Lisboa |
Seminário de Formação do Clero
“Há pensamento social católico desde que há católicos a pensar sobre matérias sociais”
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O Seminário de Formação do Clero do Patriarcado de Lisboa está a decorrer no Seminário dos Olivais, entre os dias 27 e 29 de janeiro, subordinado ao tema ‘Doutrina Social da Igreja’. Na manhã desta quarta-feira, a jornada contou com a conferência de André Azevedo Alves, Professor Catedrático da Universidade Católica Portuguesa, dedicada ao tema ‘São Tomás de Aquino e o Pensamento Social Católico’.

Na sua intervenção, André Azevedo Alves começou por clarificar a distinção entre doutrina social da Igreja e pensamento social católico, sublinhando que prefere uma compreensão mais ampla deste último.

“Habitualmente reservamos a expressão doutrina social da Igreja para o pensamento mais diretamente associado às encíclicas sociais, enquanto o pensamento social católico incorpora um conjunto mais vasto de contributos sobre matérias sociais, informados pela matriz católica”, explicou.

Segundo o professor, esta distinção é importante para o diálogo académico e cultural, evitando uma visão redutora que situe o início da reflexão social da Igreja apenas a partir da Rerum Novarum (1891), a encíclica do Papa Leão XIII sobre a condição dos operários. “É francamente redutor achar que o pensamento social católico começa no século XIX. Há pensamento social católico desde que há católicos a pensar sobre matérias sociais”, afirmou.

 

A centralidade de São Tomás de Aquino

Ao longo da conferência, André Azevedo Alves destacou a relevância de São Tomás de Aquino como referência fundamental para o desenvolvimento do pensamento social católico e da própria doutrina social da Igreja.

Recordando documentos do magistério, sublinhou que São Tomás continua a ser apresentado como “o paradigma permanente para a Igreja”, citando ainda a encíclica Laudato Si’ (2015), sobre o cuidado da casa comum, onde o Papa Francisco evoca o pensamento tomista sobre a diversidade da criação.

Para o conferencista, uma das grandes contribuições de São Tomás é a articulação entre fé e razão. “Não se trata de excluir a fé do espaço público, mas de mostrar que fé e razão são articuláveis e não estão em contradição”, afirmou, acrescentando que, quando essa tensão parece existir, “cabe-nos a nós fazer um melhor trabalho intelectual”.

 

Uma abordagem integrada das questões sociais

Outro aspeto salientado foi a visão integrada do conhecimento presente em São Tomás, que continua a ser inspiradora para a reflexão contemporânea. “As questões sociais, políticas e económicas não podem ser tratadas de forma compartimentada”, sublinhou, defendendo uma abordagem interdisciplinar que evite tanto o fechamento intelectual como a pretensão de domínio absoluto sobre todas as áreas.

A título ilustrativo, André Azevedo Alves abordou a temática da propriedade privada, mostrando como São Tomás a justifica em função da ordem social, da responsabilidade pessoal e da paz, sem a absolutizar. “A propriedade privada é fundamental para a ordem social, mas está subordinada ao destino universal dos bens”, afirmou, lembrando as implicações éticas desta visão, nomeadamente em situações de necessidade extrema.

 

Prudência e diálogo no espaço público

Na parte final da conferência, André Azevedo Alves destacou a importância da prudência na aplicação concreta dos princípios do pensamento social católico. Alertou para dois riscos opostos: o silêncio total perante os problemas sociais e a tentação de emitir juízos técnicos ou políticos sem o devido conhecimento.

“Não vamos ter soluções concretas para tudo em cada momento”, reconheceu, defendendo uma atitude humilde e dialogante, capaz de reconhecer que podem existir posições diferentes, igualmente bem-intencionadas, sobre a mesma questão.

Concluindo, o Professor Catedrático da Universidade Católica Portuguesa apelou a uma leitura benevolente das posições divergentes: “O grande desafio é tentar compreender como o outro, podendo ser bem-intencionado, chega a uma posição tão diferente da minha”. Segundo André Azevedo Alves, este exercício é essencial para um verdadeiro diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo.

 

Painéis

Ainda nesta manhã do segundo dia do Seminário de Formação do Clero, que teve início com a oração da Hora Intermédia, presidida pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, os sacerdotes e diáconos da diocese escutaram um painel com três intervenções: ‘Família’, por Maria Teresa Ribeiro, ‘Trabalho’, com José Manuel Cordeiro, e ‘Vida económica’, por Patrícia Liz.

Para a tarde ficam as sessões de grupos: ‘Migrantes’, com Inês Espada Vieira, ‘Paz’, por Mónica Dias, ‘Salvaguarda da criação’, com Susana Réfega, e ‘Política’, por Lívia Franco.

O Seminário de Formação do Clero do Patriarcado de Lisboa vai terminar, ao final da tarde, com a oração de Vésperas.

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