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Juventude Hospitaleira celebra 25 anos
Os gestos tocam no coração
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Há 25 anos que a Juventude Hospitaleira vive a missão da hospitalidade. São jovens que se entregam ao outro, no cuidado da saúde mental. Um exemplo concreto onde ‘a fé atua pela caridade’  - como sugere o tema do ano pastoral no Patriarcado de Lisboa - que o Jornal VOZ DA VERDADE irá apresentar mensalmente.

 

Lourdes Silva é uma jovem de 22 anos, com pronúncia do norte e que queria ser artista mas acabou por tornar-se enfermeira. Anabela Carneiro, de 24 anos, também se identifica facilmente pela pronúncia nortenha e é fisioterapeuta. Em comum, estas duas jovens têm, não apenas a mesma região de naturalidade, Braga e Póvoa de Varzim, respetivamente, mas também o mesmo lugar de trabalho: a Casa de Saúde da Idanha, das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus (IHSCJ), em Belas.

O desempenho de funções nesta instituição, que cuida da saúde mental de mulheres e, em alguns casos, também, de homens, aparece na sequência de uma experiência de caminho feita na Juventude Hospitaleira. Este movimento juvenil, fundado pelas Irmãs Hospitaleiras e pelos Irmãos de São João de Deus (OH), com o objetivo de levar aos jovens o mundo da hospitalidade, procura proporcionar aos jovens, entre os 13 e os 30 anos, uma experiência de contacto com uma realidade social que ainda encontra alguns estigmas. Possibilitar “um contacto direto com os doentes que vivem nas Casas de Saúde ou estão de passagem, provisoriamente” nos diversos centros desta instituição religiosa; “levar o jovem a conhecer esta realidade, a ficar solidário e verificar de que forma se pode comprometer no seu dia-a-dia para viver com a diferença e combater o estigma social dos doentes mentais”, são alguns dos objetivos apontados ao Jornal VOZ DA VERDADE pela irmã Fernanda Caetano, uma das dinamizadoras responsáveis pela Juventude Hospitaleira em Portugal. Segundo esta religiosa de 36 anos, também natural do norte do país, Amarante, nos dias de hoje “ainda há o estigma social em relação à doença mental” e as atividades que o movimento juvenil que ajuda a coordenar vai realizando tentam “combater” essa realidade.

 

O movimento juvenil

A história da fundação deste movimento, que está a comemorar os 25 anos de vida, remonta ao final da década de setenta (1977/78), momento em que as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e os Irmãos de São João de Deus começaram a realizar Campos de Férias nas sua Casas de Saúde e nos seus centros, para raparigas e rapazes, respetivamente. “A Juventude Hospitaleira é um movimento juvenil cristão, fundado pelo irmão Augusto Vieira (OH) e pela irmã Laurinda Faria (IHSCJ), que vive da espiritualidade e do carisma da Ordem e da Congregação” explica a irmã Fernanda Caetano. Segundo esta religiosa, neste movimento juvenil “estão jovens que se inscrevem no movimento ou fazem atividades com o movimento e se identificam com a dimensão da hospitalidade que lhe é própria”.

De dimensão nacional, o movimento da Juventude Hospitaleira congrega jovens que chegam “vindos de paróquias, de outros movimentos como os escuteiros, ou de colégios”, salienta a irmã Fernanda Caetano. “Outros chegam depois de efetuarem uma pesquisa na internet à procura de voluntariado. Mas também há o passa-palavra, e o testemunho das experiências feitas”, observa a religiosa.

 

Praticar a caridade e crescer na fé

A jovem Lourdes Silva conheceu a Juventude Hospitaleira depois de uma experiência que fez “para conhecer a realidade das irmãs e do que era a vida consagrada, embora sem conhecer a missão que estas desenvolviam”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. Depois de fazer o primeiro campo de férias, com a duração de oito dias, sentiu a “necessidade de fazer cada vez mais atividades”. Não satisfeita, apenas, com as atividades que realizava, Lourdes Silva passa a integrar uma das equipas de trabalho da pastoral juvenil, na Casa de Saúde do Bom Jesus, em Braga. Para esta jovem que entrou no movimento em 2008, a Juventude Hospitaleira trouxe à sua vida “pessoas que se identificam com o mesmo carisma”, e uma ligação que lhe “permitiu discernir” a sua vida profissional. “Estava um pouco confusa entre as artes musicais, o teatro e a representação e a Juventude Hospitaleira permitiu-me perceber que tinha mais para dar na relação humana do que concretamente nas artes do espetáculo”, refere. A opção de Lourdes acabou por recair na enfermagem onde considera que também aí poderá “pôr em prática os conhecimentos musicais” e a sua “faceta mais artística ao cuidado do outro e do relaxamento do outro”. Desde há uma semana que trabalha como enfermeira na Casa de Saúde da Idanha, e no que diz respeito a esta dimensão da vida onde se conjugam fé e caridade, Lourdes afirma que a relação “é complexa” e “é preciso ter uma caminhada feita para conseguir relacionar” estas duas dimensões porque, acentua, “praticando a caridade conseguimos aprofundar e crescer na nossa fé”. 

 

A ciência de saber acolher o outro

Anabela Carneiro, que chega também do norte, exerce, desde há um ano, na mesma Casa de Saúde da Idanha, a profissão de fisioterapeuta. Para esta jovem, a sua participação na Juventude Hospitaleira contribuiu para perceber a base do que hoje pratica e encara como desafio na sua vida. “Foi na Juventude Hospitaleira que aprendi o que é a hospitalidade, que defino como a ciência de saber acolher o outro, seja ele quem for”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE. “O movimento ajudou-me e o levar isso para a vida é um desafio ainda maior”, garante acentuando: “Aprendi também que muitas vezes nós queremos dar muito e aqui acabamos por receber muito mais do que aquilo que damos”, sublinha. “O verdadeiro sentido da vida está em tocar o coração das pessoas e por isso tento na minha vida tocar o coração dos outros. A beleza está em tocar e ser tocado e aí, ao tocar o coração poder transformar”, testemunha Anabela Carneiro, salientando que “Jesus veio mostrar que Deus é amor, pelos seus gestos, e os gestos é que tocam no coração das pessoas”.

Sobre a experiência que realiza como fisioterapeuta garante ainda: “O bom acolhimento faz todo sentido e, por isso, consigo juntar a hospitalidade à minha profissão”.

 

Missão nas paróquias

A atividade da Juventude Hospitaleira desenvolve-se, de modo especial, nos diversos centros, seja da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, seja das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, que estão espalhados pelo país. No entanto, segundo refere ao Jornal VOZ DA VERDADE a irmã Fernanda Caetano, “também aceitam o desafio de ir às paróquias para sensibilizar para esta dimensão do voluntariado e da hospitalidade”.

Os jovens que participam nas diversas atividades recebem formação adequada para o momento específico que estão a viver. “Se for uma atividade de fim-de-semana será uma formação diferente do que se for num campo de férias de 9 ou 10 dias, onde um enfermeiro ou um médico vem dar formação ao grupo que participa, dependendo das áreas que se pretende abranger”, explica esta responsável da Juventude Hospitaleira.

Atualmente, a procura deste tipo de voluntariado é grande e “cada mais se nota o desejo” de grupos participarem. No entanto, coloca-se uma dificuldade neste tipo de missão que diz respeito à continuidade do trabalho realizado. “A dificuldade que se coloca é a de dar continuidade porque são atividades pontuais que os jovens fazem mas depois é difícil manter uma continuidade”.

 

Compromisso

Outro dos aspetos que define o movimento da Juventude Hospitaleira tem a ver com o compromisso que os jovens que o integram fazem e que corresponde a uma pedagogia. “Temos uma pedagogia em que o jovem que quer ser jovem hospitaleiro e que se assume assim, assume esse compromisso. É um compromisso pessoal que procura levar o jovem a viver esta dimensão da solidariedade, do encontro consigo e do encontro com Deus, também na sua vida”, explica a irmã Fernanda Caetano. “Costumamos dizer que é muito fácil ser jovem hospitaleiro nos nossos centros mas depois o difícil é levar a hospitalidade para fora. E por isso, o que é importante é que ele possa ser jovem hospitaleiro na sua família, na escola, ou na sua paróquia”, acentua. E quando assim acontece, a experiência influencia outras decisões: “Há muitos jovens que descobrem a sua área profissional a partir da experiência que fazem na Juventude Hospitaleira. Os jovens percebem que querem as suas vidas para o outro, de forma diferente”, sublinha.

 

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Encontrão para celebrar 25 anos

Nos passados dias 5 e 6 de outubro decorreu, em Lisboa, o Encontrão que juntou mais de uma centena de pessoas que ao longo dos 25 anos passaram pela Juventude Hospitaleira. Este encontro que surge na sequência das iniciativas realizadas ao longo deste ano para celebrar os 25 anos deste movimento e serviu para “matar saudades e dar graças a pelos 25 de história e sonha o futuro”, refere a irmã Fernanda Caetano.

O encerramento das comemorações dos 25 anos da Juventude Hospitaleira acontece em dezembro, numa atividade a realizar de 30 de dezembro a 1 de janeiro, na Casa de Saúde em Condeixa.

 

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Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus

A Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus foi fundada em 31 de maio de 1881, em Ciempozuelos – Espanha, por Bento Menni acompanhado por Maria Josefa Récio e Maria Angustias Giménez. O fundador e as duas primeiras irmãs imprimiram ao projeto fundacional caraterísticas genuínas de uma hospitalidade vivida ao jeito de Cristo Bom Samaritano e de São João de Deus.

 

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Perfil

Natural de Amarante, a irmã Fernanda Caetano tem 36 anos e já passou por várias casas da congregação. A residir atualmente na Casa de Saúde da Idanha, em Belas, assume a pastoral juvenil naquela casa, recebendo jovens e promovendo encontros em paróquias e outros lugares. Frequenta atualmente o terceiro ano do curso de Ciências Religiosas. Juntamente com a irmã Susana, (Guarda), o irmão Ireneu (Lisboa) e o irmão Alberto (Barcelos), coordena o movimento juvenil da Juventude Hospitaleira.

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos por NRF e Juventude Hospitaleira
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