O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, benzeu e inaugurou, na manhã deste sábado, dia 24 de maio, a recém-criada ‘Praceta D. Daniel Henriques’, situada na Ramada, de homenagem ao antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, falecido em 2022. A praceta está localizada nas Granjas Novas - Ramada, numa transversal da Rua Irene Lisboa, e é uma iniciativa da União das Freguesias de Ramada e Caneças, que contou com o apoio da Paróquia da Ramada.
Na cerimónia de inauguração da nova ‘Praceta D. Daniel Henriques’, o Patriarca de Lisboa começou por recordar a relação que o primeiro pároco da Ramada teve com esta terra. “A relação descreve-se com uma realidade muito bela: ele representa a esperança. O D. Daniel viveu esse momento singular da história da terra, da Ramada, como um lugar da esperança. Por duas razões: em primeiro lugar porque, como se diz, esperança é não ficar à espera que as coisas aconteçam, mas é fazer acontecer as coisas. E verdadeiramente, ele fez acontecer tanta coisa, nomeadamente a construção de uma comunidade – que depois venha a ter a especificação de uma comunidade cristã –, mas de uma comunidade proactiva, de uma comunidade aberta, de uma comunidade atenta. Ao mesmo tempo, ele trouxe à Ramada uma identidade. Recordo-me que foi com o D. Daniel que a própria paróquia e, portanto, penso também que ao nível civil, a freguesia, se começou a delinear. Nessa altura, aquilo que ele protagonizou foi uma pujança. Foi, digamos assim, o momento em que uma população está a nascer com tantos sonhos e ele conseguiu materializar e encarnar esses sonhos nesta realidade”, referiu D. Rui Valério. Na presença do presidente da Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins, do presidente da União das Freguesias de Ramada e Caneças, Manuel Varela, entre outras autoridades civis locais, mas também de D. João Marcos, Bispo Emérito de Beja e residente em Caneças, do pároco da Ramada, Padre Rui Silva, do vigário paroquial da Ramada, Padre Nuno Miguéis, e do vigário da Vigararia de Loures-Odivelas, Padre Francisco Inocêncio, o Patriarca destacou ainda, na sua breve intervenção, que a “personalidade” de D. Daniel Henriques “foi profundamente marcada por uma intensa e ativa espiritualidade”. “Um homem, um presbítero, profundamente marcado com uma intensa vida espiritual. E a vida espiritual, para ele, traduzia-se numa comunhão, numa união profunda com Cristo. E a partir daí, tudo o resto acontecia na vida do D. Daniel”, salientou, reforçando que “a sua personalidade, profundamente marcada pela centralidade da vida espiritual, fazia com que daquilo que ele projetava e realizava nada fosse um fim em si próprio”. “Tudo representava, ao mesmo tempo, uma abertura. É como se cada ação que ele efetuava, tivesse em si uma porta onde iniciava um caminho que nos levava sempre mais além. Fez uma igreja, pois bem, mas a igreja levou-nos muito mais além do que o espaço físico da igreja; esteve na origem do centro comunitário paroquial, mas levou-nos sempre muito mais além. Exatamente porque isso era uma sua marca extraordinária”, acrescentou D. Rui Valério. Fraternidade Nesta manhã na Ramada, o Patriarca lembrou ainda o antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, que faleceu a 4 de novembro de 2022, vítima de doença. “Temos que nos vergar perante a postura que ele assumiu nos anos do seu calvário. Eu tive a graça de ler tudo o que ele deixou escrito e alguns desses escritos têm sido alimento espiritual para mim próprio. Ele conseguia transformar cada caso e cada ocaso da vida, pelo mais dramático que fosse, um momento de esperança, um momento de vida. Naquele diário que ele nos deixou – e que, se Deus quiser, há de ser publicado na íntegra muito em breve –, aquilo que nós verificamos foi como o Daniel vivia uma alegria interior que superava a própria vicissitude da doença. Ele nunca tem uma palavra de desespero, por exemplo. Ele nunca tem uma palavra de solidão, por exemplo. A maneira como ele viveu as horas dramáticas do hospital é de uma grandeza que nós compreendemos que ele não estava sozinho a escrever isto. É transcendente demais para a nossa capacidade. Aquela capacidade de reconhecer, no aproximar-se do enfermeiro, do médico, do auxiliar, de uma visita, o aproximar-se do próprio Cristo e que, portanto, vinha ao encontro dele. A maneira como ele, por exemplo, tratava a própria doença. Não tratava por doença, deu-lhe um nome”, explicou. Antes de benzer a placa toponímica, D. Rui Valério agradeceu o gesto da União das Freguesias de Ramada e Caneças. “Reconheço em D. Daniel as duas virtudes maiores, primeiro do Papa Francisco e depois do Papa Leão, atualmente. Tendo sido ele ordenado presbítero, como eu, em pleno pontificado de São João Paulo II, atravessámos Bento XVI, fomos ordenados bispos, como sabem, no mesmo dia, na mesma igreja, na mesma hora, na mesma celebração, neste 25 de novembro de 2018, no Mosteiro dos Jerónimos, portanto há aqui, entre mim e ele, uma fraternidade que me dá imenso privilégio poder estar a partilhar convosco estas breves palavras. Obrigado por esta iniciativa, é uma iniciativa, portanto, que tem um cariz, é muito holística, é muito universalista, é muito voltada para fora. Ou seja, temos aqui uma Igreja e uma população que verdadeiramente está inserida ao encontro dos outros. Obrigado e bem-haja à Ramada, a Odivelas e muitos parabéns”, terminou. Na presença de muitos paroquianos e também do agrupamento de escuteiros, o Patriarca de Lisboa benzeu e descerrou a placa toponímica que assinala a nova ‘Praceta D. Daniel Henriques’, acompanhado de diversos responsáveis e também de uma irmã do homenageado. Perpetuar a memória Presente na inauguração, o presidente da Câmara Municipal de Odivelas enalteceu o papel do então Padre Daniel Henriques na Ramada. “Este dia é muito importante para mim. Hoje, apagamos as pessoas da história com muita facilidade. Anos mais tarde, olhamos para trás e avaliamos o passado de uma forma anacrónica, tantas vezes injusta, tantas vezes errada, porque, como dizia o filósofo espanhol Ortega y Gasset, «não somos nós, somos nós e as nossas circunstâncias». E, por isso, quero dizer-vos que temos feito algum mal à humanidade quando, muitas vezes, apagamos da história, apagamos o legado daqueles que tanto fizeram pela comunidade, pelo país, pelas autarquias, pelas vilas, por essas províncias fora. Tive a felicidade de conhecer o D. Daniel Henrique. Recordo as suas mãos, era um homem daqueles, como se dizia, muito valente, e ele teve um grande condão: percebeu, desde muito cedo, que nós só poderíamos ter uma sociedade mais próspera, mais justa, mais coesa, com menos assimetrias, menos desigualdades sociais, se construíssemos uma comunidade que permitisse abarcar, dentro de si, os seus parceiros”, frisou Hugo Martins. “Estamos hoje a prestar um enorme tributo, um enorme reconhecimento, para a sua memória, para perpetuar a sua memória. Acho que são destes fazedores, destas pessoas que fazem o hoje e o amanhã, apesar das críticas – porque, hoje, toda a gente atrás de um teclado, atrás de um telemóvel, critica tudo e todos –, mas poucos são aqueles que, quando os convocamos, aparecem na convocatória. Por isso, em boa hora – felicitar a Junta da União das Freguesias de Ramada e Caneças – lhe prestamos esta homenagem, e possamos recordar todos aqueles e todas aquelas que permitiram construir um Concelho de Odivelas mais justo, mais solidário, mais qualificado”, acrescentou o autarca. Entrega ao próximo No início da cerimónia, o presidente da União das Freguesias de Ramada e Caneças salientou como D. Daniel Henriques foi “um homem, pastor, de pessoas e causas”. “Um doutrinador social, especialmente atento aos mais desfavorecidos, com um forte sentido comunitário, foi um construtor de pontes entre as instituições e um conciliador para que as causas nobres acontecessem. Disso são exemplo os oito anos passados ao serviço da comunidade da Ramada, com a inauguração da sede do Centro Comunitário Paroquial da Ramada e da edificação do complexo da Igreja Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos”, apontou Manuel Varela. Lembrando ainda que D. Daniel “partiu cedo, tendo trabalhado até ao fim dos seus dias com um fervor que lhes era característico, apesar da doença”, este responsável justificou depois a homenagem ao antigo pároco da Ramada. “Reconhecendo a importância da pessoa de D. Daniel Batalha Henriques, ordenado bispo em 25 de novembro de 2018, a sua capacidade de trabalho e entrega ao próximo e tudo o que fez na e pela Ramada, procedemos agora ao descerramento de uma placa toponímica com o seu nome, passando este local a designar-se ‘Praceta D. Daniel Henriques’. A título póstumo, a União das Freguesias Ramada e Caneças presta-lhe reconhecida homenagem e agradecimento”, explicou Manuel Varela. A presente homenagem, segundo um comunicado da paróquia, “enche de alegria a comunidade paroquial da Ramada, pois vem destacar um grande pastor da Igreja que deixou uma marca indelével nesta comunidade e em muitas pessoas”. O sentido comunitário do primeiro pároco O então Padre Daniel Henriques foi o primeiro pároco da Paróquia de Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos da Ramada, onde esteve de 1997 a 2005, tendo marcado a comunidade. “Nos oito anos em que serviu a Paróquia da Ramada, privilegiou na sua ação as questões que decorrem da Doutrina Social da Igreja, manifestando especial cuidado para com os mais desfavorecidos da sociedade, à luz do Evangelho”, recorda a paróquia, na nota. Em particular, era o pároco aquando da dedicação da igreja paroquial da Ramada, a 8 de maio de 2005, tendo revelado, ao longo dos anos, “um forte sentido comunitário que lhe permitiu criar ‘pontes’ com muitas pessoas e instituições”. “São disso sinais: a inauguração da sede do Centro Comunitário Paroquial da Ramada, cujos estatutos foram aprovados pelo Patriarca de Lisboa em 24 de novembro de 1997; a edificação do complexo da igreja de Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos, projeto que abraçou com muita dedicação e perseverança, com um vasto grupo de paroquianos que soube congregar; e as parcerias que estabeleceu com instituições civis, como a Junta de Freguesia da Ramada, a Câmara Municipal de Loures, e depois Odivelas, e o Instituto de Solidariedade e Segurança Social, tornando possível a execução do ousado projeto que veio permitir à Ramada ter uma igreja de relevo, que congrega inúmeros grupos e serviços para bem da comunidade paroquial e também da comunidade civil mais alargada, verdadeiro ex-libris da vila”, recorda o comunicado da Paróquia da Ramada, a propósito da obra deixada pelo seu antigo pároco, que agora foi homenageado com a criação da ‘Praceta D. Daniel Henriques’. D. Daniel Henriques Natural de Ribamar, na freguesia de Santo Isidoro e concelho de Mafra, onde nasceu a 30 de março de 1966, D. Daniel Batalha Henriques entrou no Seminário de Almada em 1982 e concluiu a sua formação no Seminário dos Olivais, em 1989. Foi ordenado sacerdote, pelo Cardeal D. António Ribeiro, a 1 de julho de 1990, no Mosteiro dos Jerónimos. Nesse mesmo ano, foi nomeado prefeito do Seminário de Almada, função que exerceu até tomar posse como pároco da recém-criada Paróquia da Ramada (de início com o estatuto de quase-Paróquia), a 21 de setembro de 1997, e da Paróquia de Famões. Em 2005, foi nomeado pároco de Algés e, em 2010, acumulou esse serviço com a função de pároco da Cruz Quebrada. Em 2016, foi nomeado pároco das Paróquias de Torres Vedras e, em 2017, acumulou essa missão com a de pároco de Matacães. Entre outras funções, foi ainda vigário forâneo em Loures, Oeiras e Torres Vedras, membro do Conselho Presbiteral, diretor do Serviço de Animação Missionária e diretor espiritual do Seminário dos Olivais. Foi ainda feito cónego do Cabido da Sé Metropolitana Patriarcal de Lisboa em abril de 2011. A 13 de outubro de 2018, foi nomeado, pelo Papa Francisco, Bispo Auxiliar de Lisboa, com o título de ‘Acquae Tibilitane’ (antiga diocese no território da atual Argélia). A ordenação episcopal teve lugar no dia 25 de novembro desse ano, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, juntamente com D. Rui Valério, hoje Patriarca de Lisboa, que então tinha sido nomeado Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança. Ao longo de quase quatro anos, o prelado acompanhou em especial a zona Oeste da diocese. D. Daniel Henriques faleceu a 4 de novembro de 2022, aos 56 anos, vítima de doença oncológica.![]() |
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