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Síria: o adeus emocionado do Padre Ziad
Um herói improvável
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Foram anos de trabalho com os refugiados em Homs, na Síria. Agora, este jesuíta está a caminho da Europa para continuar a sua formação sacerdotal. No momento da despedida, emocionado, agradeceu a ajuda dos benfeitores da Fundação AIS, a quem vai continuar ligado através da oração.

 

O Padre Ziad Hilal está de partida. Depois de vários anos em Homs, na Síria, a acolher multidões de refugiados, os seus superiores enviaram-no agora para a Europa para continuar a sua formação como jesuíta. Porém, de alguma maneira, o Padre Ziad vai continuar para sempre na Síria, pois todos os que o conheceram nunca mais o vão esquecer e ele próprio vai ficar marcado pelas histórias trágicas de pessoas que lhe bateram à porta, famílias destroçadas em fuga de uma guerra maldita que leva já quatro anos e que está mais encarniçada do que nunca. A vida do Padre Ziad mudou em 2011, quando se escutaram os primeiros tiros, os primeiros rebentamentos de bombas, quando morreram as primeiras pessoas por causa da guerra civil que está a desfigurar a Síria. Homs transformou-se num campo de batalha e a cidade desfigurou-se por completo. Agora está completamente arruinada.

 

Coração em paz

O Padre Ziad é hoje uma pessoa diferente. Ninguém fica na mesma depois de presenciar tanto horror, tanta morte, tanta barbárie. Até quando reza, o Padre Ziad garante que mudou. “Antes da guerra, rezava muito sozinho, comigo. Agora rezo muito mais com os outros e pelos outros.” A guerra muda-nos, transforma-nos. “Vou deixar a Síria com o meu coração em paz. Sei que o trabalho que fazemos, no Serviço Jesuíta aos Refugiados, vai continuar e sei que esse trabalho não depende de mim.” Quando olha agora para trás, para estes dias de tumulto em que a Síria se transformou num campo de batalha durante os quais acudiu a centenas de pessoas desesperadas, o Padre Ziad descobre também que se tornou mais humilde. Que se transformou, que é um novo Ziad Hilal. Que é um novo sacerdote.

 

Refazer vidas

“Ao longo destes anos fui descobrindo que sem os meus colaboradores e sem a ajuda de organizações humanitárias como a Fundação AIS não teria podido oferecer nada a estes refugiados. Estou muito agradecido à minha equipa e às Irmãs do Santíssimo Redentor que me apoiaram em Homs. E, naturalmente, também, aos benfeitores da Fundação AIS. No final, compreendemos que fomos apenas um mero organizador de trabalho e isso torna-nos humildes.” Durante estes anos, o Padre Ziad acolheu pessoas em lágrimas, famílias em fuga, crianças órfãs, gente enlutada. Durante estes anos, a equipa do Padre Ziad não se poupou a esforços para refazer vidas. “Actualmente, cuidamos de 300 famílias cristãs de Aleppo, que encontraram refúgio nos nossos centros em Marmarita, Tartús e em outros lugares. A maior dificuldade é encontrar alojamento para eles.” São os Jesuítas que pagam o aluguer das casas dos refugiados, muitas vezes com preços inflacionados por especuladores que vêem na guerra uma oportunidade de negócio.

 

Lembrar os amigos

O Padre Ziad está agora de partida. Para onde quer que vá, uma parte de si ficará para sempre na Síria, ao lado das famílias que ajudou a reerguer, na lembrança das pessoas que acolheu, rezando por elas. Para onde quer que vá, o pensamento do Padre Ziad vai estar de braço dado com o Padre holandês Frances Van der Lught, assassinado a 7 de Abril do ano passado, com dois tiros na cabeça, quando se encontrava no quintal da sua casa, em Homs. Eram amigos, muito amigos. Como também vai continuar a rezar todos os dias pela libertação do padre Jacques Mourad, raptado em finais de Maio e de quem não tem quaisquer notícias. Também são amigos. Muito amigos. Uma parte do Padre Ziad morreu também com aquelas balas que trespassaram a cabeça do Padre Van der Lught, tal como uma parte de si está sequestrada enquanto o amigo Mourad não for devolvido à liberdade. O Padre Ziad está de partida. Diz-se mais humilde, agradece o trabalho da sua equipa e o apoio dos benfeitores da Fundação AIS, “sem os quais nada teria sido possível”. O Padre Ziad está de partida de um dos lugares mais perigosos do mundo com o sentimento de dever cumprido. Durante estes anos de trabalho com o Serviço Jesuíta aos Refugiados, Ziad Hilal foi mais do que sacerdote. Foi um verdadeiro herói. Um herói improvável.

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