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Equador: vidas desfeitas num abalo de apenas cinquenta segundos
Sobreviver à tragédia
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Durante apenas cinquenta segundos a terra tremeu tão violentamente que ninguém acreditou que iria sobreviver àquele abalo. Foram instantes trágicos que pareceram uma eternidade. Os sismógrafos assinalaram uma intensidade de 7,8 na escala de Richter. Ainda hoje, mais de trinta dias depois deste terramoto, há populações inteiras, no Equador, que precisam da nossa ajuda.

 

O dia de sábado, 16 de Abril, ficará para sempre na memória de todos os que sobreviveram ao terramoto. Os prédios colapsaram com estrondo, as ruas esventraram-se em fendas que pareciam querer engolir tudo à sua volta. Foram instantes de total impotência. Naqueles cinquenta segundos em que a terra tremeu no Equador, deixou de haver ricos ou pobres, novos ou velhos, indigentes ou poderosos. Todos ficaram à mercê dos caprichos da natureza. Ainda hoje, passados mais de trinta dias desde o abalo de terra, as marcas da tragédia estão por toda a parte, como se ninguém tivesse coragem para varrer os escombros que escondem tantas lágrimas, tanto luto, tanta dor. Nas aldeias e vilas como Manta, Pedernales, Jama ou Portoviejo, parece que tudo está ainda por limpar. Monsenhor Lourenço Voltolini estava na capela de um bairro na periferia da cidade de Portoviejo, quando a terra começou a tremer. “Tinha acabado de celebrar a Missa. Estava na sacristia. A força do movimento foi tão grande que, para não cair, tive que me segurar aos batentes da porta. Os fiéis que ainda estavam na igreja caíram no chão e a electricidade faltou logo”, recorda. A casa do bispo, que resistiu ao terremoto, foi transformada em hospital de campanha. Era necessário socorrer os feridos, ajudar as pessoas. O marido de Verónica trabalhava num hotel em Manta, uma das zonas mais afectadas pelo sismo. Naquele dia, Javier estava a pintar umas paredes. Ficou soterrado. Verónica ainda não compreendeu bem como toda a sua vida mudou após aqueles fatídicos segundos. Agora está só no mundo. Ela e os dois filhos, de 7 e 2 anos. O edifício, que foi o hotel onde trabalhava Javier, foi apenas um dos que colapsou. Em toda a avenida principal, há ainda escombros de casas, ruínas que escondem outras tragédias.

 

As Irmãs de Canoa

As autoridades falam em quase 700 mortos, trinta e um desaparecidos, mais de três mil desalojados, centenas de edifícios destruídos. A devastação na povoação de Canoa foi tão grande que parece uma zona de guerra. Faltam apenas os buracos das balas nas paredes. O resto é igual. Nesta povoação que o terremoto parece ter varrido do mapa, vivem as Irmãs Missionárias Franciscanas de Maria Auxiliadora. Em vários quilómetros em redor, elas são, há já muitos anos, a única presença visível da Igreja. São elas que acompanham pastoralmente as pessoas e celebram casamentos, baptizados e outros sacramentos. Mas, ainda mais importante do que isso, é a presença amável destas mulheres que se fizeram pobres como os que vivem na aldeia, a quem todos recorrem sempre que há um problema, uma dificuldade, sempre que alguém precisa de um ombro amigo. Agora, também elas estão de mãos vazias. A igreja e o salão paroquial ficaram completamente destruídos. Elas não têm onde ficar, mas ninguém ousa sequer imaginar que, um dia, estas irmãs possam abandonar a aldeia. “Se as irmãs partirem, é Deus que Se vai embora”, diz um dos habitantes de Canoa. Perante a magnitude da tragédia, a Fundação AIS deslocou de imediato uma equipa para os locais mais afectados pelo terremoto, para se coordenar melhor o envio das ajudas de emergência para as populações locais. Marco Mencaglia, que liderou essa equipa, faz um relato sombrio do que viu em muitos lugares. “As pessoas perderam a sua vida quotidiana, já não existem os seus postos de trabalho, as crianças já não têm escola para onde ir…” Para Mencaglia, vai ser necessário “passar ainda muito tempo para que a vida volte a ser como dantes”. O terremoto de 16 de Abril encheu de lágrimas a vida de centenas de pessoas. Agora, é necessário reconstruir tudo.

 

Ajuda essencial

A Igreja está na linha da frente deste processo. Para já, a prioridade tem sido auxiliar as famílias mais atingidas pela catástrofe. Os apoios de emergência que a Fundação AIS tem feito chegar ao Equador têm-se revelado essenciais. O Arcebispo de Portoviejo, D. Lourenço Voltolini, diz mesmo que esta tem sido uma ajuda essencial. “Estamos muito agradecidos pela solidariedade da Fundação AIS, com a qual temos conseguido comprar água, alimentos e roupa para as populações que agora vivem na rua”. Mas é preciso ir mais além, diz. “Temos de reconstruir o país, mas, para isso, precisamos de ajuda. Nós perdemos tudo… Estamos de mãos vazias.”
Dia 16 de Abril é uma data que nunca mais será esquecida no Equador. Durante cinquenta segundos a terra tremeu tanto que ninguém acreditou que seria possível sobreviver àquele abalo. Foram instantes trágicos que pareceram uma eternidade. Ainda hoje, mais de trinta dias depois, há populações inteiras que precisam de ajuda. Que precisam da nossa ajuda.

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