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A iniciativa de Deus
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Com esta reflexão inicia-se a publicação de 5 textos vocacionais que sairão no primeiro domingo de cada mês neste jornal Voz da Verdade. Eles procurarão apresentar traços essenciais do que é a vocação em sentido cristão, tantas vezes reduzida a noções tiradas do senso comum ou da perspectiva psico-pedagógica e social. Eles procurarão sugerir algumas prioridades que se oferecem aos pais, aos pastores, aos catequistas e a outros educadores para que a transmissão da fé às crianças, adolescentes e jovens realize a sua missão de educar para a vocação.

 

«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» (Jer 1, 5)

A vocação é muitas vezes entendida como escolha pessoal de uma forma de vida. Tal escolha assenta na opção pessoal de cada um, a partir dos seus gostos, jeitos, aptidões, sentimentos, desejos… É o direito a construir a própria vida segundo as suas escolhas… Na melhor das hipóteses, tentando ver de que modo “também se pode servir” a Deus nas opções tomadas, “encaixando” a vontade divina na vontade pessoal. Na hipótese menos benigna, prescindindo da vontade de Deus sob o argumento de que se Ele dá a possibilidade de dizer sim ou não, cada um pode escolher o que mais lhe interessar.

 

O texto do profeta Jeremias acima transcrito mostra-nos como tudo isto é falso. A vocação parte da iniciativa de Deus que torna possível a existência concreta de cada um. A vida é um dom de Deus que chama à existência. Sem essa iniciativa, não há vida. Todo o acto humano capaz de gerar vida recebe a fecundidade dessa iniciativa inicial e permanente de Deus. Sem ela, fica estéril. Com ela, torna-se resposta e cooperação com o dom divino. Algo semelhante acontece com a construção da vida: a iniciativa é de Deus que consagra, constitui, alarga, envia, completa. Sem acolher tal iniciativa para lhe responder, tudo o que cada um construir estará fundado sobre a areia e passará (cf. Mt. 7, 24-27). Pode ganhar o mundo inteiro mas acabará por perder a vida (cf. Lc 8, 36). Poderá oferecer coisas a Deus mas não receberá d’Ele a vida em abundância (cf. Jo 10, 10b). Acreditar e transmitir esta fé traz algumas apostas que urge fazer:

 

É preciso educar para a vida interior. Não basta ler a realidade com a lógica racional ou a emoção sentimental. Não chega relacionar-se com Deus por meio da religião natural. É necessário iniciar ao encontro com Cristo Vivo. É necessário ajudar a descobrir o Deus escondido que Se manifesta nos acontecimentos, nas palavras, nas pessoas… como um “Tu” que me convoca, me chama, me transforma, me leva por onde eu não iria por mim… e não como um “Ser superior e indiferenciado” que se confunde com os meus sentimentos, as minhas ideias, as minhas impressões, os meus sentimentos.

 

É preciso educar para o dom. Não basta levar cada um a ser autónomo, capaz de tomar decisões por si. É necessário ensinar a abrir-se a Deus e acolher a sua iniciativa. É essencial conduzir a decisões que sejam resposta ao dom de Deus. Só há vocação quando o encontro com Cristo deixa marcas que se vão tornando consequentes, criando unidade de vida, gerando uma direcção que é oferecida por Deus e seguida por quem é chamado. De igual modo, só há vocação quando essa resposta vai configurando uma vida que se torna dom de Deus para os outros. Quando a preocupação primeira do projecto de vida ainda é a realização pessoal, falta-lhe a densidade de uma vida que já se descobriu garantida no dom de Deus.

 

É preciso educar para a santidade. Não basta ter objectivos legítimos de felicidade e bem-estar. Isso é reduzir a vida recebida de Deus a uma realidade natural, sem plenitude nem horizonte maior que 70, 80 ou 90 anos. A vida de cada um está escondida com Cristo em Deus e vai-se manifestando de dia para dia à medida que cresce em frutos de santidade. Ser santo é muito diferente que ser impecável. Ser santo é aceitar que a vida de Cristo vá ganhando espaço e forma na vida pessoal: os sucessos e fracassos, as virtudes e defeitos, os gestos e atitudes – tudo ir oferecendo a Cristo, sem nada Lhe recusar. De modo que a vida de Cristo no cristão seja a experiência de uma vida abundante que nada nem nenhum outro pode oferecer.

 

É preciso educar para a vida em graça. Uma vida com o tamanho e a densidade acima descrita é obra de Deus no ser humano. Sem a graça divina, essa vida não cresce nem amadurece. É preciso iniciar na vida divina. A comunhão eclesial como corpo de Cristo, a vida transformada pela eucaristia e pela reconciliação, a iluminação pela obediência à palavra do Deus, o serviço realizado no nome do Senhor, a oração que revela o olhar divino sobre a vida e o mundo, a conversão diária como experiência de caminho quotidiano na companhia do Jesus e na força do espírito Santo… eis alguns instrumentos que urge oferecer na transmissão e educação da fé. Então a vida será verdadeira resposta vocacional à iniciativa divina e encontrará o tamanho e a profundidade de Cristo.

 

 

 

Padre José Miguel, Sector da Animação Vocacional
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