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DOMINGO III DE PÁSCOA Ano A

“Não ardia cá dentro o nosso coração,

quando Ele nos falava pelo caminho

e nos explicava as Escrituras?”

Lc 24, 32

De muitos caminhos se faz o tempo pascal, coincidindo com a primavera-quase-verão que coloca muitos em movimento para praias, campos ou novas paragens (benditas pontes, não são?). Viajar, para lá das dolorosas e lentas filas de trânsito matinais e vespertinas, e dos apertos e atrasos nos transportes públicos, é uma sede da humanidade. E as viagens, fugas, “peregrinações sem regresso” de sobrevivência e desespero por uma vida melhor contrapõem outros caminhos sem metas definidas. O “homo viator” (em caminho) de que falava o filósofo francês Gabriel Marcel lembra-nos como as respostas às questões humanas essenciais se descobrem em atitude de peregrinação, numa dinâmica de esperança traduzida.

 

Não era de esperança que falavam os dois discípulos que caminhavam de Jerusalém para Emaús. Desanimados e entristecidos, não deram crédito às mulheres que trouxeram a notícia da ressurreição dada pelos anjos, nem se questionaram com o desaparecimento do corpo de Jesus. O choque da derrota de Jesus, a sua condenação e paixão, e o escândalo da cruz foram muito duros. Ficaram incapazes de reconhecer Jesus porque estavam prisioneiros de falsas imagens de Deus: o Deus omnipotente e guerreiro, o Deus talismã, o Deus “112” a quem se recorre nas aflições, o Deus que “faz em vez de nós”! Não compreendiam que também isso devia morrer. Como podiam reconhecer Jesus se Ele mostrava um rosto de Deus absolutamente novo? Precisavam ser libertados!

 

Pedagogicamente, como é próprio de quem ama, Jesus faz perguntas que ajudam a “deitar para fora” o desânimo e a tristeza, a abrirem as grades onde permaneciam presos sem saberem. Falam e escutam enquanto caminham, de Moisés aos profetas (do libertador do povo aos libertadores em favor do próximo, em nome da justiça) Jesus vai “aquecendo” os corações dos dois. Ele é o que caminha connosco (não apenas naqueles 11 km. mas nos caminhos de todos), é o que liberta das falsas imagens de Deus (que só a cruz e a ressurreição explicam como pleno amor), e o que fica connosco à mesa da Eucaristia (onde se abrem os nossos olhos e as noites se iluminam). Confuso? Talvez possamos chamar-lhe “mistério”!

 

Gabriel Marcel afirmava que “a vida é um mistério a ser vivido, não um problema a ser resolvido.” O que atrofia e amedronta não é a escuridão da noite, mas o escuro do íntimo de cada um. Custou muito pouco o caminho de regresso a Jerusalém a Cleófas e ao outro discípulo de Emaús. Da palavra à mesa, Jesus faz-nos passar de espectadores a actores. Naquela mesa de acolhimento tinham vivido o que lhes custava entender (a morte do seu Senhor) e descobriram a fé; o que lhes fazia arder o coração (a unidade da presença salvadora de Jesus), e saborearam a caridade; e o que seria a glória plena (o “já / ainda não” do Céu), e abraçaram a esperança. Como podemos caminhar sem nos alimentarmos? 

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