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Casa Mãe acolhe crianças institucionalizadas em Aveiras de Cima
“Quem um dia entrou aqui fica no nosso coração”
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Nasceu de um sonho do padre António Cardoso, pároco em Aveiras de Cima, e em nove anos já acolheu cerca de 90 crianças. ‘Casa do Pombal – a Mãe’, é um lugar onde se vive o amor da família de coração.

 

Quando há 46 anos atrás o padre António Cardoso assumiu a paróquia de Aveiras de Cima, existia uma dinâmica social que procurava ir ao encontro das crianças e adolescentes mais desfavorecidos daquele lugar. A Colónia de Férias, fundada pelo padre Manuel Antunes, “levava os meninos à praia. Eram crianças que nunca tinham visto o mar e isso era um benefício”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE o pároco de Aveiras de Cima, padre António Cardoso. Nesta colónia, pela felicidade que proporcionava às crianças que participavam, surgia espontaneamente a expressão: “'A colónia é a minha segunda mãe. Que pena não ser o ano todo!'. Foi aí que começou a surgir o sonho que um dia foi possível realizar ao receber, de herança de família, uma casa que vendi, com este propósito", explica o padre Cardoso. Com a ajuda de amigos foi, então, adquirido o terreno de uma quinta, junto à igreja paroquial de Aveiras de Cima, onde veio a ser edificada a obra social ‘Casa do Pombal – a Mãe’, que é "acarinhada pela gente da terra". Em anexo à vivenda que já existia foi feito um prolongamento do edifício, um espaço que desde a sua inauguração já recebeu cerca de 90 crianças.

 

Uma família de coração

A Casa Mãe, como é vulgarmente denominada, foi inaugurada a 9 de fevereiro de 2005 e é uma casa que recebe crianças institucionalizadas. Segundo o padre António Cardoso, que é o presidente da direção desta IPSS, "grande parte destas crianças que já passaram pela instituição voltou às famílias mas ficaram sempre muito ligadas a nós. Há crianças que estão com a família mas no Verão querem sempre vir à nossa colónia de férias, outros pedem para vir cá passar um fim-de-semana...", refere o padre António Cardoso apontando um lema que se pratica na instituição: "Quem um dia entrou aqui fica no nosso coração". Em recente visita do Bispo Auxiliar D. Joaquim Mendes a esta instituição, no âmbito da Visita Pastoral à Vigararia de Vila Franca de Xira-Azambuja que termina este Domingo, o bispo "refletiu sobre esta dimensão", destaca o pároco de Aveiras de Cima, de 74 anos. "‘Vocês estão verdadeiramente numa casa que é vossa e sois uma família de coração’", referiu D. Joaquim Mendes, citado pelo padre António Cardoso.

 

O rosto da Igreja na caridade que realiza

Não sendo uma obra social da paróquia de Aveiras de Cima, esta instituição é gerida por uma associação, encabeçada pelo padre António Cardoso e por outros sócios fundadores, "num formato independente do Centro Social Paroquial", explica o sacerdote, salientando que esta casa e a obra do Centro Social Paroquial são "o rosto da Igreja na caridade que realiza".

A Casa Mãe acolhe crianças em regime temporário, "até que as suas famílias sejam reestruturadas" ou sejam encontradas outras soluções para essas crianças, como a adopção. Atualmente, as crianças que habitam nesta casa "são provenientes da periferia de Lisboa", e chegam, "normalmente, através do Centro Regional da Segurança Social e das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens". Embora sendo um centro de acolhimento temporário, o tempo de residência "pode demorar vários anos", frisa o padre Cardoso.

Com capacidade para acolher vinte crianças, entre os 0 e os 12 anos, a Casa Mãe recebe atualmente dezasseis. No entanto, salienta o sacerdote, mesmo passando da idade "essas crianças não são mandadas embora".

 

“Isto é casa deles”

Enquanto conversávamos com o padre António Cardoso, uma a uma, iam chegando da escola as várias crianças residentes que delicadamente cumprimentavam o sacerdote. Esta "é a sua casa", frisa ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre responsável por esta instituição, explicando, ainda, que "estes meninos têm um ritmo de vida diário igual às outras crianças". "Umas frequentam o jardim infantil, outras a escola e ATL, outras a escola EB 2,3. Têm uma vida como os outros, só que dormem cá connosco e fazem aqui a sua casa, a sua família, a casa mãe", observa.

Enquanto IPSS, esta instituição encontra apoio financeiro num acordo de cooperação com a Segurança Social, que atribui "um valor específico por cada criança". "Uma outra parte, que é praticamente metade, são os amigos" que sustentam, salienta sublinhando que "há pessoas que dão donativos muito bonitos". Apesar de termos dificuldades, até à data nunca nada nos faltou", garante. Também para apoiar esta obra surgem outras movimentações de voluntários na própria paróquia.

 

Dar e receber

Sob a direção de uma educadora de infância, a Casa Mãe tem ao serviço vinte pessoas, entre as quais uma assistente social, uma psicóloga, quatro cozinheiras, auxiliares de educação e outras pessoas em regime de voluntariado. "Conseguimos que todas as noites esteja uma pessoa, voluntária, para garantir uma retaguarda ao funcionário que está de vigilância, e temos professores reformados que vem dar explicações aos meninos e outros que vêm fazer limpeza", refere o padre Cardoso.

Alexandrina Serrano Ferreira é professora reformada e é voluntária na Casa Mãe. Na nossa visita a esta instituição, Alexandrina referiu ao Jornal VOZ DA VERDADE que vem a esta casa duas vezes por semana e por isso está "em contacto com todos os meninos". "Esta é uma obra extraordinária e só quem entra aqui todos os dias e vê a forma de toda a gente lidar com as crianças, fica encantada", garantiu. Alexandrina dá apoio a todos os alunos que precisarem, independentemente do anos que frequentam. Para esta professora reformada, ser voluntária na Casa Mãe "é um dar e receber". "Eu ajudo-os mas eles também me ajudam a mim. Portanto, para mim é ótimo vir a esta casa, porque sinto-me feliz e contente", testemunhou.

Camila, Otília e Emília trabalham na cozinha e ajudam em outras tarefas na Casa Mãe. De acordo com o tratamento carinhoso dos meninos e meninas que aqui residem, são as três ‘mães’ da Casa Mãe! Para estas mulheres o trabalho com estas crianças "é gratificante" e é assumido como verdadeira missão.  "Nós somos a família deles", e para que eles se sintam em família "damos-lhes muito amor", referem. "Damos tudo o que uma criança tem direito. Aqui, a única coisa que eles não têm é a família de sangue. De resto têm tudo em abundância porque é tudo em função deles", observam.

 

O apoio psicológico

Ao chegarem à Casa Mãe, algumas das crianças manifestam determinadas perturbações que "são fruto, em grande parte, de uma desestruturação familiar", refere ao Jornal VOZ DA VERDADE a psicóloga Sara Lopes. Quando chegam a esta instituição, ao depararem-se com um lugar novo e pessoas desconhecidas, "as primeiras horas são para eles assustadoras". Nesse sentido, "o facto de já cá estar um grupo a residir é um factor facilitador porque permite uma integração com os pares", releva.

Segundo esta psicóloga, que trabalha desde há cinco anos na Casa Mãe, "quando as crianças chegam é feita uma avaliação sobre o seu estado emocional, bem como o tipo de traumas que viveram e o tipo de intervenção que tem de ser feita, não apenas em termos psicológicos mas também psicossocial". Desta forma, o trabalho feito não passa apenas pela terapia, numa partilha individual, mas num contacto diário. "No caminhar da escola até aqui conversamos muito, ou no deitar, no dar um beijinho… O trabalho é feito por toda a gente, não apenas por mim", salienta Sara Lopes.

Para esta psicóloga, este trabalho é fonte de "felicidade", e para além de alguns momentos difíceis que possam surgir "quando eles vão embora e ligam a dizer: 'Temos tantas saudades vossas' dá-nos conforto também", testemunha.

 

Grande carinho e pertença

Na Casa Mãe, atualmente, a criança mais nova tem 3 anos e a mais velha 12, e o padre António Cardoso vai acompanhando-os a todos pela sua presença frequente. "Procuro estar aqui com frequência. Venho jantar com eles uma vez por semana. Converso com eles, rezamos. Criamos assim um ambiente de modo a que os meninos se sintam bem e descubram que a palavra ‘padre’ tem que ver com pai. Por outro lado, também descobrem que as senhoras mais velhas são as mães, as outras mais novas, as irmãs mais velhas... É este ambiente que se respira! Tudo muito simples mas com grande carinho e com grande pertença".

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos por Nuno Rosário Fernandes e Casa Mãe
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