O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, afirmou que “a paz é a bênção das bênçãos” e defendeu que “a religião continua a ser o elo fundamental para aproximar pessoas”, numa conversa com Paulo Portas, no âmbito do ‘Hope Talks’ – os encontros organizados pela Paróquia do Alto do Lumiar, em Lisboa, dedicados ao tema da esperança. Para o antigo ministro, “a Igreja deve ser uma voz necessária num mundo inquieto”.
O debate, moderado pelo jornalista Pedro Benevides, decorreu na noite desta terça-feira, dia 11 de novembro, no Colégio de Santa Doroteia, no Campo Grande, em Lisboa, e reuniu dezenas de participantes em torno da questão: ‘Há esperança para a paz?’. Respondendo a uma pergunta sobre como manter a esperança num mundo marcado por conflitos, o Patriarca reconheceu que “a resposta não é simples”, refletindo sobre a natureza humana e o papel da tecnologia e da força nos conflitos atuais. “A guerra é a afirmação da força, da pujança, e concentra em si tudo aquilo que as diversas sociedades vão produzindo em termos de poder e de tecnologia”, afirmou D. Rui Valério. “Mas não acredito que o ser humano esteja dramaticamente destinado à guerra. Antes, é a ineficácia nas relações humanas que ainda não foi capaz de conduzir plenamente ao encontro, à colaboração e à cooperação”, acrescentou. Para o Patriarca, a paz não depende apenas de negociações políticas, mas de uma transformação profunda nas relações entre as pessoas: “O Papa Francisco, na ‘Fratelli Tutti’, recorda-nos que as nossas diferenças não devem ser motivos de conflito, mas oportunidades para nos enriquecermos reciprocamente na construção de algo positivo”. “A paz tem de ter lugar na vida e na palavra” Questionado sobre se a voz da Igreja ainda é escutada quando fala de paz, D. Rui Valério evocou o encontro do Papa Francisco com o imã de Al-Azhar e o ‘Documento sobre a Fraternidade Humana’, assinado em Abu Dhabi. “Faz sentido que o plano de paz surja da dimensão religiosa, porque é aquela que abraça todos os seres humanos e o ser humano no seu todo. (…) Enquanto a política, a economia ou a ciência se concentram em aspetos específicos, a religião abre-se à dimensão ética, antropológica, social e relacional”, explicou. O Patriarca de Lisboa destacou ainda a força simbólica e espiritual das palavras de saudação: “Quando o judeu antigo dizia ‘shalom’, mostrava a mão aberta e declarava paz, amizade e proximidade. Por isso digo: a paz é a bênção das bênçãos, porque é sobre ela que toda a sociedade e toda a vida se constroem”. Neste terceiro encontro do ‘Hope Talks’, D. Rui Valério sublinhou ainda a importância da palavra como semente de esperança: “Enquanto houver na Igreja lábios e corações que proclamam ‘a paz esteja convosco’, a paz terá lugar na vida e na sociedade. Quando já não houver espaço para a paz, nem sequer nos nossos lábios, então a paz tornar-se-á uma sem-abrigo. E nós não queremos viver numa sociedade em que a paz seja sem-abrigo, mas cidadã primeira”. Paulo Portas: “A Igreja deve ser uma voz necessária num mundo inquieto” Na conversa, Paulo Portas elogiou o papel histórico e atual da Igreja Católica na promoção da paz e da reconciliação: “A paz, para a Igreja, não é apenas ausência de guerra – é um dever e um direito universais. O Papa Francisco estava profundamente preocupado com o estado do mundo, e é por isso que a voz da Igreja é hoje mais necessária do que nunca”. O antigo ministro lembrou ainda que “a paz não se faz sozinha” e que o diálogo inter-religioso é um caminho essencial, como demonstrou o Concílio Vaticano II. “Não pode convocar Deus quem não sabe reconhecer o seu semelhante como irmão. As Igrejas são irmãs, e esse diálogo é hoje um dos poucos espaços onde a paz ainda pode nascer”, considerou. O papel do Vaticano na diplomacia global Paulo Portas destacou ainda o papel histórico do Vaticano como mediador internacional: “O Vaticano tem uma diplomacia que todos os bons diplomatas admiram. É preciso espaço, tempo e paciência para que a diplomacia funcione. É um trabalho que não é feito em ‘reality shows’, mas através de compromisso e desinteresse direto”. Portas citou a intervenção da Comunidade de Santo Egídio em Moçambique, em 1982, como exemplo de sucesso diplomático. “O país teve imensos problemas, mas não voltou a ter uma guerra civil armada direta. Isso é um grande êxito da comunidade”, salientou. Para o antigo Ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, os princípios essenciais desta diplomacia incluem: foco nas vítimas, independência em relação aos dividendos da paz e uma abordagem de longo prazo. “Um processo de paz não é um tweet de momento. É preciso tempo, oração, diálogo e pacificação”, referiu. A fé como motor da esperança Nesta conversa sobre paz e sobre esperança, o Patriarca de Lisboa abordou a paz como sentimento, escolha e estratégia, ao responder a uma questão do público: “A paz é um sentimento universal que abraça a humanidade inteira. Mas é também um compromisso diário e um empenho concreto, construído com gestos simples e construtivos, sempre com a dignidade da pessoa em primeiro lugar. E só quando aliada à justiça, à reconciliação e ao perdão, a paz se torna duradoura”. D. Rui Valério lembrou que “a paz não é apenas ausência de guerra”, defendendo “uma paz integral” que engloba “combate à fome, pobreza, doença e injustiça”. “Proteger a vida e os valores que sustentam uma sociedade é defender a humanidade de forma concreta e ética”, apontou. Guerra justa e legítima defesa, diplomacia e liberdade religiosa No debate sobre conflitos, Paulo Portas lembrou que a Igreja reconhece o direito à legítima defesa: “Um país invadido tem direito a organizar a sua defesa, inclusive com o uso da força, desde que se cumpram quatro condições: esgotamento de outros meios, proporcionalidade, razoabilidade de êxito e respeito pelos limites éticos”. O Patriarca reforçou a visão da Igreja: “A agressão externa obriga à defesa da vida e dos valores que sustentam uma sociedade. A legítima defesa não é um ato de guerra por si, mas um instrumento para proteger bens fundamentais e a dignidade humana”. Nesta noite de conversa, Paulo Portas sublinhou também a complexidade de relações diplomáticas, citando como exemplo o acordo do Vaticano com a China sobre a nomeação de bispos: “É preciso paciência e precisão, porque o objetivo final é sempre proteger os cristãos e os avanços da liberdade religiosa num país”. D. Rui Valério concordou, destacando que o Vaticano equilibra relações internacionais e proteção da fé. “O principal foco é garantir que os cristãos possam viver a sua fé em liberdade, mesmo em contextos difíceis ou em países de maioria não cristã”, expressou o Patriarca. Esperança ativa A sessão começou com as palavras do pároco do Alto do Lumiar, Padre António Ribeiro de Matos. “A paz não tem a ver apenas com a fé, mas com a humanidade. O nosso objetivo é ativar no coração de cada um de nós o desejo e a esperança por um mundo mais pacífico”, referiu o sacerdote, promotor desta iniciativa.![]() |
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