DOMINGO XXXI COMUM
“Fazei e observai tudo quanto vos disserem,
mas não imiteis as suas obras,
porque eles dizem e não fazem.”
Mt 23, 3
“Uma das dificuldades que sinto em acreditar na Igreja provém da contradição de vida dos seus responsáveis.” Não foi a primeira vez que escutei algo parecido e tentei retorquir com a fragilidade humana, o hábito e a rotina, a tentação de poder, mas os olhos daquele meu amigo gravaram-se no meu pensamento. “Somos a “igreja santa e pecadora” e a ordenação não nos transformou, a nós padres, imediatamente em santos”, respondi. “Mas a coerência é condição vital para a credibilidade e não me custa aceitar que estamos todos a caminho: o que me custa é um ar de superioridade, o discurso que parece passar acima da vida, um amor muito dito mas pouco concretizado!”
É sempre perigoso estacionar num ponto de vista. Se não fosse o amor vivido e anunciado pelos cristãos não haveria Igreja. Mas podia ser melhor. Podia tocar-nos mais a todos. E as palavras de Jesus no evangelho de hoje serão sempre um exame de consciência a fazer por todos, especialmente aqueles a quem é confiado um serviço na Igreja. E, como padre sinto-o em relação a mim: o poder que me pode distanciar em vez de servir, a vaidade que posso cultivar para me elevar, os títulos que me podem encher de orgulho e me distinguem, são tentações quotidianas. É sempre a tentação do poder e, como dizia o psiquiatra Carl Jung, “onde reina o amor, não há vontade de poder, e onde domina o poder, falta o amor. Um é a sombra do outro.” Para Jesus o segredo está na descoberta de que todos somos irmãos e temos um mesmo Pai, que o maior é quem serve e que a humildade é o caminho. E porque é um caminho importa não desistir de aprender com Jesus e com os irmãos. E são tantas vezes aqueles de quem menos esperamos que nos ensinam como ser irmãos, e como amar verdadeiramente é tão simples e tão libertador!
Às vezes precisávamos que alguém nos mostrasse as figuras que fazemos quando nos “armamos” em superiores e irrepreensíveis. E o melhor que faríamos seria rirmo-nos das nossas figuras. Reli um comentário ao evangelho de hoje do P. João Resina (que saudades da limpidez das suas palavras!) e não resisto a partilhar uma parte: “era muito importante que os cristãos tivessem a coragem de nos [aos padres] interpelar se o que dizemos não tem jeito; ou porque ensinamos as nossas opiniões em vez da doutrina do Evangelho, ou porque fazemos estendal das nossas habilidades oratórias, ou porque cansamos os assistentes com homilias sem fim. (...) Nós, os padres precisamos de que as nossas comunidades nos ajudem com a sua fé, a sua amizade, a sua capacidade de nos apoiar ou corrigir.” Ser irmão é uma condição que se aprende, que cresce, que não depende da nossa escolha inicial mas que se fortalece com a comunhão, que torna real o amor. Vamos concretizar isto melhor?
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