Quantos milhares de desalojados é preciso juntar para que o mundo fique chocado com o horror de quem perdeu tudo, para a tragédia de crianças recrutadas à força para milícias terroristas, para a multidão de famintos que, hoje mesmo, não sabem como sobreviver, nem o que hão-de dar de comer aos seus filhos? A Fundação AIS está a convocar o mundo inteiro para uma novena de orações em favor do povo do Congo. Isto também é consigo!
Vamos aos factos. A República Democrática do Congo, em África, voltou a ser notícia pelas piores razões. Os soldados do grupo rebelde 23 de Março (M23), ocuparam a cidade de Goma mas, entretanto, por causa da pressão internacional, já retiraram. O drama é que a sua passagem deixou um rasto de verdadeira tragédia. Os números são quase inacreditáveis: 1 milhão e 600 mil desalojados, cerca de 200 mil crianças em risco de violações, abusos e, até, de recrutamento forçado para as fileiras dos grupos armados que actuam na região.
A denúncia da Igreja
A Igreja não tem parado de denunciar esta situação. No passado mês de Novembro, os presidentes das conferências episcopais de África emitiram um comunicado conjunto em que se afirmam “indignados e chocados ao ver como a guerra desencadeada há alguns meses no leste da República Democrática do Congo está a espalhar-se, causando um novo drama humano”. Os prelados falam concretamente dos “milhares de homens, mulheres e crianças, vítimas de violência, de uma guerra que lhes foi imposta”, e que estão “colocados mais uma vez na profunda miséria, em Goma e seus arredores. Estão à mercê do clima, fome, violações e todos os tipos de violência. Trata-se de uma ofensa contra a dignidade dessas pessoas como seres humanos e filhos de Deus”, dizem ainda os prelados africanos. O próprio Papa referiu-se ao assunto, no início de Dezembro, apelando ao diálogo e à reconciliação na República Democrática do Congo, e pedindo à comunidade internacional para não ignorar a grave crise humanitária que se vive na região. “Continuam a chegar notícias preocupantes sobre o Leste da República Democrática do Congo. Grande parte de população não tem meios de subsistência, e milhares de habitantes foram obrigados a abandonar as próprias casas, para procurar refúgio noutro local.” Bento XVI renovou “o apelo ao diálogo e à reconciliação” e pediu “à comunidade internacional que multiplique esforços para responder às necessidades da população”.
Multidão de pessoas sem nada
E nós, que podemos fazer? A Fundação AIS colocou, desde há alguns anos, o Congo entre os seus países prioritários. Christine du Coudray, responsável internacional da Fundação AIS pelos projectos de ajuda a África, esteve no Congo precisamente poucos dias antes de a milícia rebelde ter ocupado a cidade de Goma. Christine veio impressionada com o que viu. “Vi, nas colinas que rodeiam Bukavu, uma multidão de pessoas sem tecto, vivendo nas condições mais básicas, e tudo isto num país em que morreram mais de 5 milhões de pessoas nos últimos 16 anos e que regista a quinta mortalidade infantil mais elevada em todo o mundo”.
A multidão de sem-abrigo a que se refere esta responsável da Fundação AIS são pessoas que fogem das regiões onde os conflitos armados são mais intensos e procuram alguma segurança.
Fogem da morte para deambular nas ruas, sem nada. E o pior é que, agora, na época das chuvas, tudo se agrava. Os poucos pertences que esta multidão de famintos arrasta consigo estão encharcados, revelam-se inúteis, são apenas um estorvo. Mas é, tantas vezes, tudo o que estas pessoas têm. “Com a entrada dos rebeldes na cidade de Goma, diz ainda Christine du Coudray, “aumentou o número de desalojados”.
Desalojados, no Congo, significa alguém que não tem refúgio, não tem comida, não tem acesso a medicamentos, não tem futuro. A única coisa que resta a estas pessoas é a fé num futuro melhor. Tudo o resto lhes tem sido negado.
Corrente de oração
“O grande drama, a grande catástrofe nesta região, diz ainda Christine du Coudray , “é a ausência total de respeito pelos seres humanos. É como se esta gente não existisse. Mais importante do que eles é o que se esconde debaixo da terra: os minerais tão cobiçados”. Há sempre uma razão que se esconde atrás das guerras. Enquanto a comunidade internacional não impuser ao Congo regras rígidas para o comércio justo das grandes reservas de minerais e de petróleo, os congoleses continuarão a ser apenas um estorvo. E nós, afinal, o que podemos fazer? Primeiro que tudo, rezar!
_________________
A Fundação AIS está a promover, a nível mundial, uma novena de oração entre os dias 16 e 24 de Dezembro a favor do martirizado povo do Congo. Em Portugal, também os mosteiros de vida contemplativa foram convidados a fazer parte desta corrente de oração. Cada um de nós tem uma missão especial a cumprir neste Advento: rezar pela população mártir do Congo.
Senhor, Pai Eterno, Criador do Céu e da Terra.
No Teu amor, Confiaste-nos esta terra do Congo.
Rogamos-te a paz no nosso país e que a guerra cesse.
Vê as nossas lágrimas derramadas pelos milhões de mortos!
Vê os nossos corações feridos pelas inúmeras famílias devastadas e destruídas!
Vê, em particular, o sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs
No Este do país, vítimas desta guerra ignóbil.
Não Permitas que este Congo, dom abençoado, legado pelos nossos antepassados,
Seja dividido e balcanizado!
Toca os corações daqueles que semeiam a morte e a desolação,
Ilumina os nossos governantes para que eles trabalhem
Pela manutenção da unidade do povo congolês e pela integridade do seu território
Fortalece e protege os destroçados pelo sofrimento!
Consolida a paz nos nossos corações e entre nós!
Firma a fé e a determinação do povo congolês
Na edificação de um Congo em paz, unido e próspero.
Em união com a Virgem Maria, Nossa Senhora da paz,
Suplicamos-te, em nome de Jesus Cristo,
Príncipe da Paz, que Contigo vive e reina na unidade do Espírito Santo,
Pelos séculos dos séculos. Amém.
(recitar diariamente)
_________________
Saiba mais em www.fundacao-ais.pt
![]() |
Tony Neves
A Festa da Apresentação do Senhor, a 2 de fevereiro, é a Jornada Mundial da Vida Consagrada. O Papa...
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
‘Volta à África central em quatro subidas e aterragens’ podia ser um bom título de crónica,...
ver [+]
|
![]() |
Guilherme d'Oliveira Martins
Javier Cercas aceitou acompanhar o Papa Francisco na viagem à Mongólia e o resultado é uma obra de antologia.
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Bangui assusta ao chegar, mas abraça ao partir. O aeroporto ainda obriga a imaginar os tempos duros da...
ver [+]
|