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Crise
À busca de milagres
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Quando as dificuldades parecem insuperáveis e a pessoa não se resigna perante as suas limitações, surge espontaneamente o desejo de que, contra tudo, o impossível aconteça, aconteça o milagre.

 

Não é esta a visão bíblica do milagre: no Antigo Testamento é visto como uma acção de Deus em favor do povo; nos Evangelhos aparece como um sinal do poder de Deus que se manifesta em Jesus para libertar o povo daquilo que lhe tira a alegria de viver. Por isso Ele apresenta um convite e uma proposta de vida, onde a pessoa nunca é substituída em nada daquilo que lhe compete.

 

O milagre que está em nós
Na situação que atravessamos, e que vai ultrapassando as piores previsões, nasce o desejo do milagre. E esta expressão até vai aparecendo uma ou outra vez para manifestar, não a intervenção transcendente, mas aquela capacidade inerente à pessoa e que a leva ao imprevisto em situações normais. No dia do lançamento do Movimento “Sociedade Civil Solidária” a Dra. Manuela Eanes referia o “milagre português dos anos 70”, quando um pequeno país conseguiu integrar mais de 500 mil cidadãos “retornados”, sem barulho ou convulsões. Nos comentários à última campanha do Banco Alimentar concluída no início deste mês e que recolheu 72.513 toneladas de alimentos, foi realçada a capacidade e a generosidade dos portugueses que, mesmo em tempo de crise, são capazes de partilhar. Barry Hatton no seu livro “Os Portugueses” cita o etnólogo Jorge Dias que oferece uma curiosa explicação da nossa maneira de ser: “No momento em que o português é chamado a desempenhar qualquer papel importante, põe em jogo todas as suas qualidades de ação, abnegação, sacrifício e coragem e cumpre como poucos. Mas se o chama a desempenhar um papel medíocre, que não satisfaz a sua imaginação, esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele”. E o mesmo o demonstra com o que observou nos últimos anos.

 

O milagre do possível
O milagre possível é aquele que está nas mãos de cada um e de todos, envolvidos nessa trama que é o viver em sociedade, numa dupla vertente: a pessoal e a da governação. Esta só existe em função das pessoas e elas são o suporte do poder. Em tempos difíceis há a tentação de diabolizar o compromisso sociopolítico, esquecendo que pode ser uma forma privilegiada de viver a caridade. A Doutrina Social da Igreja no-lo recorda, bem como princípios importantes para um correcto equacionamento dos problemas: a pessoa é o centro da vida económica e social, tem o primado sobre o trabalho e este o tem sobre o capital. Ninguém pode fugir da dimensão política da vida e das suas exigências: o cidadão não pode adormecer à espera de que do Estado tudo lhe venha; tem ele mesmo de agir e de exigir, quando não for de outra maneira, ao menos através do voto. Tem de agir tornando possível os pequenos ou grandes milagres do dia a dia, mas sem deixar que esses se transformem na almofada que suaviza e eventualmente neutraliza os conflitos sociais gerados pelas políticas movidas mais em função dos interesses de quem já está bem na vida do que em promover o bem comum. O escândalo dos salários milionários em contraste com as miseráveis condições de vida de uma grande parte da população, num claro retrocesso em termos de saúde, educação e satisfação de necessidades básicas, coloca-nos perante o inaceitável.

 

Fermento fora de prazo?
Por isso uma questão séria se põe aos cristãos: Como é possível que num país em que cerca de 85% dos habitantes se confessam cristãos (segundo o estudo do CERC), a pobreza continue a ser uma realidade com 330.000 beneficiários do RSI (segundo o último boletim do MSS), negando valores fundamentais como a igualdade de oportunidades, a justiça, a dignidade? Será que o Evangelho perdeu a força de fermento? 

Esta crise passará como todas as anteriores. Mas há uma coisa que não deveria passar: a oportunidade de dar um golpe nos mecanismos que perpetuam a pobreza, que acentuam as diferenças entre os poucos que muito têm e os muitos que lutam pela sobrevivência; a oportunidade de “inverter o curso do seu destino, fazendo apelo aos recursos do pensamento e da moral cristãos”, como refere o recente Comunicado do III Fórum Europeu Católico-Ortodoxo”. 

 

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Comunidade Vida e Paz

“Precisa-se urgentemente de leite”

 

A Comunidade Vida e Paz está com falta de leite para distribuir pelas pessoas sem-abrigo e famílias em situação de vulnerabilidade social que se encontram a pernoitar nas ruas da cidade de Lisboa.

Dado o aumento do número de pessoas abrangidas pela Comunidade Vida e Paz e dada a diminuição de donativos, as 510 pessoas sem-abrigo e famílias em situação de vulnerabilidade social correm o risco de ficar com parte da sua ceia comprometida. Diariamente, são distribuídos cerca de 150 litros de leite e mais de 1.000 sandes a quem recorre às carrinhas da Comunidade Vida e Paz.

Desde 1989, a Comunidade Vida e Paz vai ao encontro e acolhe Pessoas Sem-Abrigo, ou em situação de vulnerabilidade social, ajudando-as a (re)construir o seu projecto de vida, a recuperar a sua dignidade, através de um projecto integrado de prevenção, reabilitação e de reinserção.

Se pretende apoiar a Comunidade Vida e Paz neste momento de dificuldade poderá fazê-lo de diferentes formas:

Entregar leite na Sede:

- Rua Domingos Bomtempo, 7  1700-142 Lisboa

- Ligar para 760 50 10 20 e por cada chamada doa 1 litro de leite. (Custo da chamada de 0,60¤ + IVA)

 

A sua ajuda faz a diferença!

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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