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5º Domingo da Páscoa: ?Eu sou o caminho, a verdade e a vida? (Jo 14,6)
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Os textos de S. João que meditamos nos Evangelhos das eucaristias desta quadra pascal são de uma riqueza única e singular, dando a este tempo um sentido pleno de esperança que nos abre para um horizonte de eternidade, como sucede em todo o 4º Evangelho. Do texto deste domingo podemos retirar esta afirmação de Jesus em que, mediante 3 palavras, Ele afirma a sua missão ‘eu sou o caminho’, a sua identidade ‘eu sou a verdade’ e a sua pessoa ‘eu sou a vida’. Três palavras-chave que definem o sentido do mistério de Cristo e, ao mesmo tempo, conferem à vida cristã esta dimensão de procura e de busca de Deus que lhe empresta grandeza e eternidade.

Enquanto ‘caminho’ Jesus mostra-nos que a meta é o Pai e é por Ele e n’Ele que alcançamos a plenitude. Ele é o ‘caminho’ que trouxe até nós a glória do Pai e pelo qual subimos também para a mesma glória. Jesus não ousa apresentar-se como um modelo de procedimentos éticos ou de valores morais. Pelo contrário, a sua proposta é uma caminhada que se faz seguindo o seu testemunho de vida. Ele não se faz meta, mas apenas a estrada que até ela nos conduz. A palavra de Jesus é clara; Israel tinha um caminho que era a Lei; Deus abriu-lhe um caminho no deserto para que chegasse à Terra prometida, aquando do êxodo, e aplanou os montes e outeiros para que, no regresso da Babilónia, o povo alcançasse de novo a sua meta, a nova Sião. Habituados às distâncias e à aridez do deserto, bem como às encruzilhadas dos vales e à sinuosidade das montanhas, os Judeus sabiam, por experiência própria, como era difícil percorrer a Terra e alcançar o termo de uma qualquer viagem, mesmo quando programada. Na Palestina, as incertezas dos caminhos, as miragens do deserto e os perigos que lhes estavam associados, acarretavam consigo muitos obstáculos e faziam com que qualquer viagem fosse sempre um risco. Não acertar o percurso era correr para a morte, mormente quando se caminha por vales tenebrosos que tudo arrastam consigo na estação das chuvas. Agora, o ‘caminho’ já não é uma construção exterior, nem uma distância a percorrer, mas sim a pessoa do Filho que, enviado ao mundo para o salvar (Jo 3,17), identifica o Pai e nos introduz na comunhão com Ele. Há alguns anos atrás, uma notável canção de um grupo espanhol versava o tema do caminho, dizendo que este se faz andando, deixando assim entender que não há caminho que sirva para caminhar e que cada um, na sua subjectividade, fará o caminho que quiser. Entendemos-lhe o desejo, duvidamos da fraseologia e temos a certeza que na vivência cristã não é assim. Nós não fazemos o caminho; apenas o percorremos. O nosso itinerário da fé está feito; Jesus é Ele o caminho e a nós compete entrar nele e com Ele seguir estrada fora ao encontro do Pai. É porque Ele é o caminho que ninguém ‘vai ao Pai se não por Ele’ (Jo 14,6). Mas para isso, há que conhecê-l’O, pois só conhecendo-O é que podemos chegar ao Pai e conhecer também o Pai (Jo 14,9). A beleza da fé está aqui; ela é o caminho que em Cristo nos conduz ao Pai. E esse caminho faz-se e perfaz-se em Cristo e com Ele.   

Afirmar-se como sendo a verdade é outra das propostas que Jesus faz de si mesmo no Evangelho de hoje e que depois confirmará ao apresentar-se diante de Pilatos no momento da condenação. Com isso quer, certamente, afirmar que a verdade que proclama não está encerrada no discurso lógico nem na procura científica; muito para além disso, a verdade é Ele mesmo enquanto testemunho do Pai e do amor Deus pelo mundo. No nosso quotidiano, sempre nos interrogamos: onde e como encontrar a verdade? A verdade da cultura grega deixava satisfeita a razão; a verdade de que Cristo é a proposta confere um sentido à vida e preenche os anseios do coração humano que, como dizia Agostinho, ‘só em Deus encontra o seu verdadeiro repouso’. Por isso, afirmar-se como sendo a ‘verdade’ é testemunhar que esta é a forma de Deus ser para o mundo, Aquele que dá sentido ao coração do homem.

Desta forma, a verdade se unifica à vida, não havendo vida cristã que não seja ela mesma um renascimento em Cristo. Assim o entenderam os primeiros crentes, para quem a experiência do Ressuscitado era a plenitude da vida. O ‘homem novo’ nasce exactamente deste encontro com Cristo que é a plenitude da verdade e se faz plenitude de vida no próprio caminhar em Cristo. O tempo pascal é esta plenitude de tempo de caminhada: caminhada na vida e caminhada na descoberta de Cristo ressuscitado. O evangelho deste domingo, em que Cristo se apresenta como caminho e vida, não é apenas a expressão daquilo que Ele é na sua doação ao mundo; é também o Evangelho da nossa identidade ‘peregrina’ de crentes que vão descobrindo a presença do Senhor ressuscitado nos sinais da vida e muitos são esses sinais. O sentido do peregrinar não está apenas no ‘fazer caminho’; o sentido do nosso peregrinar está essencialmente na busca que dá sentido à nossa esperança que é Cristo o verdadeiro caminho que nos conduz ao Pai. Só por Ele e com Ele podemos lá chegar, pois só n’Ele é que cada homem se faz ‘peregrino da Eternidade’.

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