‘Na verdade, ainda não tinham entendido que Ele
devia ressuscitar dos mortos’ (Jo, 20,9)
A celebração da Páscoa, centro de todo o mistério da vida cristã, constitui uma óptima motivação para nos recordarmos que esta vivência pascal vai muito para além de uma simples profissão de fé nem se limita a um mero assentimento a uma fórmula do nosso credo. O que celebramos, não deixou apenas a sua marca na história enquanto tal; é muito mais que isso. A celebração pascal define a identidade da nossa cultura e é ela que dá sentido ao próprio projecto de uma existência cristã que se assume no mundo com um rosto e um horizonte específico. Marca de uma cultura, a bíblico-judaica, a Páscoa cristã assume essa dimensão cultural e confere à História e ao Homem um novo horizonte que lhe abre as portas da eternidade.
1. A Páscoa judaica
A festa da Páscoa (Pesah) é de todas a mais significativa do calendário judaico e a primeira de todas as ‘festas’ em que o povo de Deus celebra a Aliança. Os textos alusivos a esta solenidade que chegaram até nós mostram-nos duas tradições muito fortes que se misturam e entrecruzam ao longo da história bíblica; falam-nos de origens nomádicas (tradições pastoris) e da experiência da saída do Egipto (tradições do Êxodo). Estas fontes podem ter existido separadas e durante muito tempo, tendo depois sido cruzadas e elaboradas como uma narrativa conjunta. Desde cedo se constata que o cruzamento destas diversas tradições está ligado às escolas sacerdotais e teológicas que vão destacar a experiência do Êxodo, já que com a sedentarização na terra e a centralidade cultual no Templo de Jerusalém não fazia já sentido privilegiar a memória do nomadismo, mas antes realçar a acção libertadora de Yahwé que arrancou o Seu povo do Egipto, conduzindo-o para a ‘Terra da Promessa’. Com a experiência do exílio da Babilónia e o regresso a Jerusalém, constituindo-se então a comunidade eleita dos judeus ‘santos e sacerdotes’, as tradições da libertação do Egipto assumem ainda maior força e representam o verdadeiro padrão do Israel eleito que foi resgatado e que de novo retoma a sua caminhada na história.
2. A Páscoa cristã
É no contexto da Páscoa judaica que se enquadra a celebração cristã, em que a memória dá lugar ao acontecimento – a Páscoa de Jesus Cristo - e da libertação do Egipto, a casa da escravidão, surge a esperança da vida nova da ressurreição. Esse memorial está bem presente no texto de Ex 12,1-14 que serve de contexto à celebração da Ceia do Senhor, Quinta-Feira Santa cujo sentido pleno descobrimos na manhã da Ressurreição com o encontro do Sepulcro vazio, sinal de que a nossa esperança não se reduz ao sangue do cordeiro que marcou as portas dos israelitas para saírem do Egipto, mas sim ao sangue de Cristo, vertido na cruz e que nos reconcilia com Deus para uma vida nova.
É esta noite santa, a noite verdadeira em que chega o Messias já prefigurado nas quatro noites que fazem a memória da História da salvação, tal como nos são descritas pelo texto da homilia sinagogal do Targum Neófiti. Trata-se de um comentário de tipo midráshico que encontra o seu desenvolvimento a partir do facto do autor de Ex 12 referir 4 vezes o termo ‘noite’. Vejamos:
“Quatro são as noites que estão inscritas no livro das Memórias. A primeira noite Deus manifestou-se sobre o mundo para o criar. O mundo era confusão e trevas. As trevas cobriam o abismo. A Palavra de Yhawé era a luz e brilhava. Chamou-se a primeira noite.
A segunda noite, quando Yhawé apareceu a Abraão com a idade de 100 anos e a Sarah, sua esposa, com a idade de 90 anos, para realizar a Escritura que diz: Será que Abraão, com 100 anos de idade, vai gerar e Sarah, sua esposa, com 90 anos, vai dar à luz? Isaac tinha 37 anos quando foi oferecido em sacrifício sobre o altar… Chamou-se a segunda noite.
A terceira noite Yhawé apareceu aos egípcios no meio da noite: a sua mão matou os primogénitos dos egípcios e a sua direita protegeu os primogénitos de Israel para que se cumprisse a Escritura que diz: Meu filho primogénito, é Israel… Chamou-se a terceira noite.
A quarta noite o mundo chegará ao seu fim para ser destruído; os jugos de ferro serão destruídos e as gerações perversas serão aniquiladas. Moisés subirá do meio do deserto e o Rei Messias virá do alto. Um caminhará à frente do rebanho e o outro caminhará à frente do rebanho e a sua Palavra caminhará entre os dois. Eu e eles caminharemos lado a lado. É a noite da Páscoa para a libertação de todo Israel”.
3. A teologia pascal
A teologia da celebração pascal incorpora em si três grandes perspectivas que unificam toda a História da salvação e que só à luz do mistério pascal de Jesus Cristo assumem o seu pleno significado:
.Sentido messiânico-escatológico da celebração pascal
A festa actualiza a saída do Egipto na vida da comunidade e, ao mesmo tempo, antecipa a libertação definitiva. A simbologia dos ritos festivos tem uma dimensão escatológica, prefigurada no vinho do banquete messiânico, o banquete da nova Aliança. Esta dimensão messiânica estava presente na tradição de ‘os habitantes de Jerusalém convidarem os pobres para a refeição pascal, já que Elias se manifestaria sob a forma de um pobre, antes do advento do Messias que devia acontecer na noite pascal’.
Esta perspectiva escatológica da festa é aquela que melhor se coaduna e que integralmente foi assumida pela liturgia cristã. De acordo com os Evangelhos Sinópticos, o próprio Jesus tinha consciência da dimensão escatológica da Sua ceia pascal, quando após a bênção da taça do vinho acrescenta: “Eu vos asseguro que já não beberei do fruto da videira até ao dia em que o beba de novo no reino de Deus (Mc 14,25)”. Jesus não só conferiu à refeição pascal com os discípulos este sentido escatológico, mas também a própria comunidade cristã primitiva encontrou aqui a ‘chave de leitura’ da vida do Mestre. O seu sangue, tal como o do ‘cordeiro pascal’, selou uma nova aliança, a aliança escatológica que fora proclamada pelos profetas e que agora se concretiza no mistério da sua Páscoa.
.A Páscoa como nova criação
O mês de Nisãn, o primeiro dos meses (Ex 12,2), era interpretado como sendo ‘um memorial da origem do mundo’ e a Páscoa, enquanto festa da primavera, era o memorial da nova criação que Deus realiza, libertando o Seu povo da escravidão para a liberdade. A leitura do Cântico dos Cânticos que era feita na liturgia pascal da sinagoga confere a esta celebração um sentido de ‘núpcias festivas’ entre Deus e o Seu povo e dessas núpcias nasce um povo novo, o povo da aliança. A simbologia dos ‘pães ázimos’ confere o significado de algo novo, original à celebração, determinando assim o começo de uma realidade que se inicia sem qualquer mácula, ou seja, em santidade. É essa novidade radical que nasce em Cristo, com a nova Comunidade crente, reconciliada, dando assim origem a um povo novo, não só a Israel, mas também a toda a humanidade, que se renova num dinamismo novo de libertação. É a passagem ‘das trevas à luz’, como nos mostra a liturgia da noite pascal ao recordar a noite da criação.
.Jesus é o novo Isaac
A liturgia judaica estabelecia uma estreita relação entre a festa da Páscoa e o sacrifício de Isaac. Esta relação é também assumida pela liturgia cristã que, na noite de Páscoa, retoma a leitura de Gn 22 como um dos momentos mais significativos da história da salvação e de pré-figuração do sacrifício de Cristo, o novo Isaac. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal, aquele que liberta o homem do pecado e que à semelhança de Isaac se entregou à vontade do Pai. Esta teologia fundada no sacrifício de Isaac foi desenvolvida pelos autores cristãos que a aplicaram ao sacrifício de Cristo, tal como nos mostra Melitão de Sardes no seu Peri Pascha. Em Isaac, Ele foi preso à coluna, que é o madeiro da crucifixão, tendo-nos resgatado das consequências da ‘árvore’ do paraíso pela nova árvore da Cruz.
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