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Níger: cristãos em fuga depois de ataque do Boko Haram
“Deus não nos abandona”
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Dez mortos, mais de 40 igrejas queimadas. Os dias 16 e 17 de Janeiro ficarão na memória dos Cristãos do Níger. Um ataque planeado pelo Boko Haram deixou um rasto de destruição e medo. Uma irmã, obrigada a fugir, recorda tudo.

 

“Porquê tanto ódio, tanta violência?” Ainda hoje, tantos dias depois dos ataques, tudo parece ainda irreal. Mas não. A irmã precisa apenas de olhar à sua volta para saber que tudo aconteceu mesmo e não foi apenas um pesadelo. Esta irmã e as outras missionárias da sua congregação estão agora em casas de famílias que as acolheram. O medo de serem descobertas obriga-as a não revelarem onde vivem, nem sequer os seus nomes. Nunca se sabe. Tudo aconteceu num instante. Grupos de homens armados irromperam pelas ruas da capital, Niamey, e na cidade de Zinder, e deixaram um rasto de destruição e morte. Foi nos dias 16 e 17 de Janeiro. Dezenas de igrejas foram saqueadas e queimadas. Casas destruídas. Nem orfanatos escaparam. Dez pessoas perderam a vida. “Foi tudo planeado”, escreve a missionária, obrigada a fugir tal como todas as outras irmãs da sua congregação.

 

A ameaça

Os ataques visaram os Cristãos. Apenas. E isso parece incompreensível. Ninguém imaginaria tanta violência sectária num país como o Níger, onde Cristãos e Muçulmanos têm convivido em paz. Mas havia alguns sinais, diz hoje a irmã. Os ataques deixaram a comunidade cristã profundamente inquieta pois, semanas antes, no Natal, o Boko Haram – que opera principalmente no nordeste da Nigéria, no outro lado da fronteira - já tinha ameaçado queimar todas as igrejas do Níger e matar todos os Cristãos. Não o fizeram então. Esperaram apenas alguns dias para cumprirem a ameaça. Escrever é também uma forma de exorcizar o medo. “A paz não é simplesmente uma palavra. Porquê tanto ódio, tanta violência?”, pergunta a irmã nesta carta escrita em lágrimas.

 

Tragédia

“Primeiro começou em Zinder. Cinco mortos. Quatro pessoas que estavam numa igreja e uma que se encontrava num café.” Foi o começo. Grupos de homens armados, transportando-se em motos, carros, às vezes até em táxis, começaram a espalhar o terror. Em menos de duas horas mais de 40 igrejas foram destruídas na capital. Os cristãos recordam com perplexidade o que aconteceu. As igrejas foram todas queimadas mas ninguém ouviu as sirenes dos bombeiros. A ausência dos “soldados da paz” chocou a comunidade. Como explicar isso? De novo, as palavras emocionadas da irmã. “As igrejas foram saqueadas uma após outra. Levaram o que puderam e depois deixaram-nas em chamas. Igrejas católicas, protestantes e evangélicas. Todas. É incrível.” Foi tudo saqueado e queimado.

 

Pobreza

A pobreza e o crescimento do Islamismo militante ajudam a perceber um pouco esta onda de violência anti-cristã. Na região, as fronteiras são porosas, a corrupção está presente em todo o lado, alimenta revoltas. Poucos têm dúvidas de que o grupo terrorista Boko Haram está por trás desta violência. Todos viram, como uma ameaça, as suas bandeiras jihadistas hasteadas em Zinder, como quem deixa uma assinatura para o rasto de horror. 

O Níger é uma contradição. País muito rico é, ao mesmo tempo, dos mais pobres do mundo. Tem imensos recursos minerais, urânio e petróleo, mas, apesar disso, a esmagadora maioria das pessoas vive numa confrangedora pobreza.

Neste contexto, os Cristãos são uma presa fácil. Cerca de 98 % da população do Níger é muçulmana. A pobreza e o desemprego endémico são um rastilho à espera de ser ateado. Do outro lado da fronteira, o Boko Haram já tinha declarado guerra aos Cristãos…

 

“Rezem por nós”

As irmãs, na fuga apressada, não conseguiram salvar quase nada. Agora, no mercado de Katado, na capital do Níger, é possível comprar muitos dos objectos que foram saqueados de igrejas, capelas, casas particulares… Uma das igrejas destruídas é a de Ste. Thérèse, edificada com o apoio da Fundação AIS e que só em Outubro abriu as portas ao culto. Agora foi totalmente queimada pelo fogo criminoso. No meio da desolação, resta a fé. A Igreja Católica suspendeu a maioria das suas actividades. A irmã não sabe ainda quando poderá regressar, nem imagina aquilo que vai encontrar. Mas, apesar de tudo, está confiante. “Deus não nos abandona. Rezem por nós, rezem pelo nosso povo, pelo mundo. Que a Luz do Amor de Jesus possa irradiar!”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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