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O drama do Uganda que o mundo esqueceu: quanto custa salvar uma criança-soldado?
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Todas as guerras são cruéis. As guerras civis são particularmente violentas e arrastam consigo uma memória que não se extingue. No Uganda, há uma cicatriz que nunca mais tem fim. Após mais de vinte anos de conflito, há ainda crianças-soldado que é preciso resgatar para a vida.

“Deixámos de ser crianças. Foi-nos dada uma arma que era para matar o inimigo, era o que nos diziam. Então, não pensávamos em matar pessoas mas em matar o inimigo.” As palavras são de China Keitetsi, hoje com 33 anos. Keitetsi teve sorte, apesar de tudo: sobreviveu aos horrores da guerra. O ano passado esteve em Portugal, a convite da Amnistia Internacional, e contou a sua história. Não é possível ficar indiferente às suas palavras nem ao seu olhar, tantas vezes inexpressivo, de quem parece que já não tem dor, de quem já secou as lágrimas.

 

Vítima de abusos

Recrutada à força para alimentar a ferocidade dos combates no Uganda, Keitetsi foi vítima de abusos constantes pelos seus superiores militares e chegou a engravidar duas vezes. A primeira, tinha apenas 13 anos. Hoje, admite sentir-se “envergonhada por um dia ter empunhado uma arma”, e revelou não ter ódio às pessoas que lhe “fizeram mal”, mas também não sentir amor por elas. As suas palavras não podem deixar ninguém indiferente: “Está lá parte da minha vida, mas se odiamos, torna-se parte de nós. Torna-se doloroso, é frustrante e não se consegue ser feliz porque se gasta toda a energia a odiar”.

 

Sementes de reconciliação

Muita gente no mundo desconhece este drama, ignora esta realidade. Há tantas guerras a alimentar os telejornais que se perdem conta a todas as histórias. E, no entanto, todas elas são irrepetíveis, são chagas que não se podem esquecer. No Uganda, há um nome a apontar nesta tragédia: o Exército de Resistência do Senhor (LRA), responsável por tantas atrocidades. E há uma organização a apoiar: a Fundação AIS. No Uganda, os padres e as irmãs apoiados pela Fundação estão agora a lançar as sementes da reconciliação, sarando feridas abertas, permitindo que as famílias se reúnam, que as antigas crianças que foram soldados, que viram as suas infâncias serem roubadas ao som dos tiros das metralhadoras, sejam agora resgatadas para um tempo de paz e de amor. Mas como fazer isso? Incentivando-as a perder o medo e a regressarem a suas casas. E que melhor maneira para se fazer isso, em África, do que através da rádio?

 

A rádio que faz milagres

“Robert, gostamos muito de ti. Volta para casa. Teus pais, irmãos e irmãs.” São mensagens como esta que são difundidas no programa infantil da estação católica RADIO WA, na Diocese de Lira, no Norte do Uganda. São dirigidas às crianças que foram raptadas pelos rebeldes do LRA e abusivamente usadas como crianças-soldado. Um grande número de crianças sobreviventes não se atrevem a voltar para casa, porque os rebeldes as forçaram a mutilar ou matar especificamente os habitantes das suas aldeias de origem e mesmo familiares próximos, ou a reduzir a cinzas as suas casas. Desta forma, quiseram tornar o seu regresso impossível. Outras crianças não ousam escapar aos seus carrascos. A Igreja quer encorajar estas crianças a regressar às suas famílias. As antigas crianças-soldado que conseguiram fugir falam da sua nova vida no programa para crianças “Karibu” (Bem-vindo), a fim de encorajarem as suas companheiras de infortúnio.

 

Vida nova

Estas emissões são ouvidas mesmo no mato. Com o passar do tempo, mais de 1.500 crianças-soldado fugiram do cativeiro porque a RADIO WA as ajudou a acreditar numa nova vida. Isto provocou a fúria dos rebeldes, de tal maneira que em Setembro de 2002 atacaram a rádio emissora e incendiaram-na sem hesitar. Contudo, o emissor continuou operacional e a “nossa rádio” (tradução exacta do nome da rádio) continuou até ao presente a emitir os seus programas, cujo objectivo é contribuir para a paz e a reconciliação no Uganda. Ajudar a manter este programa de rádio pode ser a única solução para dezenas de crianças que ainda não sabem o que é viver em paz.

 

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Ajudar a Fundação AIS

China Keitetsi disse-nos, quando veio a Portugal contar a sua história, que, por vezes, sente-se criança. Outras vezes, sente-se “muito velha”. “Não me consigo imaginar uma menina. Muitas mãos me tocaram, antes mesmo de ter 16 anos e, à medida que se cresce, nunca se esquece, nunca”, garantiu. Infelizmente, há muitos meninos e meninas que precisam de ser resgatados do desamor. A Fundação AIS precisa de melhorar o equipamento do transmissor e a formação dos colaboradores da rádio, porque se trata de um investimento que leva esperança à população.

 

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