Em meados do século XIX, era trágica a situação religiosa em Angola. A Sé estava vaga desde 1826. O período 1834-1873 é hoje analisado como crise e agonia da evangelização em Angola.
Em 1880, chega a Luanda o novo Bispo, D. José Sebastião Neto. Em 1882, devido à ausência do Governador-Geral, tem de assumir oficialmente o governo dessa Província. Envia um pedido formal à Superiora Geral das Franciscanas Hospitaleiras:
Sendo de tão reconhecida utilidade para a Religião e para o Estado os serviços […] o Governo desta Província solicita a Vossa Excelência a graça de enviar cinco Irmãs, a fim de lhes confiar a direcção de um Colégio de regeneração de mulheres degredadas. […] Não lhes faltarão muitos outros encargos em que poderão exercer a sua caridade.
É chegada a hora de alargar a tenda da Hospitalidade ao continente africano. Em Luanda, doentes, mulheres degredadas, nativos oprimidos, aguardam um gesto de ternura e de misericórdia das filhas da Mãe Clara. Esta não hesita enviá-las.
O novo Governador, Joaquim Ferreira do Amaral, escreve em Dezembro do mesmo ano à Superiora Geral, a comunicar-lhe que não concorda que Senhoras honestas e dignas tenham mulheres depravadas por companheiras e discípulas. Pede o prazer de ver que os doentes do hospital de Luanda são tratados pelas Irmãs Hospitaleiras com a caridade e abnegação que constituem a sua glória e a razão de respeito e consideração que lhes são devidas.
A Fundadora escuta tudo e todos. Assume transmitir o anúncio do Evangelho a todos os povos, culturas e condições sociais, pela prática das Obras de Misericórdia e pela vivência das Bem-aventuranças, mas nunca pelo espírito de competição ou poder. As filhas da Mãe Clara buscam a glória de Deus que, por herança, lhes dará o Reino dos Céus.
Em Fevereiro de 1883, a Mãe Clara envia para Luanda o primeiro grupo de Irmãs que ali vão assumir o cuidado dos doentes e a promoção das mulheres degredadas, cujos filhos ela acolhia com amor verdadeiramente maternal.
Que contraste entre o ponto de vista absolutamente humanitário e útil do Governador e o afectuoso amor das Franciscanas Hospitaleiras! Os sofrimentos são muitos, mas Deus tomará conta deles, escreve a Ir. São Bernardino; e a Ir. Patrocínio: Deus aperta, mas não esgana. A Irmã São Pedro partilha a graça de algumas mulheres degredadas se deixarem conduzir pela misericórdia de Deus a uma verdadeira regeneração. A Mãe Clara reconhece o trabalho árduo da Missão ad gentes, lembrando às suas Filhas a predilecção que por elas tem o Divino Esposo.
Ao martírio causado pela incompreensão do testemunho evangélico e por falta de meios espirituais, junta-se o de febres contínuas e doenças prolongadas. Contudo, da parte do público surgem gestos de reconhecimento: No primeiro dia em que as Irmãs Hospitaleiras tomaram a seu cuidado os doentes, fui visitar o Hospital e vi uma Irmã fina de trato junto ao leito de um preto que ela recostava ao peito e acariciava meigamente como o faria a mais terna das mães. O infeliz parecia moribundo. Quando dias mais tarde voltei ali notei a grande reforma que se ia operando nos enfermos, sob a acção benéfica da caridade cristã.
As Irmãs revelam consciência profunda da vocação missionária: Mas uma religiosa, por que aspira? É pelo Céu, que é a sua Pátria. Qual é a bolsa das suas riquezas? São as suas virtudes. Qual é a associação a que pertence? É a dos Anjos e Santos. Numa palavra, a quem pertence? A Jesus.
A fé inventa métodos de evangelização. Não conseguindo o Capelão entrar em diálogo com dois enfermos terminais muçulmanos, as Irmãs decidem usar linguagem simbólica. Oferecem-lhes uma medalha da Santíssima Virgem. Tendo sido recusada, colocam-na debaixo dos travesseiros. Na tarde desse dia, pedem a presença do Capelão. Recebem os Sacramentos com piedade e admiração dos doentes e pessoas do hospital. Num domingo, a Irmã Blandina reúne um grupo de crianças, as quais imitam todos os seus gestos durante a Missa. Ensina-lhes a fazer o sinal da cruz.
As Irmãs, no seu processo de inculturação, são como o dinamismo da encarnação da Igreja entre os povos nas mais complexas situações. Sonham abrir uma escola para educação das criancinhas. Com o coração dilacerado por tribulações, a Mãe Clara vê que ainda não é chegada a hora de assumir mais compromissos em Angola.
Aprovada a Constituição da República em 1911, as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras foram expulsas de Luanda pelo governo anticongreganista. Deixaram Luanda com um sofrimento gozoso, pois serviram com ternura e misericórdia, durante 28 anos, os doentes e as infelizes mulheres degredadas.
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