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Vaticano e Federação Russa estreitam relações: Encontro de Bento XVI com Kiril I está mais próximo
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Foi dado mais um passo significativo para a aproximação entre a Santa Sé e a Federação Russa, numa caminhada encetada por João Paulo II e que vai dando os seus frutos. A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) é uma das organizações dependentes do Vaticano que mais tem colaborado para manter viva a chama da unidade, com o apoio que desde o primeiro momento tem vindo a ser prestado na formação de seminaristas ortodoxos e no apoio às necessidades mais básicas que se colocam aos irmãos do Leste.

Foi já a 17 de Fevereiro que Bento XVI recebeu em audiência o presidente da Federação Russa, Dmitri Medvedev, mas ainda agora se escutam ecos positivos de um encontro que correu bem e que está a acelerar as relações entre o mais pequeno e o maior Estado do mundo em extensão geográfica. "Bem-vindo, presidente. Este nosso encontro é muito importante”, disse o Papa ao saudar o Chefe de Estado. Esta visita é significativa até por se tratar da primeira deslocação oficial de Medvedev ao Vaticano depois da instauração das plenas relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Rússia. Na nota final emitida pela sala de Imprensa do Vaticano, “reconheceu-se a ampla colaboração entre a Santa Sé e a Federação Russa, tanto na promoção dos valores específicos humanos e cristãos quanto no âmbito cultural e social. Destacou-se ainda a contribuição positiva que o diálogo inter-religioso pode oferecer à sociedade".

 

O sonho de João Paulo II

Muito se caminhou já no degelo das relações entre o Vaticano e a Rússia desde que a 1 de Dezembro de 1989 se fez história com a visita a João Paulo II do então (e último) secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachov, o homem da “perestroika” e do “glasnot”. Desse encontro foi lançada uma importante semente para o desmoronamento do bloco de Leste e para a queda do Muro de Berlim que dividia o mundo.

No entanto, o encontro do chefe da Igreja Católica com o líder da Igreja Ortodoxa Russa tem deixado o mundo à espera. No tempo do anterior patriarca de Moscovo e de Todas as Rússias, Alexis II, as relações entre Roma e Moscovo eram gélidas. O grande sonho do Papa João Paulo II de se reunir com Alexis II - num terreno “neutro” se fosse necessário - nunca se tornou realidade por causa da recusa do patriarca.

 

Desconfianças antigas

Esta recusa tinha como justificação a desconfiança de Alexis II sobre o Papa eslavo e por causa do que ele afirmava ser o “proselitismo católico” nas terras da então União Soviética. Alexis II por mais de uma vez, em entrevistas ou intervenções, fez alusão à que chamava a “ampla estratégia expansionista da Igreja de Roma”. “A parte católica sempre fala da presença de uma enorme quantidade de 'não crentes' na Rússia, que constituiriam uma espécie de terreno propício para a missão, uma massa que está em perene espera da chegada dos 'trabalhadores' católicos. É uma ideia inaceitável para a Igreja Ortodoxa”, afirmou o patriarca numa dessas entrevistas.

Para aumentar a desconfiança do Patriarca de Moscovo, refira-se que, na Ucrânia, após a derrocada soviética foi possível assistir ao renascimento da Igreja Greco-Católica, tendo-se falado na criação, aí, de um novo patriarcado. A eleição de Bento XVI veio acalmar esta onda de críticas, a tal ponto que Alexis II chegou a reconhecer em público o “poderoso intelecto” de Bento XVI. “Todo o mundo cristão, incluído o ortodoxo, o respeita”, disse o patriarca. “Sem dúvida, existem divergências teológicas. Mas quanto à visão da sociedade moderna sobre a secularização e sobre o relativismo moral, sobre a perigosa erosão da doutrina cristã e sobre muitos outros problemas contemporâneos, os nossos pontos de vista são muito próximos.”

Novos ventos de Leste

Após a morte de Alexis II em Dezembro de 2008, dá-se a eleição do metropolita de Smolensko e Kaliningrado, Kiril, como patriarca de Moscovo. Na qualidade de presidente do Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscovo, Kiril encontrou-se com Bento XVI no Vaticano já por três vezes em apenas três anos. No final de um desses encontros, numa entrevista para o L'Osservatore Romano, Kiril definiu o estado das relações entre o Patriarcado de Moscovo e a Igreja Católica como de “muito positivo”. “Temos na agenda muitos temas importantes. Penso na promoção de valores fundamentais para a vida da pessoa, que preocupam hoje a humanidade inteira e não apenas a Rússia. Temos necessidade um do outro. Não devemos esquecer que Cristo pediu a unidade dos Seus discípulos. Somos uma única família. Partilhamos os mesmos valores”. São palavras muito significativas. O Patriarcado de Moscovo encara a Igreja Católica como um aliado na batalha contra a crise de valores e pelo anúncio dos conteúdos da mensagem cristã num mundo subjugado por um laicismo agressivo de máscara liberal.

 

Encontro à vista?

Kiril confirmou a grande sintonia com Bento XVI no relatório que apresentou aos seus bispos em 2 de Fevereiro de 2010, no primeiro aniversário de sua entronização. Quanto às diversas questões em que ortodoxos e católicos estão em comunhão, “Bento XVI adoptou posições muito próximas das ortodoxas”, disse Kiril. “Isto é demonstrado pelos discursos, mensagens e opiniões de altos representantes da Igreja Católica Romana com os quais mantemos contacto”, completou
Os tempos parecem, portanto, mais que propícios para um encontro ou reunião entre Bento XVI e Kiril I, ainda que isso não queira dizer que acontecerá já a muito curto prazo. Talvez seja necessário esperar ainda cerca de dois anos para que esse encontro venha a materializar-se. Para já, depois da reunião, no Vaticano, entre Bento XVI e o presidente Medvedev, tudo está mais facilitado.

 

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Patriarca de Moscovo elogia AIS

Em 2008, quando a direcção internacional da AIS esteve em Moscovo, o Metropolita Kiril agradeceu o apoio que a Igreja Ortodoxa recebe da AIS desde 1992, bem como a aposta da organização no diálogo interconfessional, tendo destacado a importância de se continuar a cultivar bons contactos recíprocos e de se intensificar a cooperação no futuro. O Metropolita Kiril assinalou ainda que é positivo contar com uma “organização que deu provas da sua eficácia no passado”, especificando que mesmo nos tempos mais difíceis, a AIS deu provas de ser um parceiro de confiança.

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