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D. Manuel Clemente participa no 2º Encontro ‘Presente no Futuro’
Patriarca de Lisboa apela à Europa para uma maior atenção às religiões
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A integração das diversas culturas e religiões no espaço europeu é uma questão que “ainda não está garantida” e deve merecer maior atenção por parte das instâncias comunitárias. Esta foi uma das ideias deixada pelo Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, no decorrer do 2º Encontro ‘Presente no Futuro’, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, nos dias 13 e 14 de setembro, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

 

Com a temática especifica ‘Que Europeu Sou Eu?’, D. Manuel Clemente participou num debate moderado pelo jornalista Carlos Vaz Marques, com a participação também de Gonçalo M. Tavares e João Proença. Respondendo à questão com o mesmo tema, o Patriarca de Lisboa manifestou sentir-se, simultaneamente, torriense, português e europeu, porque “quando se fala de pertença, fala-se daquilo que se é e de como se reage. E reajo de imediato sempre que sou tocado, positiva ou negativamente, em qualquer dessas minhas dimensões”, apontou.

 

A importância da família

Por outro lado, o escritor Gonçalo M. Tavares considerou que mais do que o local onde se nasce, o sentido de pertença é transmitido pela família, porque “a nossa primeira identidade é mais absorvida do que emitida e é a família, e o núcleo em redor, que a marca”. Neste sentido, o escritor sente que, ao contrário do que acontece noutras regiões do mundo, como no México, onde é possível comprar um gelado no mesmo espaço onde estão pessoas a rezar, “a Europa tem muito a ver com a lógica da separação, não se juntam gelados com crença, há uma marca de separação com qualidades e defeitos inerentes a isso. Quando entramos num micro espaço, é mais ou menos previsível o que vai acontecer ali e isso é uma marca claramente europeia. Um metro quadrado mexicano é mais interessante do que um quilómetro quadrado europeu”, referiu Gonçalo M. Tavares.

João Proença, ex-líder da UGT, que se afirma “europeísta convicto”, disse admirar muito as diferentes culturas, mas achar que “estamos perante uma Europa que não tem só uma dimensão económica, mas deve ter cada vez mais uma dimensão política, cultural e social”.

O ex-sindicalista referiu que “hoje há várias europas, mas sentimos que é um espaço natural onde estamos, e temos de lutar por uma Europa diferente dentro do nosso país. Vivemos numa Europa que fala da governação económica e não social, privilegia algo que não era o pretendido pelos pais fundadores”, lamenta.

 

Europa mais colorida

Neste debate, D. Manuel Clemente lançou, ainda, a questão sobre “de que Europa estamos a falar? A Europa é uma entidade muito dinâmica. Ao contrário das grandes civilizações asiáticas, a Europa foi sempre muito mais volátil, onde mais vezes se sobrepuseram civilizações e culturas, foi o pivô da dinamização intercontinental, e nós portugueses tivemos aqui um protagonismo fundamental”, e exortou: “Devemos saber os europeus que vamos sendo, e não os que somos. Max Weber preconizava que as zonas mais desenvolvidas seriam as protestantes calvinistas. Estamos numa Europa muito mais colorida, em todos os aspetos. O sentido europeu é ser capaz de abranger tudo isto e, assim, encontrar o seu papel de caminho de civilizações e culturas”.

 

A urgência do encontro cultural

Dando a entender que faltam estratégias, projetos que favoreçam o diálogo e a convivência num continente cada vez mais globalizado, D. Manuel Clemente justificou: “Basta ir ao centro de Londres, a Estocolmo, a uma cidade alemã, tudo nórdico, e a questão da diversidade cultural, ética, religiosa, etc., é uma questão que às vezes parece mais abafada do que realmente posta e sobretudo transposta, e aqui é preciso trabalhar muito”, sublinhou.

Neste debate de sala cheia, o Patriarca de Lisboa observou que apesar da “indiscutível urgência dos problemas económicos e de trabalho” que marcam a Europa, ela não deve “sufocar uma outra urgência, que é a do encontro cultural e da compreensão mútua das diferentes tradições” aqui presentes.

 

A prioridade do respeito

De forma a ilustrar a diversidade étnica e doutrinal que caracterizam atualmente o continente europeu, o novo Patriarca de Lisboa recordou um encontro de líderes religiosos da Europa em que participou em Bruxelas, em maio deste ano, e onde observou que “em mais de vinte responsáveis, cerca de metade representávamos o cristianismo, convivendo com muçulmanos, judeus, hindus e outros mais”. Mas quando chegava o momento de sentar à mesa “sobressaía a disponibilidade para nos ouvirmos e a prioridade do respeito ativo de identidades consolidadas mas não estanques”, comentou.

 

O sentimento de pertença à Europa

Ao longo da sessão foi ainda, por diversas vezes, focada a história da Europa e da sua constituição em termos formais e legislativos, dimensão que Gonçalo M. Tavares considera a mais interessante.

Para este escritor, “o mais interessante na Europa são as leis. Uma pessoa que não tem acesso às leis num país europeu está excluída da Europa, do essencial que defende os direitos humanos e daquilo com que nos identificamos”. Gonçalo M. Tavares lembrou, ao longo do debate, que questões como o desemprego e a pobreza dos europeus condicionam o sentimento de pertença à Europa, na medida em que excluem essas pessoas da mesma no que diz respeito às suas necessidades, uma vez que “alguém que está doente ou tem fome não pode participar de forma livre no espaço público”, e alertou para o facto de o século XX ter mostrado que “uma percentagem de 20% de desemprego continuado vai terminar em algo de que não vamos gostar. Uma alta taxa de desemprego é claramente o prefácio das ditaduras, de coisas violentas”.

João Proença afirmou-se de acordo com a posição de Gonçalo M. Tavares, mas valorizou o sentimento de pertença à Europa e referiu um inquérito realizado em maio deste ano, onde se perguntava se as pessoas se sentiam europeias e 63% dos portugueses afirmou que sim, valor idêntico à média europeia, enquanto na Grécia menos de 50% da população tem esse sentimento.

Assim, João Proença considera que “um dos valores fundamentais da Europa é que todos os países são democráticos” e que “a nossa adesão teve esse benefício, de consolidação da democracia”.

Os três convidados lamentaram o facto de o norte da Europa ser um espaço cada vez mais fechado à multiculturalidade e à multietnicidade, por via do medo de que os seus sistemas sociais sejam afectados, ao contrário do que se verifica no sul da Europa, onde essa multiculturalidade e multietnicidade é valorizada e aceite.

 

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D. Manuel Clemente

“Devemos saber os europeus que vamos sendo, e não os que somos.”

“Estamos numa Europa muito mais colorida, em todos os aspetos.”

“Alguém que está doente ou tem fome não pode participar de forma livre no espaço público.”

“A Europa é uma entidade muito dinâmica. Sentimo-nos mais europeus quando vimos de fora do que quando estamos cá dentro.”

“Temo que a urgência dos problemas económicos possa ofuscar a urgência do encontro de culturas.”

 

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Fundação Francisco Manuel dos Santos

Criada em 2009 pelos descendentes de Francisco Manuel dos Santos, a fundação tem como principal objetivo estimular o estudo da realidade portuguesa, com o propósito de assim contribuir para o desenvolvimento da sociedade, o reforço dos direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) toma a iniciativa e patrocina projetos de várias naturezas. Por exemplo, projetos permanentes (como a PORDATA, Base de Dados Portugal Contemporâneo ou a coleção "Ensaios da Fundação") e projetos com duração determinada. Estes últimos poderão ser isolados, sobre um tópico específico; ou fazer parte de programas de conjunto, com estratégia e sequência.

O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, faz parte do conselho de curadores desta fundação, presidido por Alexandre Soares dos Santos.

texto por Nuno Rosário Fernandes, com Fundação Francisco Manuel dos Santos e AE
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