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Irmã Myri, religiosa portuguesa na Síria
“Se Ele me pede este posto, o que vou fazer?”
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É da paróquia do Milharado, mas vive num mosteiro no norte da Síria. A irmã Myri esteve em Portugal neste mês de maio e, ao Jornal VOZ DA VERDADE, destaca o diálogo entre cristãos e muçulmanos e a vontade em viverem juntos num país em guerra.

 

“Recebemos todos no nosso Mosteiro de São Tiago Mutilado, cristãos e de outras religiões, sem fazermos a exceção de pessoas. Acolhemos toda a gente”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE a irmã Myri, uma jovem religiosa da Diocese de Lisboa que está a viver num mosteiro perto de Damasco, na Síria, no meio de uma guerra cujos “responsáveis não a querem terminar”. “No mosteiro estamos sete irmãs e dois irmãos. Desde o início da guerra na Síria, como somos estrangeiros, para diminuir o risco de rapto ficamos dentro do mosteiro, onde fazemos as tarefas caseiras, a oração diária e tentamos trabalhar na internet, construindo o site ou fazendo relatórios”, descreve, referindo-se à sua missão neste mosteiro construído no século VI, situado junto à fronteira com o Líbano.

Presente em Portugal por uns dias, esta jovem religiosa de 33 anos enaltece a ajuda a sua comunidade religiosa procura prestar à população local. “Temos uma equipa que trabalha connosco na ajuda humanitária à região. Essa equipa, chamada de ‘São Tiago’ (em honra do nome do mosteiro), é composta por pessoas locais”, explica.

A irmã Myri pertence, desde há cerca de seis anos, à Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia. “A congregação é inspirada pelo ‘envio’ relatado nos Atos dos Apóstolos, capítulo 11. Foi dessa Igreja, que foi a fonte do cristianismo no Oriente, que São Paulo partiu e de onde houve a evangelização até à China e que depois foi apagada pelo islão”, refere. “A congregação é recente e foi a partir da restauração de um ícone danificado pela guerra que a então Madre Agnès-Mariam de La Croix estudou toda a história e ficou a conhecer a sua igreja mãe, a igreja de Antioquia, sentindo um apelo para trabalhar em prol da unidade de todos os cristãos. Começou no Líbano mas foi na Síria que encontrou um mosteiro para trabalhar”, aponta a religiosa portuguesa.

 

Unidade

“Dizem que a guerra é civil, mas é uma guerra de mercenários que vêm do mundo inteiro e que foram catequizados pelo islão”. É desta forma que a irmã Myri descreve a situação que vive, atualmente, na Síria. “Agora as pessoas acordaram porque querem mudar. Os cristãos e muçulmanos são vizinhos e eles querem unidade, querem viver juntos. Quantas vezes se perdoaram, tendo podido pegar em armas e matarem-se uns aos outros, ao verem os seus filhos raptados ou mortos?... Tenho notado um grande diálogo entre cristãos e muçulmanos, só quebrado quando aparece um imã com razões políticas e destabiliza”, aponta a jovem religiosa, dando voz à falta de esperança do povo que a acolhe. “Não sinto o povo com esperança no futuro. O povo sente que os responsáveis não querem acabar a guerra. Ainda há poucas semanas entraram no país, pelas fronteiras turcas e jordanas, milhares de terroristas com armas pesadas. Muitos querem ficar na sua terra mas ao verem tudo isto acontecer, pensam: ‘Como é possível ficar?’”.

Presente em Portugal por uns dias, a irmã Myri revelou ao Jornal VOZ DA VERDADE que, apesar de todo o cenário de destruição que vê diariamente, existe ainda uma nação que tem contribuído para uma “Síria de cabeça erguida”. “Na Europa, toda a gente tem uma ideia negativa da Rússia, mas a Rússia está a converter-se, tal como disse Nossa Senhora de Fátima, e tem sido o nosso amparo, ao não deixar que o inferno entre completamente na Síria, votando contra a invasão do país, no Conselho de Segurança da ONU. Nós vimos com os nossos olhos que a Rússia é a potência que pode salvar o cristianismo porque aqui, na Europa e na América, estão a arrasar todas as raízes, a destruir a identidade cristã”, refere.

 

Decisão

Na sua passagem recente por Portugal, após 13 anos, a jovem religiosa recordou os tempos em que começou por “buscar” uma decisão para a sua vida. “Entre os 14 e 16 anos passei por uma crise que quase me levou a deixar a Igreja. Estava à procura da minha identidade mas também de coerência, de seguir uma via, porque não tinha encontrado. As pessoas viam que eu era um bocadinho à parte. Mas eu não via nada disso, apesar de ter sido educada na fé numa paróquia que ainda guarda muita tradição, o Milharado, e numa família grande, onde as raízes cristãs estão vivas.”, refere a irmã Myri, que procurou uma resposta de Deus numa Jornada Mundial da Juventude (JMJ): “Foi na JMJ de Paris, em 1997, que eu me lancei a Deus. Obrigaram-me a participar nessa jornada e eu disse: ‘Se vejo alguma coisa agora, continuo. Se não, acabou-se’. Então, Deus foi-me mostrando algo mais e, a pouco e pouco, foi-me transformando e apaixonando, ao ponto que, nos anos 2000 e 2001, já não me conseguia concentrar nas coisas do mundo”.

Quando era mais nova, tinha apenas o sonho de ser veterinária. “Nunca quis casar mas quis sempre seguir uma vida profissional e realizar-me. Um dia, na confissão, um padre disse-me: ‘Queria que tu descobrisses por ti, mas não achas que Deus te chama à vida religiosa...?’. Durante os três meses seguintes, a interrogação tornou-se mais forte e já não podia dizer ‘não’”, recorda.

 

Viagem de ida

Durante o período de reflexão de Myri, a paróquia do Milharado vivia a alegria de ter uma outra religiosa que iria fazer a sua profissão e, por isso, todos os paroquianos estavam convocados para, em peregrinação, celebrarem este momento, no mosteiro das Monjas de Belém, em Les Montvoirons, nos Alpes franceses. Mesmo precisando de estudar para os habituais exames universitários, e sem vontade de ir, Myri sentiu que “havia qualquer coisa que puxava”. E partiu, longe de saber o que iria acontecer. “Fiquei lá, em retiro, durante um mês, e já não voltei; ou melhor, regressei no final do mês mas apenas para dizer adeus a toda a gente e levar algumas coisas”, lembra esta religiosa que sentiu dos pais uma grande surpresa: “Os meus pais ligaram, com grande preocupação, aos outros paroquianos que foram na mesma peregrinação para saber onde eu estava e porque é que ainda não tinha aparecido em casa. Quando lhes disseram que tinha ficado no mosteiro, eles ficaram de rastos e até hoje sofrem um pouco, mas nunca estiveram zangados comigo… julgo até que por causa da minha partida eles agarraram-se mais à Igreja”, conta a irmã Myri.

Estávamos então em 2002. Os sete anos que se seguiram foram passados no mosteiro das Monjas de Belém, em França. Ao sentir que “faltava qualquer coisa mais”, as superioras desta religiosa portuguesa dão-lhe a conhecer Madre Agnès-Mariam de La Croix, fundadora da Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia, e que era muito próxima das Monjas de Belém. É então que, no ano 2009, a irmã Myri parte para o mosteiro na Síria, onde atualmente reside. A adaptação, assume, foi “difícil”. “É uma outra cultura, muito longe, e a comunicação não é fácil, mas Deus tem um lugar para cada um. Se Ele me pede este posto, o que vou fazer?”.

 

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Perfil

A irmã Myri tem 33 anos e é proveniente da paróquia do Milharado, na Vigararia de Mafra. Pertence à Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia e vive, atualmente, no Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, a 90 quilómetros de Damasco, na Síria. 


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“Deus sustenta aqueles que chama”

O que dizer aos jovens que também sentem uma inquietação?

“Pode ser muito difícil, mas Deus sustenta aqueles que chama. Vale a pena a dizer ‘sim’, caso contrário aquele que é chamado vai passar o resto da vida a fugir de si mesmo, com uma inquietação que não passa.”

 

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Portugal, país eleito

A passagem pelo seu país natal, neste mês de maio, foi também uma ocasião para a irmã Myri destacar a importância histórica de Portugal na evangelização do mundo, bem como a necessidade de preservar as raízes cristãs no presente. “Deus enviou os portugueses a evangelizar o mundo inteiro e também enviou Nossa Senhora a Portugal para manifestar a fidelidade de Deus no apelo que nos tinha dado. Era bom que Portugal se desse conta da sua vocação de ser um bastião da oração e guardador da fé. Era bom acordar as paróquias e fazer reviver a história da fé do nosso povo, por exemplo, na catequese, e isso dará fruto para o mundo inteiro. Portugal é um país eleito. Quantos países do mundo têm as chagas de Cristo na sua bandeira e a coroa do reino sobre a cabeça de Nossa Senhora?”, questionou.

texto por Filipe Teixeira; fotos Filipe Teixeira e arquivo pessoal da irmã Myri
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