 27 a 29 de janeiro, os bispos, sacerdotes e diáconos do Patriarcado de Lisboa reuniram-se, no Seminário dos Olivais, para o Seminário de Formação Permanente do Clero, dedicado à reflexão e aprofundamento da Doutrina Social da Igreja, nas suas dimensões teológica, pastoral e prática. Na síntese final da jornada, o Patriarca de Lisboa sublinhou o caráter profundamente positivo do encontro, destacando a sua importância para o “fortalecimento da comunhão” e para uma leitura mais atenta da realidade. D. Rui Valério classificou estes dias como um tempo “intenso e que nos aproximou muito mais como presbitério, mas aproximou-nos também muito mais do nosso mundo”. Na sua intervenção, o Patriarca alertou para a necessidade de compreender a inteligência artificial não apenas como uma ferramenta técnica, mas como portadora de uma determinada visão do mundo. “Quando nós falamos de técnica, quando nós falamos de inteligência artificial, nós estamos a falar de mentalidade”, afirmou. Segundo D. Rui Valério, essa mentalidade caracteriza-se, entre outros aspetos, pela maximização de resultados com o mínimo de meios e pela lógica da eficácia imediata. “É o máximo rendimento, é o máximo de fins com o mínimo do uso de meios. E isso é uma mentalidade”, explicou, acrescentando que a inteligência artificial “dá-nos, logo ali, resultados”. Perante bispos, sacerdotes e diáconos, o Patriarca alertou ainda para o risco de inversão da relação entre o humano e a técnica: “A verdadeira questão (…) não é que ela venha substituir o humano, mas até que ponto é que o humano não está a ser o prolongamento, uma imagem, o reflexo da mentalidade da IA, da técnica”. Nesse contexto, lançou um apelo claro: “Aquilo que é preciso era nós invertermos um bocadinho esta rota, humanizarmos a máquina e não sermos nós tomados por ela”. Referindo-se depois à vida pastoral e ao anúncio da Igreja, D. Rui Valério reconheceu que também os agentes pastorais podem, por vezes, cair na armadilha da lógica da eficiência e da produtividade. “Por vezes, sem querer, nós estamos a cair na mesma armadilha dessa tal mentalidade, da eficiência, de produzir mais com menor esforço, de dar logo respostas”, alertou. O Patriarca deixou, por isso, um forte apelo à valorização da fragilidade humana: “Sejamos humanos e façamos aqui uma grande homenagem àquilo que é o ser humano”. Na conclusão da sua reflexão, D. Rui Valério evocou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, como um sinal profético da centralidade do humano na missão da Igreja. “Nunca nos esqueçamos de que o humano foi a estrada que o próprio Filho de Deus escolheu e percorreu para vir até nós”, afirmou, sublinhando que “foi na condição de homem que Ele nos salvou”. Inteligência Artificial e Doutrina Social da Igreja O Seminário de Formação Permanente do Clero teve início na manhã de terça-feira, dia 27, com o acolhimento dos participantes e a apresentação da formação, seguida de uma introdução feita pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério. O primeiro dia foi especialmente marcado pela reflexão sobre a atualidade da Doutrina Social da Igreja, com destaque para a conferência do Padre Paolo Benanti, vindo de Itália, que abordou os desafios da Inteligência Artificial à Doutrina Social da Igreja. A sessão contou ainda com a colaboração do Embaixador Luís Barreira de Sousa, proporcionando um diálogo enriquecedor entre a ética, a fé e a realidade contemporânea. Ainda nessa tarde, o Cónego Nuno Amador e filósofo Hugo Chelo aprofundaram os fundamentos teológicos e antropológicos da Doutrina Social da Igreja. O primeiro dia do Seminário de Formação Permanente do Clero terminou com a celebração das Vésperas. Reflexão e grupos Na quarta-feira, dia 28, os trabalhos centraram-se nas diversas áreas da Doutrina Social da Igreja. Após uma reflexão sobre São Tomás de Aquino e o pensamento social católico, apresentada por André Azevedo Alves, os participantes reuniram-se em grupos temáticos, dedicados à família, ao trabalho, à vida económica, aos migrantes, à paz, à salvaguarda da criação e à política, contando com a colaboração de diversos especialistas das várias áreas. O segundo dia de formação concluiu-se igualmente com a oração de Vésperas. Papel do clero O último dia, 29 de janeiro, foi dedicado à reflexão sobre o papel do clero na vivência e promoção da Doutrina Social da Igreja, sob o tema ‘E nós, clero’”. Foram apresentados testemunhos sobre a ação dos católicos na sociedade, nomeadamente no âmbito das obras sociais, das associações profissionais e do mundo empresarial. Seguiu-se uma reflexão sobre a relação entre a Doutrina Social da Igreja e a missão dos sacerdotes e diáconos, abordando a vida sacramental, o envolvimento da comunidade e a evangelização. Centralidade da pessoa humana A formação concluiu-se com um debate final entre o clero e com a celebração da Missa, presidida pelo Patriarca de Lisboa, que, na homilia, fez um balanço dos três dias de formação, sublinhando a centralidade da pessoa humana, a identidade presbiteral e o apelo a um testemunho profético no contexto atual. Na capela do Seminário dos Olivais, D. Rui Valério recordou o caminho percorrido ao longo da semana, destacando que a formação permitiu reafirmar “o valor incontornável da pessoa, do ser humano”, bem como o fascínio pelo mistério de Deus que “escolheu fazer-se um de nós, fazer-se homem verdadeiro para a salvação de cada um”. Segundo o Patriarca, este percurso levou os participantes a procurar “no próprio coração de Deus” e “na revelação do seu Filho, Jesus Cristo”, a luz necessária para compreender o mistério do homem, “mas compreender para amar e amar servindo”. O Patriarca de Lisboa sublinhou que estes dias foram uma oportunidade para revisitar “o porquê, a essência em profundidade da nossa identidade presbiteral e da nossa missão”. Falando de forma pessoal, afirmou ter vivido este tempo sentindo-se “a ser chamado a ser profeta”, explicando que ser profeta implica, muitas vezes, “acendermos uma pequena chama de luz, de luz da verdade, da justiça, de luz da paz, da fraternidade, luz da coragem evangélica”, num mundo marcado também pelo egoísmo, pela indiferença, pela guerra e pela violência. Dirigindo-se aos presbíteros, D. Rui Valério afirmou que, em Lisboa, o anúncio cristão deve ter como centro a proximidade. “O nosso anúncio, o nosso testemunho, a nossa profecia” devem despertar e aproximar as pessoas “para um Deus que é familiar, que é Pai”. Neste sentido, considerou que a semana de formação ajudou a incutir “este espírito profético” na vida e no ministério do clero. No final, D. Rui Valério pediu a intercessão de São Vicente e da Virgem Santíssima, para que ajudem a crescer “no coração e na alma de cada um de nós, no coração e na alma da Igreja de Lisboa, este zelo pela missão, este zelo pelo anúncio”, recordando que “cada um de nós é profeta e, como profeta que é, é esta lâmpada colocada no candelabro do serviço, da entrega e da doação”. A celebração eucarística encerrou, assim, três dias de formação, partilha e renovado compromisso ao serviço do Evangelho e da dignidade da pessoa humana.![]() |
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