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A Liturgia, Memorial da Páscoa de Cristo
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Memorial da Páscoa de Cristo, a liturgia é a celebração deste acontecimento central da História da Salvação, no qual se realiza o admirável desígnio de Deus de nos fazer participantes de sua vida divina.

Para falar deste desígnio – segredo de amor que Deus revela na sua acção salvífica – a Sagrada Escritura e a Teologia utilizaram o conceito de mistério. Esta palavra não significa um enigma indecifrável, como se poderia entender a partir do seu uso na linguagem corrente, mas um projecto que se torna acontecimento quando Deus intervém para Se revelar à humanidade, para fazer aliança com o seu povo, para o salvar comunicando-lhe a sua vida divina. É em Jesus Cristo, na sua missão redentora, que este desígnio de Deus atinge a sua plenitude. Cristo é, pois, a revelação plena do mistério de Deus (cf. Cl 1, 26-27; Ef 3, 3-5).

 

O mistério de Cristo – expressão que engloba a pessoa mesma de Jesus Cristo, Verbo encarnado, e toda a sua acção salvífica – culmina na Páscoa. Pelo que a expressão mistério pascal significa o acontecimento (ou conjunto de acontecimentos que formam uma unidade: paixão, morte, sepultura, ressurreição, ascensão) pelo qual o desígnio eterno de Deus alcança a sua plenitude. O mistério pascal é, pois, o evento culminante da História da Salvação, preparado na Antiga aliança, continuado no tempo da Igreja, actualizado na liturgia (cf. Sacrosanctum Concilium 5). A liturgia cristã é, pois, a celebração do mistério pascal de Cristo, ponto culminante de toda a história da revelação enquanto história da salvação [1].

 

Todas e cada uma das acções litúrgicas da Igreja, sobretudo “o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica” (SC 6), são memorial da Páscoa do Senhor.

Memorial não significa apenas recordação ou lembrança dos acontecimentos passados, mas participação, pela palavra proclamada e pelos sinais sagrados, nos eventos salvíficos, os quais, pela acção do Espírito Santo, se tornam actuais no hoje celebrativo da Igreja.

O sujeito da acção litúrgica é Jesus Cristo, actuante, pela presença do Espírito Santo, no seu Corpo que é a Igreja. Com efeito, assim o diz a Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium:

Para realizar tão grande obra [de nos tornar participantes no seu triunfo pascal], Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas acções litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» – quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém baptiza, é o próprio Cristo que baptiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18, 20).  

Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno pai.

Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público e integral.

Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo Sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, acção sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra acção da Igreja  (SC 7).

 

Se a eficácia da liturgia depende essencialmente da presença actuante de Cristo na sua Igreja e do conteúdo de cada uma das acções litúrgicas que é a celebração do mistério pascal, os seus fins últimos – a glorificação de Deus e a santificação dos fiéis – implicam não só a observância das leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também a participação consciente, activa e frutuosa dos fiéis. É necessário ainda que estes celebrem a liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam e cooperem com a graça de Deus (cf. SC 11).

 

A participação activa, segundo a doutrina conciliar, não é uma possibilidade entre outras, mas deriva da própria natureza da liturgia, como afirma o nº 14 da Constituição: «Na reforma e incremento da sagrada liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e activa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão-de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação».

 

Na liturgia, antes de mais na celebração eucarística, mas também nos outros sacramentos e acções litúrgicas, a Igreja celebra o mistério da fé, ou seja, a realidade da salvação realizada no mistério pascal de Jesus Cristo, que é o objecto da própria acção litúrgica. Os cristãos entrarão neste mistério não como estranhos ou espectadores mudos, mas participando na acção sagrada consciente, activa e frutuosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações (“per ritus et preces”, utilizando a expressão consagrada pela constituição conciliar) (cf. SC 48). E não se trata apenas de compreender bem os ritos e as orações para através deles se poder tomar parte activa na acção litúrgica, mas acima de tudo de “compreender” o próprio mistério da fé, ou seja, a realidade salvífica, à qual se tem acesso “per ritus et preces”, que são a expressão desse mesmo mistério [2].

 

É, pois, fundamental compreender a liturgia não apenas na sua dimensão formal, como um conjunto de regras ou rubricas que constituem um solene cerimonial; para bem celebrar é importante, sem dúvida, conhecê-las e aplicá-las. Mas o verdadeiro sentido da celebração só se alcança tomando consciência do que realmente se celebra: a história da salvação de Deus em favor da humanidade, cada um dos seus momentos ou etapas que culminam na Páscoa de Cristo. Por meio de ritos e orações os cristãos são envolvidos neste mistério, celebrando-o como memorial e exprimindo-o na vida. Nisto consiste a espiritualidade litúrgica que não é outra coisa senão a configuração da vida de cada um dos crentes e da inteira comunidade eclesial a partir da Páscoa de Jesus Cristo, celebrada e participada na sagrada liturgia.

 



[1] Cf. J. J. Flores Arcas, Introdução à teologia litúrgica, Paulinas, S. Paulo 2006, 296.

[2] Cf. E. Mazza, «La participazione attiva alla liturgia e l’efficacia dei sacramenti», La Rivista del Clero Italiano 90 (2009), 59-60.

Pe. Pedro Lourenço, Departamento de Liturgia
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