Cáritas de Lisboa |
Testemunhos sobre a Nova Economia
Conseguirá o Encontro de Assis ser um corajoso momento de efetiva novidade e transformação da economia?
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Momentos de crise socioeconómica levam geralmente a um maior agravamento dos problemas e a uma acentuada constatação de que há algo de errado nos nossos estilos de vida e na economia que se foi expandindo, e que hoje, de forma globalizada, toma conta da grande maioria dos Estados, ao acomodar também, ao jeito do camaleão, o que cada povo valoriza e tem de especificamente seu. Também é verdade, num “oficial” pós-crise, que ao devolver algum poder de compra, o crescimento económico, ainda que residual, leva a que facilmente se deixe para trás, e se ignore, a tempestade, o sofrimento, a destruição, e as suas causas.

Não é de todo essa a ilusão, de que o pior já passou e que está tudo bem, que a Cáritas Diocesana de Lisboa procura explicar e incutir, como conforto e encorajamento, nas pessoas que apoia. Sem falsa presunção, a criação de Cáritas Paroquiais em todas as paróquias da diocese - sua estratégia em curso, num Ano Pastoral dedicado à Caridade - deseja, por um lado, ser expressão de um outro tipo de economia, que não desiste de ninguém, procurando ser justa, afetuosa, inclusiva de a quem a indiferença ou as mais esfarrapadas razões continuam a deixar de fora, e por outro, ser arauto pedagógico, com a certeza de que, se queremos ser menos pobres, desiguais e amigos do ambiente, todos, sem exceção, vamos ter de aprender e mudar de estilo de vida.

O Papa Francisco, no seguimento das preocupações seriamente refletidas nos textos do seu pontificado, convidou jovens economistas e empresários do mundo inteiro, os melhores estudiosos, para um grande encontro em Assis (26-28 março), com o propósito de “estabelecer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã. Pensou-o para Assis e deu-lhe o nome de “Economia de Francisco”, por acreditar que o ideal e programa de vida do santo de Assis, também “nos planos económico e social”, são “fonte de inspiração”.

São vários os grupos que estão neste momento a preparar este encontro um pouco por todo o lado. Também em Portugal, em diversos ambientes, o desafio do Papa está a ser levado a sério, podendo mesmo vir a gerar uma enorme e corajosa onda de efetiva novidade e mudança.

Perguntámos a algumas destas pessoas as razões porque acham tão necessária hoje uma Nova Economia, e se o “vivere sine proprium” do Francisco de Assis poderia alguma vez ser uma realidade global futura, necessária, quem sabe inevitável, e não apenas mero ideal ou utopia.   

 

“A Economia, enquanto “governo da casa”, pode e deve reconstruir-se, tendo como objetivo primordial o bem comum. Nesta reconstrução, o princípio do destino universal dos bens interpela-nos, cristãos ou não, a avaliar de outra forma o uso que damos àquilo que julgamos ser nosso, até nos conseguirmos afastar da ideia de que consumir e possuir coisas são fim em si mesmo. Acreditamos que a mudança é possível, adotando, desde já, pequenos passos e um estilo de vida mais simples e sóbrio, na certeza de que a alegria não está em possuir, mas em partilhar.”

Ana e José Varela - formação em Direito, ao serviço de uma organização não-governamental; formação em Gestão, a operar no setor financeiro

 

“Há sinais claros de uma crise sistémica, com origem numa crise de valores que requer uma mudança cultural capaz de assegurar a evolução do sistema económico, baseado na fraternidade e equidade, com alma e coração, boa e alegre, atenta à pessoa e ao meio ambiente, principalmente aos mais vulneráveis. De resto, isto era o que, na prática, fazia a igreja primitiva, que administrava os seus bens de acordo com a sua fé, cumprindo assim o propósito da sua existência - uma escolha que continuamos a ser livres de fazer, e a que somos chamados todos os dias.”

Daniel Lobo - Arquiteto, doutorando em Urbanismo, na Faculdade de Arquitetura da UL

 

“A Economia que temos não serve, nem eleva o valor da dignidade humana, e destrói o planeta e a felicidade do bem-comum. Mesmo sendo otimista, não creio que consigamos viver sem nada possuir. Até no amor ao outro somos possessivos, e queremos ser donos. A posse fascina-nos, faz-nos domesticar as coisas e sentir poderosos. O despojamento é uma experiência espiritual profunda, e tão intensa, que, pelo menos de momento, só é possível para alguns seres maiores.”

Helena Marujo - Coordenadora Executiva da Cátedra UNESCO em Educação para a Paz Global Sustentável e docente da Universidade de Lisboa

 

“Os problemas derivam do funcionamento económico de uma sociedade de mercado, globalizada e especulativa, que faz pesar a obtenção de lucros sempre maiores na sociedade e no ambiente, gerando uma global desigualdade e um planeta doente e sem futuro. A inspiração franciscana deste encontro, na radicalidade da pobreza, fraternidade e comunhão com a natureza, pode levar a uma maior integração do “outro” (mais próximo ou mais longínquo-periférico), e a uma maior harmonia com os ecossistemas naturais, tornando o que é “Casa Comum” parte da equação económica e social.”

Duarte Perdigão

 

“Quando vi as questões, lembrei-me do Ti Manel, um simples trabalhador rural, que nunca quis ter nada, nem vangloriar-se de nada, mas a quem nunca faltou do que realmente queria. Bastar-lhe-ia pedir, penso eu, mas também não pedia. O ordenado recebia-o mensalmente. Ninguém sabia se o gastava, pois raramente se ausentava do lugarejo, perdido nas serranias beirãs. A vida decorreu-lhe sem queixas nem suspiros. Simplesmente feliz por existir, ter um teto, uma refeição, e algo em que ocupar os seus dias.”

João Afonso - Advogado

 

“O sistema atual está ao serviço do lucro e mata a vida em todas as suas formas. Enriquece desmesuradamente uns poucos, à custa da destruição do planeta e mantem a grande maioria dos seres humanos abaixo do limiar da pobreza. Precisamos de uma economia sustentável ao serviço da vida e da dignidade dos seres humanos. Viver sem sermos proprietários de nada é uma utopia que está ao alcance de uns poucos. A vida religiosa deveria ser a realização desta utopia. No entanto, mesmo a vida religiosa tem de ser repensada, à imagem de Francisco, de modo a tornar o Evangelho como opção de vida.”

Irª Maria Carmen, Ir. José Manuel e Pe. Horácio Rossas - Missionários Combonianos

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