Ser-se cristão, hoje, na China, obriga a que à fé se tenha de juntar, tantas vezes, coragem física. Bob Fu, agora a viver nos Estados Unidos, conta-nos a sua experiência na prisão e como sobreviveu para partilhar a sua história.
Hoje Bob Fu vive nos Estados Unidos e é director de uma agência que tem como objectivo apoiar as comunidades cristãs na República Popular da China. A sua história remonta a 1989, quando milhares de estudantes desafiaram o regime comunista a abrir as suas portas à democracia e foram esmagados pelos tanques do exército na Praça Tiananmen. Por sorte, porque a sua mulher (então ainda namorada) estava doente, Bob deixou o acampamento em que a Praça Celestial se tinha transformado três dias antes do massacre. Mas, mesmo assim, as autoridades foram no seu encalço. “Fui interrogado dia e noite, e deixei de ter permissão para assistir às minhas aulas na universidade. Todos os dias era tratado como um prisioneiro. Basicamente, esperavam que a minha resistência terminasse para assinar uma confissão”.
A biografia de um padre
Bob reconhece hoje que, a princípio ainda acreditava na possibilidade de mudar o regime por dentro, através do “saneamento” do próprio Partido Comunista, mas depressa perdeu essa ilusão. Na prisão, sentindo-se só e abandonado pelos antigos militantes do Partido, aconteceu algo que mudou por completo a vida de Bob. “Alguém me fez chegar um livro - uma biografia sobre um padre chinês. Na verdade, o livro foi contrabandeado pelo meu professor americano, um cristão que estava a ensinar Inglês no nosso departamento. Ler esse livro mudou minha vida totalmente: converti-me ao cristianismo.” Depois de se ter libertado da polícia, por causa dos acontecimentos de Tiananmen, Bob regressou à universidade.
Vida dupla
Bob era professor de Inglês na Escola do Partido Comunista Chinês em Pequim e durante o dia dava aulas aos líderes do Partido Comunista. À noite e durante os tempos livres, porém, dedicava-se à Escola Bíblica até que foi descoberto pela polícia secreta chinesa. “Em Maio de 1996, a minha esposa e eu estávamos ambos na Escola quando fomos detidos e colocados na prisão.” Foi uma experiência traumatizante. “Foi duro. Não me deixaram dormir nos três primeiros dias e noites. Com a privação do sono, queriam quebrar a minha vontade, para lhes revelar o que pretendiam”. E que desejavam saber os agentes da polícia chinesa? “Eles queriam que eu revelasse quantos cristãos iam à minha Igreja, quantos alunos tínhamos, de onde vinham, quem financiava aquilo…”
A fuga para os Estados Unidos
Bob Fu e a mulher acabaram por ser libertados por causa da pressão internacional e, também, porque as autoridades não conseguiram acusá-los formalmente de nada. A fuga ao país dá-se através de Hong Kong de onde o casal partiu para os Estados Unidos. “Saímos de Pequim e tivemos de nos esconder nos campos pois não tínhamos connosco passaportes ou qualquer documento de viagem. Não nos davam documentos de forma a que, assim, jamais pudéssemos sair da China, mas, realmente, Deus mostrou-nos o seu caminho e, com muitas orações e muita ajuda, fomos capazes de chegar a Hong Kong e, em seguida, em 1997, aos Estados Unidos”.
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A razão da perseguição aos cristãos
“Espiritualmente falando”, diz Bob Fu, “a escuridão diminui quando chega a luz, assim, as trevas odeiam a luz. Os cristãos, ao demonstrarem integridade, amor e perdão, são um desafio e uma ameaça à permanência do partido Comunista no poder. O Governo chinês usa a propaganda política para oprimir os cristãos. Elas retratam os cristãos como inimigos do povo, que colaboram com o Ocidente para derrubar o Governo chinês. Mesmo as actividades benevolentes dos cristãos não são reconhecidas ou são completamente ignoradas pelo Governo. Durante um terramoto, houve cristãos que foram presos porque estavam simplesmente a rezar pelas vítimas. Também ouvi dizer que após o colapso da União Soviética e na Europa Oriental, o Governo chinês tornou-se muito nervoso”, com receio de que o mesmo possa suceder na República Popular da China.
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