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Visita do Papa Francisco ao Iraque
O perdão como caminho para a unidade e a coexistência
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É apontada, por muitos, como uma “viagem histórica” e até a “mais perigosa” feita por um Papa. No Iraque, Francisco apresentou-se como “penitente que pede perdão ao Céu e aos irmãos por tanta destruição e crueldade” e como “peregrino de paz”. No final da viagem, que decorreu de 5 a 8 de março, o Papa revelou ter ficado “sem palavras” diante da destruição que encontrou em Mossul.

 

O dia 5 de março de 2021 fica para a história como o primeiro em que um Papa pisou solo iraquiano. Depois de João Paulo II ter cancelado a viagem àquele país, no ano 2000, após um desentendimento com o governo de então, liderado por Saddam Hussein, o Papa Francisco cumpriu esse desejo e, contra muitas recomendações, fez questão de visitar este país de maioria muçulmana e que tem sido marcado pela violência inter-religiosa e étnica ao longo das últimas quase duas décadas.

No seu primeiro discurso público, às autoridades políticas, civis e diplomáticas, Francisco fez um apelo apaixonado pela paz, mas foi também exigente ao dizer, repetidamente – ainda que de forma diplomática –, que só pode haver um futuro democrático e pacífico no Iraque se todas as comunidades, incluindo os cristãos, tiverem os seus direitos assegurados. “É indispensável assegurar a participação de todos os grupos políticos, sociais e religiosos e garantir os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Que ninguém seja considerado cidadão de segunda classe”, disse Francisco, que antes já tinha recordado que “a Santa Sé não se cansa de apelar às Autoridades competentes no Iraque, como noutros lugares, para que concedam a todas as comunidades religiosas reconhecimento, respeito, direitos e proteção”.

 

 

Apelo à unidade

Neste primeiro dia da visita de quatro dias ao Iraque, o Papa encontrou-se, em Bagdade, com o clero católico, onde reconheceu a beleza da variedade de ritos e de tradições litúrgicas no país, mas apelou a que isso não fosse um obstáculo à unidade. “As diversas Igrejas presentes no Iraque, cada qual com o seu secular património histórico, litúrgico e espiritual, são como tantos fios de variegadas cores que, entrelaçados conjuntamente, compõem um único belíssimo tapete, que não só atesta a nossa fraternidade, mas remete também para a sua fonte, pois o próprio Deus é o artista que idealizou este tapete, que o tece com paciência e prende cuidadosamente querendo-nos sempre bem entrelaçados entre nós, como seus filhos e filhas”, referiu.

“Como é importante este testemunho de união fraterna num mundo que se vê frequentemente fragmentado e dilacerado pelas divisões! Todo o esforço feito para construir pontes entre comunidades e instituições eclesiais, paroquiais e diocesanas aparecerá como gesto profético da Igreja no Iraque e como resposta fecunda à oração de Jesus para que todos sejam um só”, afirmou ainda o Papa, neste encontro que decorreu no interior da Catedral de Nossa Senhora da Salvação, onde, em 2010, um atentado matou 48 cristãos, incluindo dois padres, e fez dezenas de feridos. “Estamos reunidos nesta Catedral de Nossa Senhora da Salvação, abençoados pelo sangue dos nossos irmãos e irmãs que aqui pagaram o preço extremo da sua fidelidade ao Senhor e à sua Igreja. Que a recordação do seu sacrifício nos inspire a renovar a nossa confiança na força da Cruz e da sua mensagem salvífica de perdão, reconciliação e renascimento. Na verdade, o cristão é chamado a testemunhar o amor de Cristo em todo o tempo e lugar. Este é o Evangelho que se deve proclamar e encarnar também neste amado país”, apontou.

 

 

À chegada ao Iraque, na presença do Presidente da República, Barham Salih, e de representantes das autoridades, da sociedade civil e do corpo diplomático, Francisco recordou que aquele país tem tido um lugar especial no seu coração e no dos seus antecessores ao longo dos últimos anos. Também têm sido constantes as vezes em que o Papa tem rezado pela paz naquele país, particularmente durante os piores anos de violência e de perseguição levada a cabo, entre outros, pelo Estado Islâmico. Por isso, o apelo à paz foi a tónica deste primeiro discurso. “Calem-se as armas! Limite-se a sua difusão, aqui e em toda a parte! Cessem os interesses de parte, os interesses externos que se desinteressam da população local. Dê-se voz aos construtores, aos artífices da paz; aos humildes, aos pobres, ao povo simples que quer viver, trabalhar, rezar em paz! Chega de violências, extremismos, fações, intolerâncias”, insistiu o Papa, que se apresentou como “penitente que pede perdão ao Céu e aos irmãos por tanta destruição e crueldade" e como "peregrino de paz, em nome de Cristo, Príncipe da Paz”.

 

 

Coexistência pacífica

O segundo dia da visita, no dia 6 de março, ficou marcado pelo apelo à igualdade de direitos para os cristãos e outras minorias religiosas.  Daquele que foi “um encontro histórico” e privado que reuniu, em Najaf, Francisco e o líder supremo dos muçulmanos xiitas, o ayatollah Ali al-Sistani, fica um comunicado da autoridade muçulmana que reforça o esforço diplomático do Vaticano no sentido de garantir direitos para os cristãos. A pequena frase “os cristãos devem viver e gozar de plenos direitos ao abrigo da constituição”, não pode assim ser menosprezada.

Já em Ur, a terra de Abraão, Francisco presidiu a uma cerimónia inter-religiosa. O evento serviu para testemunhar a importância da coexistência num país onde os cristãos são apenas uma de várias minorias religiosas, e nem sequer a mais duramente perseguida. E o encontro testemunhou isso não só pelos presentes, muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos e mandeus, entre outros, mas pela notória ausência de judeus, os primogénitos de Abraão, que não existem mais no Iraque precisamente por causa da perseguição a que foram sujeitos ao longo das últimas décadas.

 

 

À tarde, Francisco tornou-se o primeiro Papa a celebrar Missa no Iraque e o primeiro Papa a celebrar segundo o rito caldeu. Num discurso mais virado para dentro, sublinhou o facto de ser precisamente na pequenez, na fraqueza e na mansidão que os cristãos do Iraque encontrarão as bem-aventuranças prometidas por Cristo. Apesar de os cristãos daquela região serem considerados ‘cidadãos de segunda’, o Papa Francisco quis assegurar-lhes que o caminho da Cruz, do perdão e mansidão, não são incompatíveis com a justiça, sendo antes o melhor caminho para lá chegar. “Como reajo eu às situações funestas? À vista das adversidades, apresentam-se sempre duas tentações. A primeira é a fuga: fugir, virar as costas, desinteressar-se. A segunda é reagir, como irritados, com a força. Assim aconteceu com os discípulos no Getsémani: no alvoroço geral, vários fugiram e Pedro puxou da espada. Mas nem a fuga nem a espada resolveram coisa alguma. Ao contrário, Jesus mudou a história. Como? Com a força humilde do amor, com o seu paciente testemunho. O mesmo somos nós chamados a fazer; assim Deus realiza as suas promessas”, pediu Francisco.

 

 

“O Iraque ficará sempre no meu coração”

No Domingo, 7 de março, o Papa Francisco celebrou Missa para milhares de pessoas no estádio Franso Hariri, em Erbil, no Curdistão iraquiano, e no final dirigiu uma saudação especial aos presentes. “Agora, aproxima-se o momento de voltar para Roma. Mas o Iraque ficará sempre comigo, no meu coração. Peço a todos vós, queridos irmãos e irmãs, que trabalheis juntos e unidos por um futuro de paz e prosperidade que não deixe ninguém para trás nem discrimine ninguém”, desejou Francisco, assegurando as suas orações por aquele “amado país”. “Salam, salam, salam! Shukrán”, disse Francisco, usando a palavra árabe para “obrigado”.

 

 

Terminada a celebração, o Papa regressou a Bagdade, onde passou a noite e, no dia seguinte, partiu para Roma.

Durante a viagem de regresso, no avião, o Papa Francisco revelou ter ficado “sem palavras” diante da destruição que encontrou em Mossul, no norte do Iraque, criticando os comerciantes de armas que alimentam a guerra e fenómenos como o autoproclamado ‘Estado Islâmico’. “Quando parei diante da igreja [siro-ortodoxa] destruída, fiquei sem palavras. Inacreditável, inacreditável. Não só a igreja, mas também as outras igrejas, inclusive uma mesquita destruída, via-se que não estariam de acordo com esta gente [Daesh]”, referiu Francisco.

 

 

Aos jornalistas a bordo do avião da Alitalia, nesta segunda-feira, 8 de março, o Papa mostrou-se ainda emocionado com o testemunho de uma mãe, em Qaraqosh, que perdeu o filho num bombardeamento do Daesh e falou da necessidade de “perdão”. “Perdoar os inimigos, isto é o Evangelho puro. Foi o que mais me tocou em Qaraqosh”, declarou. A intervenção abordou ainda o encontro com Abdullah Kurdi, pai do pequeno Ali, que foi encontrado sem vida, em 2015, numa praia da Turquia, após um naufrágio no Mediterrâneo. O Papa disse que a criança é um “símbolo” de todos os menores que morrem nas migrações, das pessoas que não sobrevivem às travessias no mar, “um símbolo da humanidade”. “São precisas medidas urgentes para que as pessoas tenham emprego no seu país e não precisem de emigrar”, apontou.

 

texto por Filipe Teixeira, com Renascença e Ecclesia; fotos por Vaticanews
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