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Vocações: irmã Maria Emanuel celebra 50 anos de vida religiosa
Ser dom de Deus
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Sempre foi uma jovem ativa na Igreja. Chegou a estar noiva, mas a voz de Deus fez-se sentir mais alto. Neste 50º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o Jornal VOZ DA VERDADE dá a conhecer o testemunho da irmã Maria Emanuel, que ao fazer 50 anos de consagração continua a ser missionária, agora nas redes sociais.

 

Bem no centro da cidade de Lisboa, na Rua Chaby Pinheiro, ao Campo Pequeno, fomos encontrar uma comunidade religiosa formada por 22 irmãs, de idade avançada, mas com um ânimo de fazer inveja a muitos. Nos corredores, respira-se a tranquilidade de um convento que vive pela força da oração e da missão que ainda se pratica. No pátio desta casa, que é a Comunidade Provincial das Franciscanas Missionárias de Maria, somos recebidos pela irmã Maria Emanuel. Tem 76 anos, um ar jovial e muitas histórias de vida para contar. Durante o primeiro contacto telefónico, pergunta-nos: ‘O senhor padre tem Facebook?’. ‘Sim’, respondemos apressadamente. Perante a surpresa da pergunta, percebemos, depois, que naquele convento, as redes sociais são lugar de missão de quem já não pode sair de casa.

 

Ser um outro Cristo

No passado dia 19 de março, a irmã Maria Emanuel celebrou 50 anos de consagração. Uma vida de entrega e de disponibilidade marcada pela escolha do nome religioso. Embora tivesse sido batizada com o nome Maria Amélia Pinto Lopes, todos a conhecem como irmã Maria Emanuel, nome que adoptou no noviciado. "Sei porque tomei este nome", diz ao Jornal VOZ DA VERDADE. "Levei muito tempo a escolher este nome, mas escolhi-o porque achei que a minha vocação era ser um outro Cristo.  Esse atrevimento fez com que eu escrevesse numa folha de 25 linhas a palavra Emanuel, do princípio ao fim. Entreguei essa folha e no fim deram-me o nome, Emanuel, Maria Emanuel do Tabor", relata.

 

O ‘primeiro’ chamamento

A irmã Maria Emanuel nasceu em Moçambique, em 1937, onde viveu até aos 25 anos, momento em que entrou no Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria. Conheceu aquele instituto quando ainda era criança. Aos 4 anos, depois de uma passagem por Portugal, após o falecimento de seu pai, regressou com a mãe a Moçambique. Para que a filha pudesse ter uma educação, a sua mãe optou por ficar na cidade, "rejeitando a oportunidade que teve de outros trabalhos", conta. Aos nove anos entrou num colégio daquela congregação, permanecendo nele até ao fim do tempo de liceu. "Fiz lá todo o liceu", destaca a irmã Maria Emanuel. "Tendo terminado o curso geral dos liceus, eu sabia que não ia fazer qualquer curso superior porque a minha mãe era viúva e eu filha única. Por isso, não me iria enviar para Portugal para estudar", refere.

Nessa altura, manifesta, pela primeira vez, a vontade de partir em missão, mas não foi compreendida. "Tinha 18 anos e disse à minha mãe que queria ser missionária. Depois de uma noite de choro, a minha mãe respondeu-me: 'Eu só quero que tu sejas feliz mas tu não sabes o que queres. Estiveste sempre num colégio, protegida e agora acho que é tempo de fazeres uma experiência de vida. Depois falamos mais tarde...'”, lembra. “Esse ‘mais tarde’ fez com que eu entrasse apenas quando tinha 25 anos", salienta a irmã Maria Emanuel.

 

O absoluto de Deus

Nesse intervalo de tempo e até ao momento de entrada na congregação religiosa fez, então, uma experiência de trabalho, na secretaria de uma empresa de caminhos-de-ferro. Sobre a sua vocação à vida religiosa considera que foi algo que se foi formando com o tempo. "Não é uma coisa que aconteça de repente”, salienta. “É um caminho que se foi fazendo e que mais tarde me levou à conclusão de que a vida missionária era para mim. Na escola, toda a formação que recebi fez-me despertar para o absoluto de Deus, que sempre mexeu muito comigo", observa a irmã Maria Emanuel, referindo que também tiveram um papel importante na sua vocação as leituras espirituais que fez de Santa Teresinha do Menino Jesus e das mártires franciscanas na China.

 

A ‘Voz’ definitiva

Chegou a estar noiva mas sentiu que o chamamento de Deus a uma vida de consagração religiosa era mais forte. "Nesse momento, senti nitidamente que de facto a minha vocação era o absoluto de Deus”. A sua participação em movimentos da Ação Católica fizeram despertar a jovem Maria Amélia para a dimensão da igualdade e da libertação. Estes "eram para mim valores muito fortes. Eu estava muito marcada pelos valores do Ver, Julgar e Agir", conta. Segundo refere, hoje, esta religiosa, isto aconteceu ainda no tempo de D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Arquidiocese da Beira, em Moçambique. “Ele, que sabia da minha indecisão, ainda tentou apresentar-me a dimensão da vida laical consagrada, que naquela época tinha começado na Igreja", revela. No meio das dúvidas, Maria Amélia Pinto Lopes decide entrar no instituto das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria.

 

Espiritualidade franciscana

A atração desta jovem pelo Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria, fundado em 1877 por Maria da Paixão, uma jovem de nacionalidade francesa, acontece pela espiritualidade fundamentada em São Francisco de Assis, e da "maneira simples e próxima" de se afirmar.

Enquanto jovem, Maria Amélia já vivia um compromisso de vida cristã, que passava também pelo gosto de comunicar, e nesse entretanto fez o pedido formal para entrar no instituto missionário. "Eu trabalhava na rádio, fazia programas.... tinha uma vida muito comprometida com a Igreja e com o meio. Fiz o pedido, Roma aceitou a minha proposta e propôs-me fazer o noviciado em Roma. Eu não coloquei qualquer condição. Apesar de haver também noviciado em Moçambique, na antiga cidade de Lourenço Marques, eu disse que fazia o noviciado em qualquer lugar. Num segundo momento propuseram-me França. Ambos eram noviciados internacionais. Assim eu fui. Parti para França". Em março de 1963, iniciou o seu caminho na vida religiosa.

 

O carisma do instituto

Ao jeito de Francisco de Assis, o instituto "que é contemplativo ativo"  procura viver o seu carisma "numa atitude simples, de serviço, de humildade, de estar com os outros", explica a irmã Maria Emanuel, salientando que naquele instituto encontrou um lugar para sua "maneira de ser". "O lema da fundadora é 'a verdade pela caridade' e este é um tema muito forte na busca do absoluto", destaca.

Segundo esta religiosa, o Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria tem por base o franciscanismo e a presença de Maria "pelo seu' fiat', ou seja, o faça-se". E esta, sublinha, é uma dimensão que "está muito presente" na sua vida. "Há muitas coisas que aconteceram na minha vida que eu não sei explicar", testemunha esta irmã. "Eu não pergunto porquê, nem como, simplesmente aconteceram".

 

No tempo do Concílio

O noviciado desta irmã realizou-se em pleno tempo de mudanças na Igreja. O Concílio Vaticano II trouxe, segundo esta religiosa, uma “capacidade de relação”. "Eu já fiz toda a minha formação em grupo, em equipa", refere salientando que esta modalidade ainda não se fazia na Europa mas no instituto onde estava "já se começava a fazer". “A preparação para os votos, a caminhada, foi feita em relação. Havia uma caminhada feita em comum”, lembra.

Por outro lado, destaca o facto de ter vivido o período mais atribulado daquela época, inclusive o Maio de 68, que viveu em França. Sobre estes momentos, considera que provocaram um "certo desequilíbrio" para quem estava dentro da Igreja, levando a abandonos, até mesmo de religiosas. Mas para outros, considera que "foram momentos de afirmação da fé". Por isso diz que é preciso "saber ver aí tudo que de bom se pode tirar, como uma maior uma seriedade e maturidade na vida religiosa".

 

De Angola para Portugal

Depois de 18 anos em Angola, onde trabalhou na Rádio Ecclesia e viveu períodos conturbados, a irmã Maria Emanuel regressou a Portugal. Dedicou-se à animação missionária, juntamente com outros institutos, porque, “de facto”, sentia que a sua missão "era ser missionária". Esteve ligada às semanas missionárias que se realizam anualmente em Fátima, e outras que se vão realizando em diversos lugares. “Agora está a funcionar uma na Venda Nova da Amadora”, refere.

 

Missão pelo Facebook

Atualmente, e devido a um problema de visão do qual está a recuperar, foi obrigada a deixar estas atividades e, depois de ser hospitalizada, a ficar em casa. No entanto, a missão continua, mesmo em casa, utilizando as redes sociais. "Passo muito tempo no Facebook. Encontrei outro canal para comunicar", refere a irmã Maria Emanuel, explicando que, naquele canal, no meio de coisas menos sérias faz passar "outras mais sérias". A situação de doença fez vir ao de cima determinados medos, diante dos quais afirma ter "esperança" mas também proporcionou a possibilidade de fazer missão no hospital. "Foi um campo diferente onde o Senhor me pôs em missão, sem eu querer", releva confessando que também teve "momentos de escuridão", contra os quais lutou sempre acompanhada. "Houve uma senhora, companheira de quarto no hospital, que nem era de ir à Igreja mas embora tivesse tido alta hospitalar pediu para ficar mais uns dias para não me deixar sozinha. Também aí recebi dos outros e vi o que é o dom de Deus". 

 

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50 anos de consagração

Ao olhar para os 50 anos de consagração à missão, a irmã Maria Emanuel afirma: "Deus é que faz a missão. Eu não escolhi nunca nada. Eu percebi que o ser humano só entra verdadeiramente em diálogo fraterno se de ambos os lados houver oferta. Eu dou e recebo. O outro dá e recebe. Cada um dá, ao seu jeito, aquilo que tem. Mas tem de ter essa capacidade de poder oferecer. E enquanto isso não acontecer, não há diálogo”.

 

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O Papa Francisco e Bento XVI

Enquanto religiosa numa família de inspiração franciscana, a irmã Maria Emanuel sente-se satisfeita por hoje a Igreja ter um Papa de nome ‘Francisco’, nome que acredita ter sido "escolhido por opção do Espírito Santo", e que "quer encarnar Francisco de Assis". Esta atitude gera proximidade e "a Igreja, hoje, precisa dela", observou. No entanto, faz questão de frisar que não gosta menos de um Papa que de outro, referindo-se ao Papa Emérito Bento XVI. "Eu gosto dos dois!", disse ao Jornal VOZ DA VERDADE. "Ainda hoje saudei e felicitei Bento XVI pelo seu aniversário através do Facebook", acrescentou. "Eu acho que Bento XVI conseguiu através da capacidade da razão, chamar à razão, e fê-lo também através de uma atitude muito simples e humilde. Embora ele tenha uma terminologia que não é assim tão simples de compreender", reconhece.

texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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