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O desespero de uma família síria refugiada no Líbano
As lágrimas amargas de Flodia
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Fugiram de casa quando já se combatia na sua rua, na cidade de Homs, na Síria. Fugiram para salvar a vida. Agora vivem todos num minúsculo quarto no Líbano. Estão encurralados entre o susto do passado e o medo do futuro. São apenas uma família. Há quase 2 milhões de refugiados sírios no Líbano…

 

George tem um olhar vago, como se estivesse alheado de tudo. A mulher, Flodia, está deitada, cheia de dores. Os filhos estão a trabalhar. Eles são agora o sustento da família. George não diz nada. Está absorto nos seus pensamentos. Ela, porém, não se cala. As palavras saem-lhe misturadas com lágrimas. A vida desta família desmoronou-se em 2012, quando a guerra civil na Síria se tornou mais sangrenta, mais violenta. A cidade de Homs, onde viviam, transformou-se num campo de batalha. Um dia, não foi possível resistir mais e George, Flodia e os três filhos, todos rapazes, tiveram de fugir, deixando tudo para trás. Agora estão a viver os cinco num pequeno quarto que alugaram na cidade libanesa de Bekaa, perto da fronteira síria. “Tínhamos uma boa casa, em Homs. Com o avanço dos rebeldes e os combates a intensificaram-se, tivemos de fugir. Perdemos tudo”, lamenta-se, soluçando, Flodia. “Não temos ideia do que sucedeu à nossa casa.”

 

Viver num quarto

O quarto, onde vivem agora, é minúsculo mas serve para tudo: é ali que dormem, que cozinham, que lavam a roupa. Além da cama há alguns móveis usados. Toda a mobília foi oferecida pela comunidade cristã local. O aluguer do quarto é uma dor de cabeça permanente. Custa-lhes 260 euros. “Uma fortuna”, exclama Flodia. “Somos explorados. É uma exorbitância.” De novo as lágrimas misturadas com a revolta das palavras.
Desde que chegaram ao Líbano, nem ela nem o marido conseguiram trabalho. É com os biscates dos três filhos, com 13, 16 e 17 anos, que a família consegue pagar a renda do quarto e comprar a comida para o dia-a-dia. “Às vezes, só de pensar se teremos alguma coisa para comer no dia seguinte, deixa-me de rastos, deprimida! “Ser refugiado – sentencia Flodia – significa ter stresse, ficarmos doentes tanto a nível psíquico como fisicamente. Alguém pode imaginar como se sente uma mãe que depende do trabalho dos filhos para sobreviver, quando eles deveriam era estar na escola a prepararem o seu futuro? Alguém imagina?” Flodia fala também para si própria. Arremessa as palavras como se fossem pedras, para se magoar. “Estou a destruir o futuro dos meus filhos. Sinto-me tão culpada…”

 

Solidariedade

O Arcebispo Issam Darwish, da Arquidiocese melquita de Zahle, tem sido um dos principais amparos da multidão de refugiados sírios que chegou ao Líbano em consequência da guerra civil. Esta ajuda é natural, diz D. Darwish, também ele sírio de nascimento. “Quando, em 2011, começaram a chegar os primeiros refugiados de Homs, que nos bateram à porta a meio da noite, ficou claro, para todos nós, que tínhamos de os ajudar. Afinal, são nossos irmãos e irmãs.”

O sobressalto dessa noite em que os refugiados cristãos bateram à porta de D. Darwish repetiu-se vezes sem conta. Hoje, são mais de 700 famílias que dependem da ajuda directa da arquidiocese. “Damos-lhes alimentos, roupa e artigos de primeira necessidade. Damos ajuda também a famílias muçulmanas. Sem a ajuda dos benfeitores da Fundação AIS – acrescenta o prelado – não sei como faríamos. Muito obrigado.”

O Líbano é, hoje em dia, um país a rebentar pelas costuras. Um em cada quatro habitantes é refugiado. A ONU calcula que haja, pelo menos, 1,2 milhões de refugiados oriundos da Síria. Há quem diga que o número é muito maior, talvez dois milhões. Num país com 4 milhões de habitantes, em que os sistemas de saúde e de educação estão à beira da ruptura, tudo pode acontecer. Parece uma panela de pressão prestes a explodir. Diz o Arcebispo Darwish que “a solidariedade dos libaneses está a chegar aos seus limites, estão a perder a paciência”. Além do mais, acrescenta, “a vinda de tantos refugiados fez baixar, e muito, o preço da mão-de-obra, fazendo aumentar o desemprego. Não há trabalho para os jovens libaneses e muitos pensam já em emigrar.”

 

A força da fé

A guerra civil continua a dilacerar a Síria, estendendo o caos a toda a região como se fosse um rastilho de demência. Síria, Líbia, Iraque são países em guerra. O Líbano tem acudido milhares de refugiados, mas já atingiu os seus limites. Para onde irão agora todos os que continuam a ser expulsos de suas casas? Flodia, sempre com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, diz que não quer voltar para a Síria enquanto a guerra não acabar. Depois se verá. “Se ainda tiver casa…” Mas continuar ali, naquele cubículo onde agora têm de coabitar cinco pessoas, também não é vida. “Por que nos aconteceu isto?”

Para Flodia, resta a fé. Está quase sempre a murmurar orações, a pedir a protecção do Céu, a reclamar a intercessão de Maria. Nos últimos dias, Flodia teve o consolo de saber que a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima esteve no Líbano, numa peregrinação em que se assinalou o segundo aniversário da consagração da nação libanesa ao Coração Imaculado de Maria. Encurralada entre um passado que nem ousa recordar e um futuro absolutamente incerto, Flodia tem apenas esse tesouro, a fé, que guarda dentro de si. As suas lágrimas são como que as contas do seu rosário. “Porque nos aconteceu isto?”

20 de Junho é o Dia Mundial dos Refugiados. Flodia nunca imaginou que, um dia, ela, o seu marido e os seus três filhos, iriam ser refugiados. Como eles, há mais de 50 milhões de refugiados no mundo.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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