Ano da Fé |
Ano da Fé
Cardeal-Patriarca convida a reconhecer Cristo na cruz
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A diocese de Lisboa iniciou no passado dia 25 de Outubro o Ano da Fé. Numa celebração que encheu a Sé de Lisboa, de fiéis e sacerdotes, o Cardeal-Patriarca de Lisboa destacou as exigências que a fé implica para a vida dos católicos, em particular no que diz respeito à atitude face ao sofrimento. O Jornal VOZ DA VERDADE transcreve aqui o texto da homilia de D. José Policarpo.

 

1. Ano da Fé! Convite do Santo Padre a aprofundar a realidade da nossa vida. A fé é uma atitude exigente, que não nos oferece a experiência sensível das outras realidades, mas introduz na nossa vida uma realidade decisiva: a pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus feito Homem, que morreu por nós e venceu definitivamente a morte, fazendo-nos participantes dessa vitória. Ouvimos a Carta aos Hebreus: “A fé é um modo de possuir já aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem” (He. 11,1). E dessas realidades a primeira e decisiva é Jesus Cristo, Filho de Deus e Homem real, que nos convida a unirmo-nos a Ele para fazermos juntos a caminhada da vida.

Uma das fragilidades da fé é não vivermos esse realismo da pessoa de Jesus na nossa vida, Ele que uniu a nossa humanidade à Sua para caminharmos juntos em direcção à vida plena e definitiva. No encontro com Jesus Cristo, na fé, está sempre presente a esperança dessa etapa definitiva. Voltemos a meditar a Carta aos Hebreus que há pouco escutámos: “Necessitais apenas de perseverança, a fim de cumprirdes a vontade de Deus, e assim alcançardes o que Ele prometeu. Porque falta apenas um pouco e Aquele que deve vir vai chegar e não tardará” (He. 10,37-37).

 

2. A dificuldade deste realismo no reconhecer Jesus Cristo na totalidade de sentido da Sua existência sentiram-na os Apóstolos quando o Senhor ressuscitado lhes aparece. Para eles a humanidade do Homem Jesus tinha acabado no Sepulcro. Aquela figura que lhes aparece pode ser um espírito qualquer, mas não é o Senhor. E quais são os sinais que Ele, agora glorioso, usa para os levar a aceitar o realismo da Sua Pessoa e daquela aparição? Os sinais da Sua paixão. Diz a Tomé, o mais renitente em acreditar: “Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu lado. Não sejas incrédulo, mas crente” (Jo. 20,27). O Corpo glorioso do Senhor não podia ter as marcas do suplício da Cruz. Se Cristo as mostra é porque sabe, misteriosamente, que a identificação do ressuscitado passa pela identificação do crucificado.

É na Eucaristia, principal sacramento da nossa fé que este realismo da Cruz nos leva a encontrar o ressuscitado. “Tomai e comei, isto é o Meu Corpo entregue por vós”. “Tomai e bebei, este é o cálice do Meu sangue… derramado por vós”. Na Eucaristia, no mesmo acto em que, como povo sacerdotal, nos unimos a Cristo glorioso para oferecer a Deus Pai o sacrifício redentor, confrontamo-nos sempre com o realismo da Cruz. A Eucaristia celebra a actualidade do sacrifício redentor de Cristo e esse acontece na Cruz e encontra a sua plenitude na ressurreição. O Cristo que vem ao nosso encontro, na fé, que quer caminhar connosco até ao triunfo da vida, continua a ser o crucificado ressuscitado. É por isso que, na Liturgia, é obrigatório quer a Cruz presida ao altar da Eucaristia.

 

3. Como o Senhor mostrou aos Apóstolos ao aparecer-lhes depois da ressurreição, os sinais que nos dá para a sua identificação realista são os da Sua paixão: toca aqui nas minhas chagas e não sejas incrédulo. A nós diz-nos: se me queres encontrar glorioso na celebração eucarística, na adoração da Minha presença real no meio de vós, contempla a minha Cruz. Isto leva-nos a meditar sobre o papel da Cruz, da adoração da Cruz do Senhor na nossa caminhada de fé. Esta presença do crucificado na adoração do Cristo glorioso é própria da fé, isto é, de uma fase da nossa vida em que precisamos, para identificar o Senhor, do realismo de sinais sensíveis. E para o autor da Carta aos Hebreus, o justo vive da fé (cf. He. 10,38).

Viver da fé, encontrarmo-nos com Cristo, na fé, identificando a nossa vida com a d’Ele, leva-nos a ansiar pela plenitude da vida, mas também a viver a nossa cruz, a realidade do sofrimento da nossa vida, participando do amor, da coragem e da esperança com que Ele abraçou a sua Cruz. Não é por acaso que é nessa coragem de abraçar a própria cruz, que encontramos mais realisticamente o Cristo glorioso. É nessa experiência de dom e de oferta da nossa própria vida que cresce em nós, em alegria libertadora, a esperança da vida eterna, que outra coisa não é do que a vontade de, em toda a nossa vida, seguir o Senhor, agora e até ao fim.

Dessa identificação com o crucificado, brota a sabedoria, isto é, a compreensão da vida, da sua beleza e do seu segredo. Como dizia a primeira leitura, não a podemos encontrar nas coisas preciosas deste mundo; ela está ligada à plenitude de Jesus Cristo. “Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue” (Sab. 7,10-11).

 

4. Neste Ano da Fé, contemplemos a Cruz de Cristo, na ansia de participar na sua glória, e procuremos aí a luz, a força e o sentido da nossa caminhada na vida.

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 

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Nova Carta Pastoral: Atenção ao próximo é marca da fé cristã

 

A atenção ao próximo é uma marca da fé cristã para o qual o Cardeal-Patriarca de Lisboa convida os cristãos da Diocese de Lisboa neste Ano da Fé. Numa Carta Pastoral com o titulo 'A Peregrinação da Fé', publicada no passado dia 25 de Outubro e apresentada na celebração de abertura do Ano da Fé em Lisboa, D. José Policarpo  apresenta o “amor do próximo” como caminho para “o amor de Deus” e frisa que esta convicção é determinante na apresentação da mensagem da Igreja.

O Jornal VOZ DA VERDADE transcreve aqui alguns excertos desta Carta que já está disponível em www.patriarcado-lisboa.pt

 

“Viver um Ano da Fé supõe, necessariamente, aceitar a actualidade do Concílio como expressão da fé da Igreja e viver a nossa fé de forma que ela tenha esse “novo ardor” que nos há-de pôr a caminho em ordem à santidade e ao anúncio da salvação na nossa sociedade contemporânea”.
            “Durante este ano somos convidados a percorrer este caminho, em Igreja, onde nos apoiamos uns aos outros, aprendemos uns com os outros e nos fortalecemos mutuamente, sabendo que é o Senhor quem nos guia. O peregrino ainda não chegou ao 'santuário' que o atrai; pode perder-se no caminho, sofrer o cansaço e a tentação do desânimo. O peregrino deve manter o coração atento Àquele que o atrai e que é o motivo da sua caminhada; deve confiar humildemente que as agruras do caminho não impedem a chegada ao 'santuário'”.
  “Em Igreja diocesana, vamos continuar a nossa peregrinação da fé. Para vivermos este Ano como uma peregrinação da fé temos de, com humildade e verdade, ver qual é o nosso ponto de partida, quais as etapas deste caminho e qual o ponto de chegada que nos atrai”.
“Qual é o nosso ponto de partida, pessoalmente e como membros da Igreja? Qual é a nossa relação com Jesus Cristo? É uma relação de amor e de fidelidade? Acreditamos que somos um com Ele, membros do seu Corpo que é a Igreja? Como escutamos a sua Palavra? Aceitamos que Ele muda a nossa vida? Como celebramos a Eucaristia? Damos testemunho d’Ele aos outros homens nossos irmãos? Uma análise sincera do nosso ponto de partida, é exigida pela sinceridade da nossa peregrinação. Precisamos de fazer este exame de consciência em Igreja. O que Deus nos pede e nos dá é para cada um de nós, mas é prioritariamente para o seu Corpo, a Igreja que é o seu Corpo místico. Esta peregrinação só se pode fazer em Igreja”.
            “A fé, para quem entra pela primeira vez pela 'porta da fé', e para todos os que querem percorrer esse caminho novo, torna-se a surpresa da salvação”.
            “A fé é a resposta do homem a essa manifestação do amor de Deus. A fé traz consigo a esperança de vencer o pecado que nos separa de Deus e de reconstruir a intimidade com Ele”.
  “A Palavra de Deus é a grande protagonista da História da Salvação. Nela Deus revela-se como  Deus-amor; escutá-l’O é conhecê-l’O, não teoricamente, mas numa experiência de vida, porque a salvação é um caminho de redenção que exige uma nova maneira de viver. Deus revela-nos na sua Palavra o caminho dessa vida nova.
“A nossa peregrinação da fé tem de ser marcada por esta escuta de Jesus Cristo, da sua Palavra, da sua Pessoa, dos seus mandamentos, da sua promessa. (...)Neste Ano da Fé precisamos, antes de mais, que a Palavra seja proclamada com o ardor com que os Apóstolos o fizeram no dia de Pentecostes. A proclamação do Evangelho não é, apenas, o anúncio de uma doutrina, mas da Pessoa de Jesus. Só essa toca no coração e o transforma. Isto desafia todos os anunciadores da Palavra, sacerdotes, diáconos, leitores, catequistas. Que ninguém proclame a Palavra sem antes a ter meditado e rezado sobre ela”.
  “A fé é um caminho contínuo de conversão. Deus indica àqueles que acreditaram o caminho dessa vida nova, luta de todos os dias enquanto estivermos neste mundo. A indicação desse caminho faz parte da mensagem da Palavra de Deus, é vontade do próprio Senhor”.

“Na peregrinação da fé é fundamental tomar a sério os mandamentos, isto é, o caminho que o Senhor indica àqueles que O seguem. Vivemos num tempo em que facilmente se relativizam os mandamentos, contrapondo a nossa liberdade à Palavra de Deus, que encontra eco actualizado na palavra da Igreja. Viver o Ano da Fé exige de nós a coragem de praticar os mandamentos. Eles são o caminho da caridade, e não há fé viva sem caridade. 
“O primeiro mandamento “amar a Deus sobre todas as coisas” encontra na oração a sua expressão principal o que define a oração como uma expressão do amor. Aquele “novo ardor” da fé exprime-se na oração. Este Ano da Fé tem de ser desafio de aprofundamento da oração”.

“Na nossa Igreja de Lisboa faremos tudo para ajudar a descobrir a oração, escutando a Palavra. No novo Centro de Oração, em Sintra, em silêncio, tudo o que a pedagogia da oração nos pode dar será disponibilizado. É urgente, na nossa Diocese, aprender a rezar, pois isso significará aprender a celebrar, a deixar que o amor envolva a nossa vida, a esperar o encontro definitivo com o Senhor, na Casa do Pai”.

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