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RCA: A igreja de Carnot abriga muçulmanos ameaçados
O padre coragem
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É uma história exemplar. No meio do caos em que se transformou a vida na República Centro-Africana, com confrontos de carácter étnico e religioso, um padre abriu as portas da sua igreja para acolher cerca de mil muçulmanos que estavam a ser perseguidos. O Padre Justin Nary sabe que tem a vida ameaçada por causa disso, mas voltaria a fazer tudo de novo.

 

Por quatro vezes já lhe encostaram uma arma à cara. É raro o dia em que não recebe ameaças de morte. “Quando os capacetes azuis se forem embora, matamos-te!” O Padre Nary sabe que estão a falar verdade, que a sua vida corre sérios riscos quando as tropas camaronesas deixarem de patrulhar os muros da sua paróquia, mas que pode ele fazer? Se os muçulmanos que acolheu na sua igreja saíssem porta fora seriam provavelmente todos assassinados.
A história recente da República Centro-Africana está manchada de sangue e ignomínia, com uma tensão não disfarçada entre as comunidades muçulmana e cristã que já causou, desde Março do ano passado, milhares de mortos e mais um milhão de refugiados. As cenas de violência têm sido de tal dimensão, que as Nações Unidas já utilizaram, por mais de uma vez, a expressão “genocídio” para se referirem aos ataques de que ambas as comunidades têm sido vítimas.

 

Olho por olho…

Tudo começou quando, em Março de 2013, um golpe de Estado liderado por Michel Djotodia, que pertencia às milícias Séléka, derrubou o presidente cristão François Bozizé. Tudo descambou num par de dias. As milícias, maioritariamente muçulmanas mas que têm nas suas fileiras também muitos mercenários, começaram a atacar os Cristãos com uma violência que se desconhecia naquela região, efectuando pilhagens, destruindo casas, aldeias inteiras, semeando o terror. A comunidade internacional fez uma enorme pressão para que Djotodia controlasse os Séléka. Não conseguiu fazê-lo e demitiu-se em Janeiro deste ano. O país é governado agora pela presidente Catherine Samba-Panza, mas ela não se tem mostrado capaz de conter a violência. Depois dos ataques dos Séléka, as populações locais começaram a organizar-se em grupos de auto-defesa, os Anti-Balaka, erradamente conotados como sendo um movimento cristão, e lançaram por sua vez uma enorme campanha de terror, de retaliação pelo que tinha acontecido anteriormente. Na República Centro-Africana reina o “olho por olho, dente por dente”.


A igreja de Carnot

Na cidade de Carnot, a Oeste de Bangui, a capital, vive-se todos os dias um verdadeiro milagre de reconciliação. Quando o espírito de vingança parece imperar nas ruas das principais cidades, ali, numa modesta igreja, estão refugiados cerca de mil muçulmanos. Quem decidiu abrir as portas a esta multidão de homens, mulheres e crianças, que estavam escondidos nas florestas com medo de serem atacados, foi o Padre Justin Nary.
Mal se soube isso, começaram a surgir as primeiras ameaças. O Padre Nary recorda como tudo se passou. Membros das milícias Anti-Balaka exigiram-lhe que não acolhesse os muçulmanos. Ele recusou. “Então, eles trouxeram 40 litros de gasolina e garantiram que iam queimar a igreja comigo lá dentro”. O padre manteve-se inflexível. Não atearam fogo, é verdade, mas também não desmobilizaram. Apesar de os Anti-Balaka serem conotados como cristãos, há quem lhes aponte o dedo e os acuse de serem, isso sim, apenas grupos armados que querem beneficiar do caos que se instalou no país. O Padre Dieu-Seni Bikowo di-lo sem meias palavras: “Os Anti-Balaka não são cristãos. São ladrões que estão a lucrar com a revolta contra os Muçulmanos”. 

 

Quintal de paz

O portão que separa a igreja da rua está guardado por soldados camaroneses da missão de paz da União Africana. Lá dentro, desde há muito que se reinventa o quotidiano. Mil pessoas, de diferentes etnias mas todas muçulmanas, continuam a viver num espaço minúsculo, que corresponderá a cerca de metade de um campo de futebol. Quem se atrever a sair arrisca a própria vida. Ninguém ousa fazê-lo. A coragem do Padre Nary transformou o quintal da sua igreja no mais improvável espaço interreligioso da República Centro-Africana. Todos os que estão ali refugiados já viveram alguma história de terror, já foram ameaçados, já viram morrer algum familiar ou amigo. Todos os que estão lá fora, cercando a igreja, também conhecem histórias de horror, também choraram a perda de amigos ou de familiares. Os muçulmanos refugiados na igreja do Padre Nary só podem abandonar o local se as tropas da União Africana ou do contingente francês os puderem escoltar. E, neste momento, não têm homens suficientes para isso.

 

Acolher o outro

A determinação e a coragem do Padre Justin Nary mostram que há um caminho possível para lá das armas, da violência, das ameaças. É possível construir a paz, acolher o outro de braços abertos sem se lhe perguntar sequer o nome, a idade ou a religião. Uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) está também na igreja de Carnot. Muriel Masse, coordenadora da equipa dos MSF, explica que “algumas pessoas vivem ali virtualmente fechadas há mais de três meses”. Apesar das dificuldades, têm comida, água e alguns cuidados de saúde, “mas estão todos cansados e a envelhecer precocemente”. Estão psicologicamente abatidos. Todos ali olham para o Padre Nary como um santo, um herói, um homem de paz que se impôs à força das armas e da vingança. No recinto da igreja, todos os dias se escutam murmúrios de orações de cristãos e de muçulmanos e, por ali, naquele espaço fechado, controlado à distância pelos homens armados das milícias, aquelas pessoas vão descobrindo que as religiões não são semente de guerra mas sim encontro de paz.
Na sombra deste encontro está também a Fundação AIS. Através da oração de milhares de amigos e benfeitores em todo o mundo, e no apoio a projectos específicos que beneficiam a Igreja na República
Centro-Africana, é possível remar sempre contra a maré da intolerância, da violência e do ódio.
O Padre Nary acorda cedo todos os dias. Às 4:30 da madrugada já é possível encontrá-lo na igreja, a rezar. Depois, vai ter com os seus “convidados”, como chama carinhosamente aos muçulmanos que abriga naquele espaço tão acanhado. Conversam, partilham emoções e experiências. Todos sabem que é impossível sair dali enquanto não chegar uma considerável escolta de soldados. Até lá, procuram não escutar as ameaças que se gritam do outro lado da rua. O Padre Nary sabe que a sua vida continua ameaçada. Quando os soldados camaroneses deixarem de fazer guarda à igreja, tudo lhe pode acontecer, mas ele não tem medo. Diz apenas: “esta é a nossa missão.”

 

www.fundacao-ais.pt | 217 544 000

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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