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Quaresma
No deserto caminhar com esperança
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A Quaresma recorda-nos a experiência de deserto vivida pelo povo de Israel desde a escravidão até à terra daquele sonho que o animava e revitalizava. No deserto da vida de cada um e de todos, vivemos momentos de perplexidade provocada por uma austeridade cega.

 

Os sinais da desesperança

Para além dos discursos de pendor justificativo de uns, derrotista de outros, impõe-se-nos olhar para as pessoas, colocando-as no lugar que devem ocupar perante aqueles que conduzem os seus destinos.

O clamor das pessoas eleva-se de tom. Os discursos do Governo giram à volta de números, estatísticas, percentagens, avaliações técnicas. Parece – e não será? – que as pessoas são apenas mais uma variante de um processo técnico que as secundariza em favor de um modelo de sociedade onde o “mamon”(dinheiro-riqueza, na Bíblia) é o “deus” diante do qual todos se devem prostrar. Por outro lado, as vozes dos que se lhe opõem fazem-nos desconfiar se não estaremos a ser objeto de uma descarada demagogia. Escrevia José Nunes Martins em i-online: “Vivemos uma crise de verdade… A demagogia é a ferramenta com que se alcança o poder, que justifica o não cumprimento das promessas eleitorais e se alimenta a vida e a credibilidade das oposições”. A demagogia, venha ela do governo, venha da oposição, não é o serviço que ambos devem prestar ao povo que dizem representar. Como acreditar neles e olhar o futuro com alguma esperança, quando o dinheiro se torna mais escasso para garantir uma alimentação de base, os cuidados de saúde se tornam menos acessíveis, o sonho de uma população culta e educada se esvai, o natural apego à terra tem de ser vencido pela aventura da emigração, o legítimo sentimento de independência proporcionado por casa própria é destruído pelo imprevisto das novas contas?

Como ter esperança quando a dívida que cada cidadão carrega anda à volta de 20 mil euros, fruto de uma dívida pública do país que se multiplicou por 20 nos últimos 40 anos, segundo os cálculos do professor de Economia Pedro Vieira? Como ter esperança quando o número de crianças vítimas da mendicidade está a aumentar, transformando-as por acréscimo em vítimas de redes criminosas, segundo a conclusão do Observatório de Tráfico de Seres Humanos? A Caritas Europa alerta para os riscos das medidas de austeridade e afirma que a pobreza infantil anda ligada a essas medidas.

 

Ver, pensar e agir com esperança

Basta abrir os olhos para começar a pensar. Por isso, a Comissão Nacional Justiça e Paz, juntamente com as Comissões Diocesanas de Justiça e Paz da maior parte das Dioceses de Portugal, apresentam um documento de reflexão para esta Quaresma, à volta do tema “Ética nas Finanças”.

Verificando o esforço que se vai pedindo às comunidades para não fecharem os olhos às necessidades mais urgentes, o documento realça a necessidade de ir às causas profundas dos problemas, não se ficando numa atitude “assistencialista”, mas caminhando numa linha de “assistência social”, expressão que tem subjacente a noção de dignidade humana do beneficiário, a quem estão associados “direitos indeclináveis”. Tal visão conduz-nos a ver e a agir para inverter a “espiral recessiva” através de políticas que garantam o progresso económico que seja criador de emprego, o qual vai restaurar a dignidade, a liberdade e a autonomia da pessoa, que promovam uma mais justa distribuição do rendimento e da riqueza. Perante o insucesso do modelo de política económica seguido no ano de 2012 e a vontade de continuar com ele em 2013, o documento afirma que “O povo, as pessoas e as famílias não podem servir de objeto de experiência de políticas de sucesso altamente duvidoso”. Ao afirmá-lo as comissões afastam-se da “cumplicidade do silêncio”.

Bento XVI, no momento histórico da sua resignação ao cargo de Papa, nos lembra na mensagem da Quaresma que “a fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela” E onde não há justiça nem uma nem outra se encontram. Consequentemente não podemos deixar morrer o sonho da dignidade, rejeitando o todo-poderoso poder financeiro e impedindo-o de criar uma nova escravatura que arrasta e submete a si as pessoas, até para o bocado de pão de que necessitam.

texto por P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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