Lisboa |
Homilia na Missa pelas vítimas mortais do acidente do Elevador da Glória e pela recuperação dos feridos
Unir a dor à esperança
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Caríssimos irmãos e irmãs,

1. Reunimo-nos aqui, com o coração pesado, para confiar ao Senhor as vítimas deste trágico acidente que enlutou tantas famílias e abalou toda a nossa Cidade de Lisboa. Rezamos também pelos feridos, pedindo ao Deus da vida que lhes conceda rápida recuperação e que os encha de esperança. Neste momento de dor, a Igreja torna-se lugar de acolhimento e de oração, onde cada lágrima encontra ressonância e cada coração ferido encontra consolação.


2. Nesta hora de dor e luto, o nosso olhar está embaciado por lágrimas de sofrimento, de incredulidade, de amargura. A humanidade encara a máquina como auxílio, como aliada para a vida. Entre homem e máquina existiu sempre uma relação de confiança e por isso se deixa transportar por elas; trabalha os seus campos, usa-a para complexas operações… mas ontem a máquina traiu-nos, a todos, não só quem viajava a bordo daquele elevador. A todos mostrou como a definitiva meta da vida de cada um de nós pode estar ali, onde estamos, em qualquer lugar… e, por isso, com São Paulo, também nós elevamos ao alto a nossa súplica para sermos iluminados pelo esplendor da vontade de Deus. Só a sua luz nos mostra o sentido do que vivemos, nos revela o significado de todos os acontecimentos e vicissitudes da vida. A luz da vontade de Deus é fonte de esperança que nos oferece a certeza de que nunca estamos esquecidos por Deus, nem desamparados da sua misericórdia. Na trágica viagem do Elevador da Glória os nossos irmãos foram elevados à Glória da eternidade no regaço misericordioso do Pai. Na luz que enxerga além da história, vislumbramos a elevação dos nossos caros irmãos para essa Glória sem fim da vida eterna.

Não possuir a resposta para o «porquê?» não nos desencoraja, apenas salienta a grandeza da nossa incomensurável confiança de que o lugar de passar deste mundo para o Pai não depende de nós, não somos nós a decidi-lo, mas provém de um desígnio feito de amor. Em meio aos escombros, no coração dos destroços, digo com Sofia: «Apesar das ruínas e da morte, // Onde sempre acabou cada ilusão, // A força dos meus sonhos é tão forte, // Que de tudo renasce a exaltação //E nunca as minhas mãos ficam vazias». As nossas mãos não ficam vazias porque entrelaçadas nas mãos d’Aquele que nos ama infinitamente e nos conduz ao profundo do seu coração.


3. São Paulo dizia aos Colossenses: «Não cessamos de orar por vós e de pedir a Deus que vos encha do conhecimento da sua vontade» (Col 1, 9). Também nós, hoje, fazemos nossas estas palavras: não cessamos de orar por aqueles que partiram de forma tão repentina, pelos que sofrem nos hospitais, pelas famílias que choram, e por todos os que, no meio desta provação, procuram sentido e força para continuar.

Nestes momentos de sofrimento, de dor e de tristeza, a oração surge como raio de sol que oferece luz e calor. Pela oração experimentamos que não estamos sozinhos e que estes nossos irmãos que partiram não estão sozinhos: contam com Deus que é Pai de amor e misericórdia e contam com a nossa oração fraterna e sincera.


4. No mesmo sentido, o salmo proclamava: «O Senhor revelou a sua salvação». Mesmo em tempos de trevas, a fé garante-nos que Deus não abandona o seu povo. A sua fidelidade permanece, mesmo quando tudo parece vacilar. Hoje, não temos respostas fáceis para o mistério da morte nem para a dureza desta tragédia. Mas podemos afirmar com certeza que Deus não deixa de estar presente, que Ele acompanha cada vida e que acolhe no seu amor aqueles que partem deste mundo.

A confiança cristã não é uma atitude cega ou infundada. A nossa esperança funda-se no amor de Deus, por isso, proclamamos com confiança que a «esperança não engana» (Rm 5, 5). É isso que hoje celebramos: o amor de Deus que não abandona, não defrauda, não falta, mesmo quando humanamente tudo parece perdido, vazio, sem sentido.


5. O Evangelho apresentou-nos o episódio em que Jesus entra no barco de Pedro e o convida a lançar novamente as redes, depois de uma noite de fracasso. Também nós, neste tempo em que o coração parece vazio, ouvimos o mesmo convite: «Faz-te ao largo». Não é fácil confiar quando a dor nos desarma. Mas é precisamente aí que Jesus se aproxima, entra no barco da nossa vida e nos diz: «Não temas».

Senhor, hoje sentimo-nos como aqueles discípulos que, depois da fadiga de uma noite a trabalhar em vão, começaram a arrumar as redes, desistiram da faina, esmoreceram os seus sonhos. Nós sentimo-nos um pouco assim… mas foi aí quando Tu passaste e lhes lançaste um novo convite «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». No meio da tempestade do cansaço e da desilusão irrompe uma nova e inesperada voz «Faz-te ao largo!» distancia-te, sai, não irás sozinho, mas eu Te acompanho. Lisboa foi esse lago de Genesaré, onde os nossos irmãos receberam o convite para se fazerem ao largo, para o oceano da plenitude da vida. Não estavam sós, nem apenas rodeados por uma cidade com a sua agitação, os seus ritmos, as suas cores e correrias… foram conduzidos aos ombros do Bom Pastor que os acompanhou para o banquete da comunhão e do encontro com o Senhor.

Por isso, não temas! Não temas, tu que choras a perda do teu familiar ou amigo. Não temas, Cidade de Lisboa, de continuar a ser lugar de fraternidade. Não temas tu, cujo coração parece estar envolvido pelas trevas mais densas e escuras: Deus ama-te! Deus ama estes nossos irmãos por quem rezamos. Deus não abandona ninguém!


6. Pedro, ao reconhecer a sua fragilidade, caiu de joelhos diante do Senhor. É essa atitude que hoje nos cabe: colocar-nos diante de Deus com humildade, reconhecendo o nosso limite e deixando que Ele seja a nossa força. No meio da fragilidade, Cristo abre sempre um caminho novo. Esta Santa Eucaristia é sinal disso mesmo: diante da morte e do sofrimento, Deus oferece uma presença, uma companhia, uma proximidade que transforma as trevas em luz, o vazio em plenitude, a morte em vida, e vida eterna.


7. Queridos irmãos e irmãs, a tragédia que vivemos lembra-nos a preciosidade da vida, que é sempre dom de Deus. Lembra-nos também a urgência de vivermos cada dia com sentido, em gratidão e em solidariedade. Hoje, rezamos de modo especial pelas vítimas, para que o Pai misericordioso as receba na herança da luz eterna, como escutámos na Carta aos Colossenses (cf. 1, 12). Rezamos pelos feridos, para que sintam a força de Deus e o carinho humano que os rodeia. Rezamos pelas famílias, para que a fé seja o seu amparo e para que nunca lhes falte a solidariedade de todos nós. Rezamos por todos os homens e mulheres da Proteção Civil, bombeiros, médicos e todos os profissionais de saúde, autoridades e voluntários que, com generosidade, se colocam ao serviço para ajudar os que sofrem.


8. Neste altar, unimos a dor à esperança. O Senhor Jesus, que venceu a morte, é a nossa paz e a nossa vida. Confiemos n’Ele, certos de que, no coração de Deus, nada se perde, nada se esquece.

Que Maria, Mãe de consolação, acompanhe as famílias e sustente a nossa fé. E que nós, como comunidade, saibamos transformar o luto em gestos de proximidade e a dor em compromisso de vida fraterna. Amen.


Igreja de São Domingos, 4 de setembro de 2025
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