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Patriarca ordena em Lisboa primeiro diácono indiano
Ser soldado de Cristo
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Samuel Pulikal, natural de Cochim, na Índia, vai ser ordenado diácono este Domingo, no Mosteiro dos Jerónimos. Desde há 25 anos, é o primeiro seminarista da Diocese de Cochim no Seminário dos Olivais. De um primeiro desejo de ser soldado, militou por Cristo.

 

Samuel Pulikal é proveniente da cidade e Diocese de Cochim, na Índia, "uma diocese fundada pelo padroado português no século XVI e que foi a segunda diocese da Índia, depois de Goa", explica ao Jornal VOZ DA VERDADE este jovem de 28 anos, que este Domingo é ordenado diácono com vista ao sacerdócio.

A sua paróquia de origem, paróquia de São Tomé Apóstolo, fica nos arredores de Cochim e, nesse lugar, onde sempre permaneceu até aos 17 anos, Samuel foi crescendo, também na sua fé, pela educação cristã que teve. "Quando era criança gostava de ver os padres a celebrar e isso sempre me marcou muito. Acho que tinha já uma semente no coração lançada pelo Senhor. Mas depois isso foi passando e foram surgindo outros projetos na minha vida. Queria trabalhar, queria ter e sustentar uma família. Nunca pensei numa mulher concreta mas sempre pensei em ter filhos. Eu costumava dizer à minha mãe que queria ter, pelo menos, cinco filhos", testemunha Samuel.

Ao terminar o 10º ano de escolaridade, ainda na Índia, Samuel pensou em optar por um trabalho concreto e, nessa altura, refere, "queria seguir para a vida militar”. “Pensei em ser soldado", revela. "Os soldados tinham estatuto na cidade e creio que até ganhavam bem. Depois, segundo a tradição, o último filho fica com os pais e quando estes ficam mais velhos cuida deles. Nesse sentido também tinha este sonho de querer ajudar os meus pais". Para corresponder a esse seu desejo pessoal, Samuel chegou, ainda, a entrar para o Corpo Nacional de Cadetes.

 

O despertar da vocação

Samuel tinha um gosto "muito grande pela catequese". Quando tinha os seus 16 anos, encontrou na biblioteca da paróquia um livro que o marcou e ajudou a perceber que poderia ter uma missão a cumprir. "Li a autobiografia de Santa Teresinha (‘História de uma Alma’) várias vezes e depois até juntei dinheiro e acabei por comprar o livro", conta Samuel Pulikal. "Foi um livro que gostei muito e me fez pensar: 'Também quero viver como Santa Teresinha vivia!'. Uma vida para Deus, cheia de amor, de oração, serviço... e  isso depois levou-me a pensar na questão da vocação”.

A amizade com uma religiosa permitiu ir partilhando a sua vivência e experiência e levou Samuel a ir mais longe na própria vida espiritual. "Esta irmã ajudou-me muito, também introduzindo-me na vida de oração e oferecendo-me outros livros de santos que eu ‘devorava’. Chegava a deixar de estudar para ler esses livros", salienta Samuel.

O discernimento foi sendo feito e a vida deste jovem indiano começou a mudar. "Esse ano, quando estava no 12º ano foi muito intenso. Comecei a ir à Missa todos os dias. Parecia que era algo que fazia parte da vida. Se faltava à Missa parecia que tinha faltado algo. Ao fim desse ano decidi entrar no seminário. Tinha 17 anos", recorda.

 

A semente

Hoje Samuel olha para trás, para o seu percurso de vida, e percebe que o chamamento de Deus se manifestava já desde criança. "Impressiona-me ver que Deus tinha colocado esta semente em mim quando era criança. Recordo que brincava às missas, celebrava, cantava os cânticos que sabia da Missa. Por isso, penso que, mesmo eu não sabendo, Deus foi lançando a semente que ficou escondida e na devida altura, com as condições próprias, a fez crescer".

 

Troca de sonhos

A poucos dias de ser ordenado diácono, ao entrar para o retiro de preparação, Samuel testemunha ao jornal VOZ DA VERDADE que tinha os seus sonhos. Porém, ressalva: "Deus tinha outros sonhos para mim e obviamente que são muito melhores do que os meus. Trocámos os sonhos, nesta história de amor". 

Em junho de 2001, Samuel entrou, então, no Seminário Menor de Cochim, com outros onze colegas. "Foi um ano muito intenso e muito marcante”, observa, justificando: "Foi um ano muito construtivo, muito progressivo. Vinha com algumas ideias mas foi um ano que me ajudou a solidificar. E para isso o diretor do seminário ajudou muito, com o seu exemplo de vida e de oração".

Já no seminário, Samuel fez três anos de bacharelato em Física e, terminando essa formação, foi para o Seminário Maior para dar início à formação filosófica. "Estávamos em 2005. Estive lá dois anos e ao acabar esse tempo continuámos com a formação em seminário, embora fazendo uma paragem académica", conta. "Cada um fica com alguma responsabilidade pastoral e, no meu caso, fiquei com essa responsabilidade mesmo no seminário, acompanhando um padre formador do 1º ano. Tinha de tomar conta dos rapazes e manter a disciplina, assim como ajudar no governo da casa", explica ao Jornal VOZ DA VERDADE, destacando que "também neste sentido há uma orientação pastoral de cura de almas".

 

A formação em Lisboa

A vinda de Samuel para Lisboa, para continuar a sua formação sacerdotal, acontece na sequência da visita, em 2005, do então Cardeal-Patriarca D. José Policarpo à Índia, para presidir aos 400 anos da Sagração da Igreja de Nossa Senhora da Esperança e aos 500 anos da Sagração da Catedral de Santa Cruz, na Diocese de Cochim. Na edição de 4 de dezembro desse ano, o Jornal VOZ DA VERDADE dava conta desta visita, onde destacava que "foram reforçados os laços que já uniam Cochim a Lisboa, visto que Cochim, criada em 1547, esteve na sua origem ligada a Lisboa, uma vez que foi a cidade de entrada dos portugueses na Índia". Por ocasião dessa viagem, o bispo da Diocese de Cochim, D. Joseph Kariyil, levantou a D. José Policarpo a possibilidade de enviar para Lisboa estudantes de Teologia e Samuel Pulikal foi o primeiro a chegar, em 2008. "Para a Diocese de Cochim também é importante pelas raízes e pela questão histórica da ligação profunda da fé com a Diocese de Lisboa", explica Samuel, referindo que na sua diocese também "existe um arquivo bastante amplo, todo em português". No entanto, recorda que há 25 anos atrás também estudaram em Lisboa outros dois seminaristas que foram ordenados em Lisboa, mas que voltaram para a Índia.

 

A adaptação

Aos 24 anos Samuel Pulikal chega, então, ao Seminário dos Olivais e inicia o seu percurso de formação teológica com algumas dificuldades, sobretudo pela barreira da língua. Em Cochim já tinha tido uma iniciação à língua portuguesa com as Irmãs Vitorianas e isso foi uma ajuda porque, brinca, "pelo menos, mesmo não percebendo tudo, sabia que estavam a falar português". Já em Lisboa realizou um curso de Verão de língua portuguesa e a própria vivência comunitária no seminário serviu de apoio. "Foi uma vivência comunitária muito propositada para a minha adaptação. Digo, sinceramente, que fui muito bem acolhido no Seminário dos Olivais, seja pelos formadores, seja pelos colegas que faziam tudo para que eu me integrasse na comunidade", garante. Porém, destaca que "tudo era diferente" da realidade que vivia na Índia. "Desde a comida à linguagem: tudo era diferente!".

 

Soldado para servir

Se antes Samuel pensava em ser soldado, quando informou os seus familiares de que iria entrar no seminário foi confrontado com essa opção antes manifestada, ao que respondeu: "Vou ser soldado de Cristo". Hoje é essa a percepção que tem da sua vocação. "Ser soldado de Cristo é servir e hoje percebo isso na vocação concreta do diácono e, na prática, isso implica uma atitude, um estilo de vida, porque para ser padre, primeiro é preciso ser servo, diácono", observa. Recordando que "Cristo é o primeiro servo", Samuel Pulikal acentua que "este soldado que é Cristo" o chama, "pessoalmente, como chamou a muitos outros, a ser construtor do Reino de Deus". E o 'sim' dado a Deus quando tinha 17 anos é um 'sim' que "foi progredindo e ajudado na formação no seminário, na vivência da comunidade". “É um ‘sim’ que foi ‘podado’ e já não é um ‘sim’ à minha maneira, mas à maneira da Igreja e de Cristo", garante.

 

A arma é o amor

Por isso, para este jovem que este Domingo é ordenado com o primeiro grau do Sacramento da Ordem (diácono) o ser soldado implica "ter como arma o amor". É uma decisão “para sempre”, realça. "Este é um ‘sim’ até ao último suspiro da vida. A minha fidelidade humana pode ser fraca mas eu não posso desconfiar da fidelidade de Deus porque, por várias vezes, o Senhor me sustentou e me mostrou a sua fidelidade", testemunha. “Agora é nesta fidelidade que eu vou ser soldado. Ser testemunho desta fidelidade de Deus".

Consciente da sua personalidade e da forma como procura viver nesta fidelidade, Samuel Pulikal reconhece que já não é a mesma pessoa desde que em 2001 entrou no seminário. Houve um crescimento natural e normal, sobretudo "no amor à Igreja, ao Senhor e na própria atitude de ser homem à imagem de Filho de Deus". Neste sentido, considera que cresceu também no entender Deus como Pai. "Ao ser filho tenho de ter um Pai. E ver Deus como Pai também me convida a ser servo e a ser filho", sublinha.

 

Missão pastoral em Lisboa

Este Domingo, 1 de dezembro, com 28 anos, Samuel vai ser ordenado diácono no Mosteiro dos Jerónimos. No entanto, a sua ordenação presbiteral vai acontecer a 18 de agosto de 2014, na sua diocese de origem, mais propriamente, na sua paróquia de São Tomé Apóstolo que está a viver o ano jubilar por celebrar os 25 anos de fundação. Quanto à missão pastoral, segundo um acordo estabelecido entre o Patriarcado e a Diocese de Cochim, Samuel permanecerá em Lisboa por alguns anos. "É uma troca de amor", graceja Samuel frisando que, nesse sentido, ficará ao serviço da Diocese de Lisboa. "Também por isso vieram mais dois seminaristas de Cochim que estão a estudar no Seminário dos Olivais e que já foram admitidos como candidatos às ordens sacras", refere.

 

Reconhecer a iniciativa de Deus

 "Reconhecer e aceitar a iniciativa divina no chamamento e o entregar-se no caminho da descoberta no seminário", são dois aspetos que Samuel Pulikal destaca nesta fase da sua vida. A poucas horas da sua ordenação garante que tudo o que é "vem da formação do seminário" e por isso acentua que "essa descoberta é sempre possível quando uma pessoa se abre a Deus". Considerando que "Deus dá diversas possibilidades para que isso aconteça", Samuel deixa um apelo aos jovens: "É preciso estar atento aos sinais de Deus. Porque alguém plantou, alguém regou mas quem faz crescer é Deus".

 

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Seis novos diáconos

O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, vai ordenar este Domingo, no mosteiro dos Jerónimos, pelas 15h30, seis novos diáconos, cinco com vista ao sacerdócio e um permanente. Assim, Samuel Pulikal, aluno do Seminário dos Olivais, Francisco Miguel Simas Simões e Manuel André Charumbo, alunos do Seminário Redemptoris Mater, Bernard Molo Obiero, dos Missionários da Consolata, e David Manuel Martins Mieiro, dos padres Dehonianos, vão ser ordenados diáconos de transição. Carlos Manuel Ferreira de Sousa Borges, proveniente da paróquia de Barcarena, vai ser ordenado diácono permanente para o Patriarcado de Lisboa.

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos por Nuno Rosário Fernandes e Arquivo VV
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