Lisboa |
Homilia de D. Rui Valério na Missa em Sufrágio do Papa Francisco
“Com gratidão profunda, confiamos o nosso Papa à ternura do Pai”
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1. Reunimo-nos nesta noite, ainda sob o clarão da Ressurreição, mas com o coração tocado pela notícia do falecimento do nosso querido Papa Francisco. A Igreja, em toda a terra, une-se em oração e em ação de graças por este servo humilde do Senhor. É um momento de profunda comoção: o mundo viu nele um homem simples, acessível, profundamente evangélico. O seu pontificado foi um farol para a Igreja e para o mundo e elevamos a Deus um hino de ação de graças por tudo o que ele foi, disse e fez.

A liturgia de hoje, providencialmente, ilumina o momento que vivemos, oferecendo-nos três pontos para a nossa meditação: a firme esperança cristã, a gratidão pela herança que o Papa Francisco nos deixou e a condição nova da vida ressuscitada.

 

2. Na primeira leitura, escutamos São Pedro no dia de Pentecostes, anunciando com coragem que Deus ressuscitou Jesus (cf. At 2, 24) e que todos nós somos testemunhas desse acontecimento. Esta é a raiz da nossa esperança: Cristo ressuscitou verdadeiramente. Não seguimos uma ideia, uma moral ou uma teoria. Seguimos o Ressuscitado, vencedor da morte, que abriu para nós o caminho da vida eterna. A nossa esperança não está ligada a contingências históricas, nem a progressos da imanência terrena, mas, como professamos no Credo “esperamos a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo que há de vir”. A esperança é âncora que nos liga à eternidade. O Papa Francisco, apontou-nos para esse horizonte com o qual viveu sintonizado em permanência; e, por isso, o fez acontecer no seu magistério, tornou-o presente. As suas palavras, os seus gestos, contêm dentro de si a substância da eternidade, e a sua vida foi uma antecipação da plenitude da vida.

A sua morte, ainda que nos entristeça, vem assim iluminada por esta certeza pascal. Ele próprio, ao longo do seu pontificado, não se cansou de apelar a que não deixássemos que nos roubassem a esperança. E hoje, nós, seus filhos e irmãos na fé, dizemos: não, a esperança não está morta. A morte não tem a última palavra. Cristo ressuscitou, e nele também o nosso amado Papa viverá eternamente. Se ao longo de todo o seu pontificado, ele foi profeta da esperança, também com a sua morte volta a anunciá-la, talvez da forma mais veemente que alguma vez fez. Nas guerras, na pandemia, nas divisões e polarizações do mundo, o Papa Francisco sempre afirmou que Deus não abandona os seus filhos. Agora vemo-lo a ele mesmo, de forma plena e definitiva, nos braços do bom Deus que nos ama.

 

3. No Evangelho de hoje, as mulheres correm do túmulo para anunciar aos discípulos que Jesus vive. E no caminho encontram o próprio Senhor que lhes diz: «Não temais. Ide avisar os meus irmãos que devem ir para a Galileia. Lá Me verão» (Mt 28, 7). Esta cena diz muito da missão do Papa Francisco. Ele foi, antes de tudo, um anunciador de Cristo vivo. Repetiu muitas vezes, com palavras e gestos, que no centro da fé está Jesus, e que a Igreja deve sair de si mesma para levar o Evangelho às periferias da existência. A Igreja não pode ser autorrefencial; a sua referência, o seu centro, o seu fundamento é Cristo e o amor de Deus.

Com o Papa Francisco, com o que ele disse e fez, não são só os cristãos que se sentem chamados a ser mais autenticamente cristãos, mas é o ser humano em geral, cada homem e cada mulher, que se sente chamado a ser autenticamente Homem. A partir de Cristo, o Papa Francisco lança um olhar salvífico, a partir do olhar de Deus, sobre o ser humano, sobre o Homem integral: ele vê que cada homem e mulher, independentemente do seu passado, das suas contingências históricas, sociais ou pessoais, é um escolhido, um amado de Deus, um vocacionado para a vida nova, plena e total. Assim, o coração do seu pontificado foi levar Cristo ao mundo e o mundo a Cristo.

 

4. O seu pontificado foi um longo e fiel eco daquela ordem pascal: «Ide anunciar aos meus irmãos». E por isso, podemos confiar que agora ouve da parte do Senhor as palavras: «Muito bem, servo bom e fiel» (Mt 25, 21). Ele colocou no âmago da sua palavra e a da sua ação os pobres, os migrantes, os doentes. A sua mensagem central foi o convite constante à misericórdia. E a misericórdia é sempre o que abre à esperança… não há esperança sem misericórdia, sem termos bem firme no nosso coração que o amor de Deus transforma tudo. Aliás, a liturgia de hoje não nos deixa esquecer que o Ressuscitado transforma tudo. As mulheres do Evangelho vão ao túmulo com lágrimas e voltam com alegria. Os discípulos, temerosos, tornam-se corajosos anunciadores.

Também a vida do Papa Francisco foi marcada por esta transformação pascal: da doença à oferta, da idade à sabedoria, do sofrimento à esperança. E agora, já participa plenamente na vida nova em Cristo. Irmãos e irmãs, a vida ressuscitada é uma vida nova, plena, incorruptível, para a qual todos caminhamos. Francisco acreditou nisto, pregou isto, viveu isto. E agora, pela misericórdia de Deus, vive isto.

Mas, ao mesmo tempo, reconhecemos que, se a casa do Pai é o coração de Deus (cf. Jo 14, 2) e se Deus é o Pai que sempre nos espera e nos abraça com ternura (cf. Lc 15, 11-32), assim como é o Bom Samaritano que se enche de compaixão (cf. Lc 10, 29-37), então, a ação do Papa Francisco foi o fazer acontecer, em cada hoje e aqui mesmo, aquelas maravilhosas e deslumbrantes realidades que esperamos para o dia intemporal; no «já» da nossa história, tornou-se presente e aconteceu o que esperamos ainda. O seu pontificado permitiu-nos saborear aqui e agora aquilo que é o amanhã da vida eterna. Por isso, o seu pontificado é realização do definitivo de Deus no mundo, nos corações que se abrem com generosidade ao plano divino.

 

5. Com gratidão profunda, confiamos o nosso Papa à ternura do Pai. Como Igreja, sigamos o seu exemplo de simplicidade, escuta e fidelidade ao Evangelho. E que esta Páscoa, vivida sob o sinal da sua partida, nos torne ainda mais fiéis à esperança, ao Cristo vivo e à vida nova que não acaba. Somos responsáveis por receber e viver o testamento do Papa Francisco: a sua herança de fraternidade, de amizade e de amor. Obrigado, Papa Francisco, por nos oferecer um ícone do homem redimido: a sua vida, as suas ações e as suas palavras compenetram-se reciprocamente, aliás identificam-se pujantemente.

Pedimos à Virgem Maria, Mãe da Esperança, que também acolha de braços bem abertos, com aquela abertura que o Papa Francisco sonhou para a Igreja, da qual ela é imagem, este seu filho, que tanto a amou. Amen.

 

Sé Patriarcal, 21 de abril de 2025
† RUI, Patriarca de Lisboa

 

 

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