Entrevistas |
João Vasco Reis, autor do livro ‘O Sonho Comandou a Vida’
“Escutismo não é voluntariado, é serviço!”
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“Foram duros e dramáticos os primeiros tempos de escutismo católico português”, que depois “se desenvolveu de uma forma imparável na região de Lisboa e em todo o país”, assegura o autor do livro que faz a história do escutismo na Região de Lisboa. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, João Vasco Reis garante que “o Escutismo veio oferecer à juventude portuguesa uma proposta de educação completamente nova, verdadeiramente cativante e atraente”.

 

É autor do livro ‘O Sonho Comandou a Vida’, que faz a história do escutismo na Região de Lisboa. Como aconteceu a chegada do movimento à diocese?

Começo por dizer que o livro tem um título que poderá ser de algum modo redutor… não foi só o sonho que comandou a vida do Escutismo de Lisboa: foi a vontade e o querer, a perseverança e a fé, foi, enfim, a realidade e o acreditar nas capacidades e potencialidades da juventude portuguesa que levou o projeto escutista do Corpo Nacional de Escutas a bom porto. Em alguns sectores da Igreja portuguesa já se acreditava nisto, como em Braga, em 1923, e em Lisboa, em 1926… numa época em que pouca gente se preocupava com o futuro das crianças e dos jovens. Portanto, o título pode parecer redutor porque não diz tudo, nem podia dizer.

Mas, vamos à História: após a fundação do Escutismo mundial, por Baden-Powell, em Inglaterra, em 1907, logo cedo o movimento difundiu-se a nível internacional; em 1911 já haveriam alguns grupos de tendência escutista em Portugal, sendo certo que o primeiro grupo assumidamente escutista nasceu em Lisboa, em 1912, no seio da Associação Cristã da Mocidade, de índole protestante. Entretanto, o primeiro grupo oficializado em território português foi o de Macau, em 1911. Ao longo das décadas de Dez e Vinte, muitos foram os grupos, associações e pseudoassociações identificadas com o método de Baden-Powell que proliferaram um pouco por todo o país, mas só sobreviveram duas: a Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP) e a União dos Adueiros de Portugal (UAP), dos quais, mais tarde, só ficou a AEP.

Em 1923 é fundado em Braga, no dia 27 de maio, o Escutismo Católico Português, que, logo após a sua criação, rapidamente se espalhou por várias dioceses do país e, chegou naturalmente a Lisboa em 1926, tendo a respectiva Junta Regional sido filiada a 15 de dezembro desse ano. Curiosamente, o início do escutismo católico de Lisboa começou em Aljubarrota, aquando do 1.º Acampamento Nacional aí realizado, onde os futuros dirigentes lisboetas tiveram uma primeira experiência verdadeiramente marcante, que foi ponto de partida para galvanizar ainda mais os entusiasmos que já vinham a ser trabalhados na diocese.

 

Como foram os primeiros tempos de Escutismo em Lisboa?

Os primeiros tempos foram muito difíceis, em Lisboa e no país. Perante o regime político laico e mesmo anti-clerical da I República, a existência de uma associação confessional criou enormíssimos problemas tanto ao escutismo católico como à própria Igreja. Foram duros e dramáticos esses primeiros tempos, de absoluta resistência e quase clandestinidade. Por razões óbvias, a associação que, no início, tinha a denominação de Corpo de Scouts Católicos Portugueses, mudou o nome para Corpo Nacional de Scouts, por uma questão de estratégia. Mais tarde, na década de Trinta, ficaria com a actual designação: Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português.

 

De que forma é que o movimento escutista se desenvolveu pela Região de Lisboa?

Não obstante o clima de hostilidade e perseguição dos primeiros anos (como veio também a acontecer com o regime do Estado Novo, a partir da criação da Mocidade Portuguesa), o CNE desenvolveu-se de uma forma imparável na região de Lisboa e, de resto, em todo o país. E não eram essas as perspetivas, tratando-se de uma associação confessional, “subordinada” em vários aspetos a linhas de conduta próprias, assumido como movimento da Igreja Católica. Ou seja, foi-lhe diagnosticado uma curta vida. Mas desenvolveu-se, de facto, de uma forma imparável e, em Lisboa, da cidade, alargou-se para o interior, para o oeste e margem sul. A chamada “Região Escutista de Lisboa” acabou por dar origem a novas regiões escutistas, como foram os casos de Setúbal e Santarém. Além disso, foi em grande parte a partir de Lisboa que o escutismo se desenvolveu para Sul, foram os seus dirigentes que, de uma forma abnegada de espírito de serviço levaram o CNE ao Alentejo e ao Algarve.

 

De que forma a própria atividade escutista foi evoluindo ao longo dos anos?

O desenvolvimento da actividade do Corpo Nacional de Escutas é um verdadeiro “caso de estudo”, com uma evolução em número de elementos sempre crescente ao longo da sua história. Contra todos aqueles que, no Regime de Ditadura, procuraram asfixiar o CNE de uma forma assumida e oficial, e mesmo contra alguns setores da própria Igreja, que não compreendiam o alcance de um movimento de jovens como o CNE. A justificação é, na minha opinião, lógica: o Escutismo veio a oferecer à juventude portuguesa uma proposta de educação completamente nova, verdadeiramente cativante, atraente, um sistema de educação não formal, que procura formar ou educar as crianças, os adolescentes e os jovens de uma forma integral; ou seja, através do desenvolvimento de todas as suas capacidades físicas e intelectuais, nomeadamente o desenvolvimento do carácter e da personalidade, da saúde, da criatividade e habilidade manual e do sentido do serviço, a dimensão espiritual e a formação cristã, em harmonia e na natureza. Em suma, o Escutismo propõe-se a preparar devidamente o jovem para a vida. Por alguma razão o Corpo Nacional de Escutas é, de longe, o maior movimento de juventude organizado em Portugal.

 

Que paróquias se destacaram na expansão do escutismo pela diocese?

A etapa inicial do Escutismo em Lisboa começou inteligentemente pela formação dos adultos. A ideia foi “instruir primeiro os adultos para melhor educar as crianças”. E foi uma aposta ganha. Tanto assim que, oficializado em Lisboa em 1926, só em 1928, depois de devidamente alicerçada a formação dos dirigentes, é que são registados os primeiros Grupos paroquiais (que mais tarde mudariam o nome para Agrupamentos), na Estrela (Coração de Jesus), São Sebastião da Pedreira, São Jorge de Arroios, Sé (Santo António), Anjos-Olaias (Jesus da Boa Sorte)… refiro estes Grupos paroquiais pioneiros, em 1928, porque os “destaques” são muitos e todas as paróquias de Lisboa com agrupamentos escutistas têm, desde 1928, contribuído, à sua medida para o sucesso do Escutismo, ou melhor, para a educação integral da juventude.

 

E que sacerdotes ou leigos se destacaram em Lisboa?

Sacerdotes e leigos… a resposta sintética não é fácil, tantos foram os que tiveram, ao longo de quase noventa anos, um papel verdadeiramente notável na educação, no apoio e na assistência desta importante parcela da juventude lisboeta. Há um título num dos capítulos do livro – ‘Da tenda para o púlpito’ –, que desenvolve bem essa matéria no que respeita aos “padres-escuteiros”: quantos bons dirigentes a Igreja deu ao Escutismo e quantos futuros sacerdotes e bispos o Escutismo deu à Igreja!

Quanto aos leigos a dificuldade em referir alguns é enorme, porque estamos a falar essencialmente de um movimento de leigos, e foram tantos os que, ao longo destes 87 anos de Escutismo em Lisboa se destacaram pelo seu trabalho de serviço. É que Escutismo não é voluntariado, é serviço! Serviço desinteressado a uma causa. Podendo parecer estranho, tratando-se o CNE de um movimento de jovens e para jovens, temos de falar principalmente dos adultos, que foram, são e serão a base indispensável do Escutismo.

No que se refere aos sacerdotes, saliento somente alguns “históricos” (repita-se: alguns) dos muitos que na ótica do investigador se destacaram em Lisboa: Ernesto Sena de Oliveira, primeiro assistente regional em 1926 e que depois foi Bispo Auxiliar de Lisboa, Bispo de Lamego e “Arcebispo-Bispo” de Coimbra, um apaixonado pelo escutismo. Tomás Gabriel Ribeiro, médico, primeiro chefe regional em 1926, que depois de viúvo abraçou a carreira sacerdotal, monsenhor Ferreira da Silva, padre João Ferreira, padre Pedro Gamboa e tantos outros… depois, não podemos deixar de referir os nomes dos Cardeais Patriarcas D. Manuel Gonçalves Cerejeira e D. António Ribeiro, D. Ximenes Belo, Bispo de Díli, Timor Leste (Prémio Nobel da Paz), que foi escuteiro em Lisboa, bem como, de uma forma muito especial, D. Manuel Clemente, novo Patriarca de Lisboa, um exemplo de escuteiro, um exemplo para o Escutismo.

 

Alguns bispos têm manifestado o desejo de que cada paróquia tivesse um agrupamento de escuteiros. Este dado mostra a importância que a Igreja atribui ao movimento, concorda?

Eu respondo não só na ótica do investigador mas também como escuteiro e dirigente do CNE: tratando-se da maior associação de juventude organizada em Portugal, oriunda da própria Igreja e como movimento da Igreja, com o alcance, credibilidade e o reconhecimento que tem, esse desejo faz todo o sentido no objetivo da saudável educação dos jovens e no papel que a Igreja deve ter no futuro das novas gerações. O escutismo não é propriamente a “grande e única salvação” da juventude, mas é uma das melhores “escolas da vida”, um inquestionável contributo para um crescimento saudável e equilibrado das crianças, adolescentes e jovens.

 

A Região de Lisboa do CNE - Escutismo Católico Português tem atualmente 136 agrupamentos, integrando cerca de 13.100 jovens. Poderá o escutismo ser também uma forma de anúncio e de nova evangelização?

Na mesma perspectiva do investigador e do escuteiro, posso afirmar que o Corpo Nacional de Escutas é, desde o seu início, um instrumento, uma ferramenta de evangelização. Sempre o foi. É uma associação escutista, e, como tal, membro da Organização Mundial do Escutismo, e é, no que refere à Igreja portuguesa, um movimento de leigos. Mas não foi fundado por leigos. Foi criado na Igreja, no seio da Igreja portuguesa, em 1923, pelo Arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, e por monsenhor Avelino Gonçalves, com o apoio de uma série de leigos de então devidamente empenhados na evangelização, como foi o caso do primeiro chefe nacional D. José de Lencastre.

  

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Perfil

João Vasco Reis nasceu a 19 de setembro de 1963, na Rega, São Bartolomeu de Messines, concelho de Silves, Algarve. Licenciado em História, é investigador e publicou recentemente o livro ‘O Sonho Comandou a Vida’, que faz a história do escutismo na Região de Lisboa.

Iniciou a sua vida escutista em janeiro de 1979, no Agrupamento 181 (Paróquia de Silves). Fez a promessa de Dirigente do CNE em 22 de março de 1985 e tem desempenhado funções no escutismo a nível regional (Algarve) desde 1987. Qualificado com o CAF, passou a integrar, em 1989, o Quadro Nacional de Formadores do CNE. Foi assessor da Junta Central (Secretaria Internacional, 2005-2007). Atualmente é Chefe do Agrupamento 1331 – São Vicente, Marítimos de Carvoeiro (Paróquia de Lagoa, Algarve) e secretário do Conselho Fiscal e Jurisdicional Regional do Algarve.

Entre as obras publicadas, destaque para ‘Pistas ao Sul - História do Corpo Nacional de Escutas no Algarve, 2001’, ‘A Igreja da Misericórdia de Alcantarilha – História e Património, 2005’, ‘Corpo Nacional de Escutas – Uma História de Factos, 2007’ e ‘O Sonho Comandou a Vida’. 

 

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‘O Sonho Comandou a Vida’

A obra ‘O Sonho Comandou a Vida’ teve como base um projeto de investigação histórica sobre o Escutismo Católico Português na Diocese de Lisboa, para os 90 anos do Escutismo Católico em Portugal. Em 2007, ano do centenário do Escutismo Mundial, o investigador João Vasco Reis publicou o seu trabalho de investigação sobre a história do Escutismo nacional, editado pela Junta Central do Corpo Nacional de Escutas (CNE), com o título ‘Corpo Nacional de Escutas – Uma História de Factos’. O lançamento teve lugar em Fátima, no Verbo Divino, a 27 de maio de 2007, data do aniversário do CNE. O livro foi apresentado por D. Manuel Clemente, na altura já Bispo do Porto, que também fez o prefácio.

Nessa ocasião, a Junta Regional de Lisboa do CNE propôs a João Vasco Reis que encetasse um trabalho de investigação acerca do Escutismo na Diocese de Lisboa, que agora se concretiza. O resultado dessa investigação, que durou cerca de quatro anos, fruto de uma complexa e demorada pesquisa, materializa-se agora num livro, uma obra monumental de 616 páginas que conta a História do Escutismo Católico ao longo dos seus 87 anos na Diocese de Lisboa, Região que contribuiu decisivamente para a evolução e solidificação do Escutismo em Portugal. Com prefácio do Patriarca Emérito de Lisboa, Cardeal D. José Policarpo, o documento agora editado foi lançado a 27 de maio de 2013 (90º aniversário do Corpo Nacional de Escutas), na sede nacional do CNE, em Lisboa, com apresentação do Bispo Auxiliar de Lisboa D. Joaquim Mendes, juntamente com o chefe nacional do CNE, Carlos Alberto Pereira, e o chefe regional de Lisboa, José Carlos Oliveira. É ilustrado com centenas de fotos e documentos, muitos deles raros e inéditos, constituindo um contributo histórico e sociológico para o estudo da Juventude e dos movimentos da Igreja em Portugal e das suas diversas relações, ao longo do século XX e início do XXI.

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