Especiais |
Padre Lereno celebra 60 anos de sacerdócio
Servir o Senhor até ao último suspiro
<<
1/
>>
Imagem

Foi coadjutor de um bispo numa paróquia, passou pela Ação Católica, pela Pastoral das Vocações e esteve 36 anos como pároco em São João de Brito. Falamos do padre Lereno Sebastião Dias, sacerdote natural do Ramalhal, Torres Vedras, que no passado dia 29 de junho celebrou 60 anos de sacerdócio.

 

A pergunta surpreendeu: “Quantos, dos que aqui estão, estiveram, há 60 anos, na Sé de Lisboa, na minha ordenação sacerdotal?”. Perante algumas dezenas de braços no ar, o padre Lereno sorri. Foi no Ramalhal, a sua terra natal, que este sacerdote celebrou no passado Domingo, 29 de junho, o 60º aniversário da sua ordenação. “Estamos cá, exatamente 60 anos depois, a celebrar a Missa de Jesus Cristo!”, apontou. Junto de familiares, amigos e conterrâneos, o padre Lereno recordou que tinha sido naquela igreja paroquial que, há 84 anos, tinha sido batizado. “Dou muitas graças a Deus por isso e pela minha querida terra. Não sou capaz de falar no Ramalhal se não disser ‘meu querido Ramalhal’”, referiu, para deixar uma certeza: “Tendes diante de vós um padre que o é há 60 anos! Que dá muitas graças a Deus, agradece muito a vocação e aquilo que deseja é estar aqui, a celebrar a Missa dos 60 anos, e a celebrar enquanto andar por cá. Não me arrependi um segundo do meu sacerdócio! Agradeço muito os dons que Deus me deu e desejo servi-l’O até ao último suspiro”.

 

Por palavras e ações

Um ambiente profundamente cristão. É desta forma que o padre Lereno Sebastião Dias recorda, ao Jornal VOZ DA VERDADE, a infância passada na sua terra natal. “Lá em casa éramos oito: os pais e seis filhos, tudo muito equilibrado, porque éramos três rapazes e três raparigas. Vivíamos num ambiente muito feliz! Os nossos pais eram formidáveis, muito cristãos. Era gente do campo, gente humilde, sem prerrogativas especiais, mas as prerrogativas de umas pessoas cristãs e de um ambiente cristão em que fomos educados e em que eu cresci”, conta o padre Lereno. A primeira vez que comungou, com cerca de 7 anos, o pequeno Lereno estava nos braços da mãe. “Recordo-me de ter feito a primeira comunhão nos braços da minha mãe. Ela segurou-me e levou-me junto do altar para eu ‘lançar’ a cabeça à frente e comungar. Era tanta gente na igreja, que eu nem conseguia ir comungar pelo meu pé! Recordo-me de receber a comunhão e ter estado em conversa com Ele… era a primeira vez que eu recebia Nosso Senhor, e fi-lo com muita alegria”, sublinha o padre Lereno, lembrando “o gesto de ternura, carinho, amor e cuidado” de sua mãe. A educação cristã que os pais transmitiram aos filhos, “por palavras e por práticas”, é uma marca que se prolongou no tempo. “Ainda hoje, quando há um acontecimento relacionado com a família e que eu vá celebrar a Missa, tenho a alegria de ver os meus cinco irmãos a receberem a comunhão das minhas mãos”, aponta este sacerdote.

 

“Quem quer o fim, quer os meios”

Com apenas 11 anos, após a 4ª classe, Lereno estava “perfeitamente decidido” a entrar no seminário. “Além da educação cristã dada pelos pais, teve muita influência na minha decisão de querer ser padre o testemunho do pároco da terra, o padre Joaquim Rebelo dos Santos, que tinha uma amizade muito grande connosco e nós com ele”, conta, explicando que teve de aguardar um ano até ser possível a entrada no seminário. “A família era pobre e era necessário, para entrar no seminário, arranjar um enxoval e não havia dinheiro em casa para, de repente, satisfazer esse ‘programa’. Apesar disso, os meus pais nunca me aconselharam, também nunca me dissuadiram, foram muito prudentes, muito sensatos e eu fiz a minha caminhada sozinho, acompanhado pelo meu prior”. Olhando para trás, o padre Lereno vê na figura do seu antigo pároco, que esteve cerca de duas décadas no Ramalhal, um homem “amigo de todos, com um espírito sacerdotal muito bom, absolutamente universal”.

Em 1942, com 12 anos, Lereno entra, finalmente, no Seminário de Santarém, que ao tempo pertencia ao Patriarcado de Lisboa. “Estive três anos em Santarém, três anos em Almada e seis anos nos Olivais. Foram 12 anos de seminário, que me trazem tantas boas memórias! Quando eu entrei, não sabia o que me esperava, mas fosse o que fosse que me esperasse, eu estava lá com muita alegria. Quem quer o fim, quer os meios! Eu queria ser padre e para ser padre era preciso ir para o seminário, portanto vamos a isso!”, pensava, na época, este adolescente que acabava de iniciar a formação sacerdotal.

 

‘Tu de onde és?’

Chegava então o dia mais aguardado: 29 de junho de 1954. “Esse foi o dia da minha ordenação, na Sé de Lisboa. Fez 60 anos… e parece que foi ontem! Foi um dia muito lembrado, um dia de facto muito bonito, muito rico, em que estiveram presentes os meus pais, os meus irmãos e também muita gente vinda do Ramalhal”, recorda o padre Lereno. Do Cardeal Cerejeira, o então futuro padre Lereno lembra uma história em particular: “Eu era aluno dos Olivais, mas na festa anual do Seminário de Almada atribuíram-me um prémio pelas notas. Quando fui receber a distinção, diz-me o Cardeal Cerejeira: ‘Tu de onde és?’. Eu respondi: ‘Sou do Ramalhal, senhor Patriarca…’. ‘Do Ramalhal pode vir coisa boa?’, questiona novamente o Cardeal Cerejeira. ‘Olhe, veja, estou aqui!’, respondi e rimo-nos os dois”.

A Missa Nova foi celebrada no Ramalhal. “Foi uma festança muito grande, que marcou a vida da terra porque o último padre que havia natural de lá era da idade dos meus pais. Eu fui o primeiro que foi abrir uma nova vaga de sacerdotes do Ramalhal”, frisa.

 

Confissões, Ação Católica e Vocações

Após a ordenação, a primeira missão: “Depois de todas as festas da ordenação e da Missa Nova, recebi a incumbência de ir para a igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa. Foi a primeira nomeação que tive e lá fiquei por cinco anos, como coadjutor do grande cónego Asseca, que tinha sido meu professor em Almada… aliás, não sei se houve alguma intervenção dele nessa nomeação!”, brinca este sacerdote. “São Domingos era uma igreja muito especial, porque era uma igreja de muitas confissões. Era uma igreja muito central, enorme, onde chegavam os transportes que vinham para Lisboa. Eu cheguei a confessar gente de todo o país, mas também de França, de Espanha… Estes anos de confessionário foram uma escola fantástica para mim, que me apaixonou muito por este ministério, que considero da maior importância”, salienta, a propósito da sua primeira missão no coração da cidade.

Seguiu-se, em 1958 e durante seis anos, a Ação Católica, com a nomeação de assistente geral da JEC feminina e da JIC feminina. “Fiquei uns anos sem paróquia e chamava-me um ‘cigano do Evangelho’, porque a minha missão era andar por todo o país, a pregar retiros, a fazer conferências, a dar apoio aos grupos”. Entre 1964 e 1970, novamente por seis anos, assumiu a Pastoral das Vocações no Patriarcado de Lisboa, a então chamada OVS – Obra das Vocações Sacerdotais. Também nesta missão, o padre Lereno teve de “andar de paróquia em paróquia”. “Como não tinha uma paróquia à minha conta, ao Domingo era ‘pároco’ de qualquer lado”, graceja, lembrando esses tempos “em que falava à juventude e dava testemunho” da sua vida sacerdotal.

Ao longo dos anos, o padre Lereno também se dedicou “bastante” aos Cursilhos de Cristandade na diocese. “Fiz o meu cursilho em 1962 e depois, até 2010, acompanhei mais de 50, porque me pediam e eu gostava muito”, refere.

 

Coadjutor de… um Bispo

Depois do trabalho nas Vocações, o padre Lereno foi para os Mártires, novamente como coadjutor de uma paróquia que tinha como pároco um Bispo Auxiliar de Lisboa. “D. António Ribeiro tinha sido meu colega na Ação Católica, nos serviços centrais, e trabalhou em especial nas associações profissionais católicas. Quando ele veio para Bispo Auxiliar do Patriarcado, convidou-me para ir com ele para os Mártires, onde estive quatro anos e tomava conta de quase tudo, porque ele tinha muitas tarefas episcopais”, recorda. Foi neste tempo que D. António Ribeiro o encarregou das transmissões religiosas da Rádio Renascença. “Assumi e comecei logo a transmitir o Terço, diariamente, e também a Missa dominical. Quando fui para São João de Brito, aconteceu que a Renascença foi comigo. Eles já estavam habituados a mim, à minha voz, e ainda hoje sou procurado por pessoas que me ouviam, mas não me conheciam”, relata.

 

Nada de ‘lerenices’

No ano de 1974, o padre Lereno é nomeado, pela primeira vez, pároco, e logo de duas paróquias da cidade. Primeiro, em fevereiro, de Santa Joana Princesa, e depois, em agosto, de São João de Brito. “Assumi as duas paróquias no mesmo ano, ficando Santa Joana Princesa anexa a São João de Brito”. O padre Lereno ficou cinco anos, até 1979, em Santa Joana Princesa, e 36 anos, até 2010, em São João de Brito. “Mais de metade da minha vida sacerdotal foi passada em São João de Brito! Quando cheguei, era de facto uma paróquia que tinha sido muito bem planeada, com uma grande igreja, que foi inaugurada em 1955. É muito bonito ver o sentido pastoral do Cardeal Cerejeira”, destaca este sacerdote que, ao chegar a esta paróquia, se deparou com uma comunidade que já fazia uma caminhada cristã há mais de 20 anos. “São João de Brito tinha já todo um trabalho para trás, digno, generoso e heróico. Quando cheguei, eu pensava e gostava de fazer uma paróquia que fosse mesmo paróquia. Portanto, que desse uma atenção muito grande à catequese, sem dúvida alguma, e através da catequese chegasse também aos pais, para que eles entendessem que são os primeiros catequistas dos seus filhos. Foi assim que me lancei nesse trabalho. Depois havia muita juventude, que era predominante, porque era uma paróquia nova. Além disso, havia também o trabalho com casais e com adultos”, recorda, lembrando igualmente “a missão feita nos bairros de lata, junto ao aeroporto”, que estavam no espaço geográfico da paróquia.

Depois de ter estado cerca de quatro décadas como pároco em São João de Brito, o padre Lereno, então com 80 anos, deixou esta paróquia em 2010. “Saí de lá dizendo: nada foi meu, isto foi trabalho de Deus, trabalho de Igreja, e mais nada! Brinquei com as pessoas e disse: eu não quero deixar aqui ‘lerenices’ em São João de Brito! Nada é do Lereno! Isto é da Igreja, é da diocese, é do Reino de Deus, não procurem ‘lerenices’ que eu não quero cá deixar ‘lerenices’”, observa, bem-disposto, o padre Lereno, focando quatro palavras que muito o acompanharam nesta sua missão: “Disponibilidade, serviço, atenção e cuidado”.

Questionado sobre a maior alegria que teve em São João de Brito, a reposta deste sacerdote é pronta: “A minha maior alegria foi o fruto que vi nas vocações! Nos 36 anos em que estive em São João de Brito, houve 12 padres que se ordenaram passando pela paróquia, entre eles, por exemplo, o padre José Miguel, atual reitor do Seminário dos Olivais, que foi um dos meus meninos dessa paróquia que foram para padre. Ele tinha 3 anos quando cheguei à paróquia, em 1974. Hoje tenho a grande alegria de ter sido, de algum modo, instrumento de 12 padres e também de 10 raparigas que consagraram a sua vida toda passando pela paróquia de São João de Brito. No entanto, tenho sempre muito cuidado em sublinhar que isto não é trabalho meu, é d’Ele! Ele é que faz!”, garante.

 

Vida de oração

Ao longo dos 60 anos de sacerdócio, o padre Lereno tem-se mostrado sempre disponível para a Igreja. “Digo-lhe francamente: uma nota da minha vida, em todas as missões que me deram para cumprir, é que nunca estive contrariado, fui sempre feliz onde quer que tenha estado. Nas nomeações que tenho tido ao longo da vida, nunca precisei de conversar mais do que quatro, cinco minutos com o Patriarca”, brinca este sacerdote.

No passado dia 28 de junho, o padre Lereno celebrou a Eucaristia em São João de Brito, e no dia seguinte, a 29 de junho, Domingo, data em que cumpriu os 60 anos de sacerdócio, deslocou-se à sua terra natal, o Ramalhal, para presidir à Missa junto de familiares, amigos e conterrâneos. “O sentimento é o do mistério da Igreja! Foi a Igreja que me criou, foi a Igreja que me fez! Foi a Igreja que me aconselhou, que me orientou os passos. O mistério da Igreja é o mistério da vida de um padre, não há outra explicação nem justificação! Nada é nosso e ai de nós que estivéssemos a embandeirar em arco com as nossas peneiras e a pensar que nós é que fazemos alguma coisa… estávamos perdidos!”, sublinha.

Desde 2010 que o padre Lereno vive na Casa Sacerdotal. Colabora na igreja de Fátima, onde vai confessar e celebrar a Eucaristia, e dedica o resto do dia à oração, concretizando assim um desejo antigo. “Faço agora uma vida de oração. É a isso que me dedico atualmente!”, refere, satisfeito, o padre Lereno.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
A OPINIÃO DE
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
O que caracteriza o casamento não é o amor – que é também comum a outras relações humanas –...
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Acaba de ser publicada a declaração “Dignitas Infinita” sobre a Dignidade Humana, elaborada...
ver [+]

Tony Neves
Há fins de semana inspirados. Sábado fiz de guia a dois locais que me marcam cada vez que lá vou. A...
ver [+]

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Conta-nos São João que, junto à Cruz de Jesus, estava Maria, a Mãe de Cristo, que, nesse momento, foi...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES