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Homilia
Homilia na conclusão do Ano Vicentino
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1. A Sagrada Escritura sempre ofereceu o contexto apropriado para que a celebração do passado fosse inspiração para o presente e projeção para o futuro. 

E esse contexto não incide e nunca incidiu tanto na majestade dos eventos celebrativos, nem se esgotou na exuberância das manifestações exteriores, nem tão pouco fica sujeito ao domínio da saudade, mas consiste na capacidade da figura ou do acontecimento evocado se tornar atual e gerar, com força criadora, vida e esperança.

Isso, caras irmãs e irmãos, é quanto nós podemos reconhecer em relação a Jesus Cristo, ao seu mistério e à sua pregação. «Quem dizeis vós que seja o Filho do Homem?» (Mc 8, 27-35). É uma palavra que não fica apenas arrumada nas gavetas ou prateleiras da memória, mas é uma questão e um desafio que hoje, cada um de nós sente como dirigido a si pessoalmente, obrigando-nos a sair do nosso imobilismo, da nossa indiferença, dum esmagamento do quotidiano que tantas vezes com o seu ritmo alucinante nos distancia do mistério da vida dos outros e por vezes até do próprio Jesus, que se oferece como aquele Senhor e Messias que nos convida a segui-l’O: «Vinde atrás de Mim».


2. Mas na mesma senda, nós podemos contemplar hoje a figura de São Vicente. Vicente situa-se na atualidade do presente. Ele continua a ser capaz de, ainda hoje, acender a luz que nos ilumina e orienta pelos caminhos e estradas que temos de percorrer. Por isso, enquanto Igreja de Lisboa, a São Vicente não devemos apenas o mérito de possuirmos um perfil prático de viver a fé, um modo historicamente relevante de testemunhar o Evangelho, que é tão conforme seja à sua condição de diácono, mas é sobretudo conforme àquela interpelação que Jesus lançou aos discípulos e à multidão. Vicente era o diácono que vivia a diaconia ao serviço de Deus e dos irmãos; era o pregador que praticava o que anunciava; era o discípulo de Jesus que carregava a sua cruz, mas também a dos pobres e necessitados no seguimento do Mestre. Também nós, Igreja de Lisboa, somos assim! Queremos ser assim! Agradecemos ser assim! Movidos na graça de Deus, como São Vicente, fazemos da vida um abnegado serviço ao Reino, à Igreja, aos irmãos.

Por isso, para Lisboa, São Vicente não é só um excelso e digno paradigma, ele é sobretudo um dos fundadores do nosso perfil de ser cristão e do modo da vida na caridade desta Igreja: prático e concreto no seguimento de Cristo, a quem nos damos e por quem nos damos, e comprometidos com a opção preferencial pelos pobres, existencialmente a servir em comunidade. Em consonância surge São Tiago que, acertadamente, questiona «De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?» (Tg 2, 14), e, logo de seguida, ilustrava que a fé verdadeira é operativa e existencialmente eficaz, faz-se acontecimento – “a fé sem obras está completamente morta”, mas, “pelas obras, te mostrarei a minha fé” (Tg 2, 17. 18). O mesmo São Tiago, numa caminhada que depois foi seguida por Vicente, mas fundada em Cristo, reconhece que a primeira obra da fé onde a transformação se realiza, esse sonho de uma nova humanidade começa e passa por cada um de nós. É em nós que se verifica essa eficácia da nossa fé, na medida em que plasmamos uma existência, em que nos deixamos, pela graça de Deus, ser conformes àquilo que nós pronunciamos de acreditar. E o centro da fé é constituído pela Ressurreição de Cristo, pela vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre o desespero, da luz sobre as trevas. É esta nova vida, a obra verdadeira, que deve resplandecer em nós e queremos que resplandeça e resplandece na Igreja de Lisboa.

Com o coração grato, nós reconhecemos que, ao longo deste ano, de facto, não faltaram ações, gestos, obras, bem como momentos de interpelação, de conhecimento, de empreendedorismo espiritual e cultural, de ação de graças, derivados diretamente da celebração do Jubileu Vicentino… Revelaram-se como encarnação da fé em atos e obras, porque essa é a verdadeira estrutura do crer. O qual, banco da prova, é a nossa vida, é o nosso testemunho.

Podemos dizer, assim, caras irmãs e irmão, que aquilo que se viveu ao longo deste ano veio confirmar que a única força capaz de esculpir um novo rosto de ser humano, a única força capaz de plasmar um novo mundo são aquela pujança da fé que se traduz em obras, são as obras que encarnam a fé, que traduzem e realizam essa nossa comunhão com Cristo na comunhão com a humanidade.

Mas, com São Vicente, ousamos ainda mais e dizemos: o que regenera um povo, uma cidade, qualquer comunidade, é a fé quando se torna ação, quando se faz gesto, quando se encarna em obras. E, neste sentido, vemos como ainda há tanto a fazer na nossa Cidade, na nossa Diocese de Lisboa: sentimos a urgência de continuar no caminho de devolver esperança aos jovens; sentimos a urgência de continuar a socorrer todos os homens e mulheres que se encontram em situação de fragilidade e de emergência social; ser e fazer a diferença numa sociedade que precisa de sinais fortes que mostram o rumo para um humanismo justo e gerador de justiça e caridade.


3. A atualidade de Vicente incide ainda na aplicação, por ele efetuada, do serviço à Escuta da Palavra. De facto, a diaconia cristã não se exprime, nem se esgota, apenas nas obras e ações de auxílio e proteção executadas aos pobres, aos necessitados e frágeis; também se exprime e realiza na escuta da Palavra de Deus e essa escuta é um serviço à fé, à vida e à esperança. Jesus questionava «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mc 8, 27): é o desafio lançado pelo Senhor à Igreja de hoje e todos os tempos. Esse desafio ativa um itinerário de procura que nos conduz a uma decisão absoluta de ser pelo Senhor e para o Senhor, ao mesmo tempo que possibilita a escuta em profundidade da voz da humanidade, das suas incertezas e dos seus anseios.

Hoje, irmãs e irmãos, o verdadeiro discípulo de Jesus é sobretudo aquele que não se esconde perante o drama e o peso da cruz. Só a sua aceitação nos aproxima do Redentor. Insistir numa inconcebível negação da sua realidade – como o faz Pedro (cf. Mc 8, 32) – afasta-nos do verdadeiro Salvador, que é sempre o Cristo Crucificado por amor, e esvazia a própria existência.

Por isso, a nossa celebração dos oitocentos e cinquenta anos da chegada das relíquias de São Vicente a Lisboa, não é e não foi somente memória e saudade, assumiu sobretudo, principalmente, contornos de profecia e esperança… «Não tenhais medo!», escutamos ainda hoje. Estou sempre contigo. «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.» (Mc 8, 34) Cruz redentora que nos oferece a alegre oportunidade de partilhar Maria, a Mãe, que como no Calvário junto ao Filho amado, está sempre presente nas desventuras da vida e nos contra-caminhos de cada um de nós.


4. Sim, a Palavra que hoje tivemos a alegria de escutar, estabelece uma misteriosa relação entre a Cruz e a perseverança da fé. O servo sofredor em Isaías, na primeira leitura, confessa: «Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam» (Is 50, 6). Este é um surpreendente hino à fidelidade ao Senhor da História, não obstante as contradições e os paradoxos da vida, é uma fidelidade e uma perseverança que só a fé realiza. O não desistir, o não voltar a face, o não recuar. Mas, curiosamente, o mesmo profeta Isaías também esclarece onde reside a fonte e a força dessa fidelidade e dessa perseverança para não recuar, para não desistir, para não voltar atrás. Ele escreve «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti nem recuei um passo» (Is 50, 5). Ou seja, caras irmãs e caros irmãos, é na escuta da Palavra, na familiaridade com a Palavra, na assimilação da Palavra, no matrimónio com a Palavra de Deus que surge e se desenvolve a grande e incomensurável capacidade de permanecer com Ele e com a sua amada Igreja; de Lhe ser fiel até ao fim, de jamais desertar do seu Corpo místico e glorioso, que é a Igreja.

São Vicente inspira-nos a redescobrir a força capital da Palavra de Deus e a pô-la em prática. Escutá-la, acolhê-la, meditá-la e vivê-la realiza a Sua presença em nós e na nossa vida, essa presença de Cristo que é Emanuel, o Deus connosco, e, por isso mesmo, faz-se acontecimento histórico da ação do Senhor o que equivale a falar da sacramentalidade da Palavra de Deus.

São Vicente, rogai por nós, protegei Lisboa, inspirai e iluminai o nosso amado Patriarcado.


Sé Patriarcal, 15 de setembro 2024
† RUI, Patriarca de Lisboa



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