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Vida em casal
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O serviço de apoio à Pastoral da Família da diocese, depois de ter falado com os casais responsáveis de paróquias de todas as zonas da diocese, percebeu que uma das questões que mais preocupam as famílias e, por isso mesmo, exigem um renovado empenho da pastoral da família, é o acompanhamento dos casais. Porque a pastoral da família não se resume à preparação para o casamento ou ao cuidado das famílias em crise, ainda que estas duas situações sejam igualmente centrais, julgámos útil propor, numa série de quatro temas, algumas ideias sobre a vida em casal em diversas fases da sua vida. A ajudar-nos temos a professora Maria Teresa Ribeiro que, pela experiência e pela sensibilidade pastoral, pôde identificar quatro principais etapas a cuidar.

Este mês abordamos o tema da formação do casal, nos próximos meses falaremos dos outros temas. Esperamos ir, assim, ao encontro das famílias e das paróquias com uma singela proposta de reflexão sobre um perto da nossa sociedade e da Igreja.

1. Formação do Casal: 1+1=3.

2. Ser mãe e ser pai e continuar a ser casal.

3. Superar dificuldades e crises em casal.

4. Desafios da conciliação família/trabalho.

 

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Formação do Casal: 1+1 = 3

A constituição de família continua a ser um desejo profundo do ser humano e um casamento duradouro e feliz faz parte do projecto de vida da maioria das pessoas. Na verdade, constata-se que o casamento, enquanto fenómeno universal, constitui um dos principais determinantes de satisfação com a vida em quase todas as culturas, países e religiões.

À semelhança dum organismo vivo, também a família sofre um processo de desenvolvimento no sentido da sua evolução e complexificação, passando por um ciclo de vida no qual se podem distinguir fases de desenvolvimento - desde 2 (crescimento e decrescimento) até 5, 8 ou 24 fases (consoante os investigadores). Trata-se de uma sequência previsível de transformações na organização familiar, em função do cumprimento de tarefas de desenvolvimento bem definidas. Tais tarefas de desenvolvimento da família relacionam-se com as características individuais dos seus elementos (eg. características e idade do casal e dos filhos) mas também com a pressão social e cultural para o desempenho adequado das tarefas essenciais à continuidade funcional do sistema-família. Optando-se por um modelo de ciclo de vida familiar intermédio no que se refere ao número de fases (8) - formação do casal, nascimento do primeiro filho, casal com filhos em idade pré-escolar, casal com filhos em idade escolar, casal com filhos adolescentes, casal com filhos adultos, casal na fase de “ninho vazio” e envelhecimento – dedicamo-nos, neste artigo especialmente, à formação do casal.

Com efeito, uma relação estável e feliz continua a fazer parte do projeto de vida da maioria das pessoas. “Ser casal” é a relação mais estreita e mais íntima que pode existir entre uma mulher e um homem que se escolhem livremente e com expectativas elevadas de felicidade. Mas, apesar da visão popular, positiva e romântica, “tornar-se um casal” constitui uma das transições mais complexas e difíceis no ciclo de vida familiar. O casal em construção depressa toma consciência das suas próprias exigências e do modo como elas podem entrar em conflito com as necessidades individuais dos cônjuges que lhe deram vida. No processo de formação e de consolidação do casal, marido e mulher diferindo pelo seu sexo, pela sua identidade, pela sua própria história, pela cultura da família de origem, vão fazer uma síntese operante - o "nós" – a relação. Como todos os casais funcionam como unidade de relação (nós) e como pessoas (eu e tu) - o "1+1=3". A construção do “nós”, área de encontro do casal que se pretende cúmplice e protectora pode, pois, ser o porto seguro onde o “eu” e o “tu” encontram estímulo para se desenvolver e realizar ou, diferentemente, pode amplificar dificuldades individuais e relacionais que os afastam e os impedem de um relacionamento mais íntimo e feliz.

Cada casal constrói a sua identidade de casal e de pais, fazendo a gestão das diferenças e da complementaridade, ou seja, ajustando o que se espera de um homem e de uma mulher, de um pai e de uma mãe, em casal, com o que aquele homem e aquela mulher específicos pretendem ser enquanto pessoas, casal e família. E, assim como cada ser humano é único e irrepetível, cada casal (aquela mulher com aquele homem) é, também, único e irrepetível. Não há outro igual no mundo.

Sendo frágil a relação do casal actual, como se pode constatar pelas estatísticas designadamente do divórcio, não deixa de ser, também, uma entidade forte, sobretudo devido à sua flexibilidade de adaptação aos diferentes contextos de tempo e de espaço. De facto, é uma estrutura sem concorrente real na cultura, em parte devido ao seu fundamento biológico de continuidade da espécie, em parte devido ao espaço rico de relações amorosas em que se tem vindo a transformar. No entanto, o amor é muito mais do que emoção, é um conjunto de sentimentos conscientes através dos quais é possível expressar uma vontade – a vontade de amar o outro, a vontade de ser amado pelo outro, a vontade de criar uma relação que seja ‘nossa’. É neste sentido que se diz que ‘amar é, também, querer amar’. Afectos, cognições e comportamentos surgem no amor de uma forma tão simultânea e complexamente relacionada que não é possível isolá-los. Sem desvalorizarmos os afectos e os sentimentos, o amor, na sua essência, é uma decisão.

É consensual, entre os estudiosos do tema, que a passagem para uma “vida a dois” confronta cada um dos membros do casal com uma nova realidade plena de desafios que exige respostas novas e adaptações específicas. Destacam-se como tarefas de desenvolvimento da formação do casal: o aprofundamento do amor surgido durante o namoro; a construção da identidade da relação (e.g. que aspectos de que modelos das respectivas famílias de origem vão ou não ser adoptados pelo novo casal e como); o desenvolvimento de acordos sobre envolvimento, proximidade, intimidade psicológica, autonomia/intimidade, poder; o ajustamento de hábitos e costumes; o ajustamento de papéis e funções; o estabelecimento de nova rede de relações sociais.

O facto de existir uma história comum da família/casal confere identidade no meio das mudanças e adaptações inerentes a um desenvolvimento individual e conjunto, necessário por causa das mudanças das estruturas sociais, familiares e educacionais. E a manutenção do amor no casal é um processo diário de descoberta e construção de diferentes formas de amar e ser amado que acompanhem a evolução de cada um dos cônjuges ao longo do seu desenvolvimento.

Para nós, católicos, o casamento é um sacramento e, por isso, o “1+1=3” adquire uma outra leitura com outro significado – é O infinito (Deus) que vem ao encontro de finitos (eu, tu, a relação). Somos chamados a ser homem, ser mulher, ser casal, ser família à imagem e semelhança de Deus. De Deus que é Amor…E como é o Amor de Deus? Deus ama-nos com um Amor que é livre e gratuito, total, fiel e fecundo. O Sacramento é um sinal do amor de Deus (ajuda concreta para que possamos amar como Deus nos amou, com um amor fiel e capaz de chegar ao extremo pela outra pessoa) e um sinal do amor a Deus (porque Lhe oferecemos nos momentos de sofrimento e crise, o nosso amor, fazêmo-Lo co-participante do nosso compromisso e pedimos-Lhe ajuda para o cumprir com fortaleza e generosidade).

texto por Maria Teresa Ribeiro

 

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Formação do Casal: 1+1=3

Estranha a matemática das coisas de todos os dias. Parece que vai sempre cabendo mais um à mesa, parece que afinal o pão sempre vai dando, parece que até na mais esquálida manjedoura sempre vai nascendo, uma e outra vez, quem nos leva de volta a casa. Quando começamos a construir o nosso matrimónio, quando nos decidimos a isso, estamos a fundar uma novidade irrepetível na história da existência humana. O nosso sim cria, de facto, uma realidade absolutamente nova, muito maior que apenas duas vidas a correr em paralelo. E é a única vez na vida em que uma conta errada, bate certa! 1+1=3.

É preciso, contudo, reconhecer que esta matemática depende mais da liberdade dos factores que da lógica. 1+1 só será 3 se deixarmos, se trabalharmos por isso, e na medida em que nos deixarmos crescer em conjunto, em que nos deixarmos amadurecer pela graça que recebemos no dia do nosso casamento. Esta operação não se faz numa folha quadriculada, mas na vida de todos os dias, implica opções concretas sobre rotinas e estilos de vida. Implica ceder, deixar-se conduzir, cuidar para que o outro brilhe; implica alimentar o amor e não dar trela àquilo que o gasta. Implica estar disposto a perdoar, a recomeçar. O risco é que se 1+1 não for 3, facilmente acaba por ser 0. A soma que não se cuida passa a ser um choque frontal de duas pessoas diferentes, com histórias e manias diferentes, com ambições e sonhos diferentes -  facilmente deixa de ser soma e passa a ser apenas diferença.

Não serão muitas as situações da vida que nos mostrem com tanta eloquência que nem sempre chegamos para tudo como a construção e o cuidado da vida familiar, especialmente quando chegam os filhos, tipicamente numa fase em que o trabalho também exige muito de nós. A sagrada beleza e limpidez da vida diária, tantas vezes revelada em relances fugazes, é tantas outras trespassada de cansaços e poeiras, zangas e limitações.

Mas a vida pode seguir e florescer, e nós com ela, se soubermos permanecer. Somos levados ao colo por Alguém, sustentados por um impulso maior do que a resultante das nossas forças. E é nessa tangência do limite que levantamos os olhos e vemos chegar o nosso auxílio. É para amparar o que não podemos e desvendar o que não sabemos que a graça do matrimónio se derrama transbordante e silenciosa, em torrentes que às vezes só se conseguem ver mais adiante, ao olhar para trás. É muitas vezes no limite que damos conta de que sempre estivemos ao colo de Deus. Só que Ele está sempre à nossa porta e chama. Deus entrará e ceará em casa de quem ouvir a Sua voz e Lhe abrir a porta. O grito de alma é amplificado em Deus. A nossa voz faz eco. 1+1=3.

No episódio das bodas de Canãa, está Nossa Senhora a suplicar a acção de Jesus, para bem dos noivos - e dos convidados, na verdade. Podemos ter a mesma confiança. A Mãe da Igreja tem por todas as famílias uma ternura igual à desse dia, de atentamente cuidar do que precisamos ao mesmo tempo que nos educa no reconhecimento e obediência a Deus, pelo seu Filho. Melhor que ninguém, Maria e José viram no seu casamento o fruto perfeito do Amor Encarnado. Não somos todos chamados a ser pais da segunda pessoa da Santíssima Trindade, mas somos todos chamados e capacitados pela graça do sacramento do matrimónio a ser sinal do amor de Deus para o mundo. Na verdade, 1+1=3 tende para o infinito, como o nosso coração.

texto por Joana Cordovil Cardoso e João Corrêa Monteiro

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