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Para onde o Natal aponta
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Vivemos o Natal em contexto de crise. Mais forçados do que convencidos tivemos que restringir os sinais festivos do costume. Muito mais dolorosos são outros, como o desemprego crescente e a onda de preocupações que o acompanham. Mesmo assim não podemos desistir de o celebrar. Já há muito que a Bíblia nos deu a entender que, com vacas gordas ou com vacas magras, ninguém nos substitui nos desafios da vida.

As dificuldades, a par do sofrimento, proporcionam momentos de reflexão para quem anda distraído. Recordo a constatação que Bento XVI faz na encíclica ‘Caridade na Verdade’ quando, sobre o desenvolvimento dos povos, refere “a reivindicação do direito ao supérfluo nas sociedades opulentas e a falta de alimento, água potável, instrução básica, cuidados sanitários elementares em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas periferias das grandes metrópoles”. Também entre nós por vezes se esgrimiam argumentos por futilidades próprias de gente farta enquanto que passavam ao lado situações de sobrevivência de outros. Talvez agora se possa descobrir o lugar ou a atitude para onde o Natal aponta: a simplicidade das coisas e a confiança na pessoa; talvez possa ajudar a regressar ao essencial, a ser mais feliz com o que se é e não tanto com o que se tem.

 

Quando a vida nos ensina

Pensando nestas coisas recordo a visita que há tempos fiz a um casal amigo na Holanda: combinámos que eles iriam buscar-me à estação de comboio; fiquei a aguardar olhando para a paisagem com a chuva miudinha a cair e imaginando-os  em cada carro que chegava; mas nada disso, até que vejo uma figura envolvida num impermeável pedalando na bicicleta que parou junto de mim. Surpreendido descobri  o amigo. Sem delongas colocou o meu saco no selim da bicicleta e ambos, segurando-a com uma mão e com outra o guarda-chuva, atravessámos a cidade até casa. Não se ficou por aqui a minha surpresa: perante a modéstia do mobiliário ia pensando que com um pouco de sorte conseguiria, na minha cidade, arranjar melhor entre os monos deixados ao lado dos contentores.

A esposa estava ausente porque tinha saído de bicicleta para ser entrevistada na rádio local; regressada logo me convidou a acompanhá-la, a pé, ao salão da Câmara onde estava a organizar uma exposição sobre refugiados. Mais pelo fim do dia pude encontrar outros amigos que viviam na mesma casa, a qual geriam parcialmente em comum, como na cozinha e na lavagem da loiça e onde partilhavam conversas sobre a especialidade de cada qual, como a daquele engenheiro que por algum tempo trabalhou numa universidade portuguesa.

 

Quando queremos aprender

A diferença está à vista, a começar pela futilidade que tanto nos condiciona como pessoas mais preocupadas com a imagem do que com o que são, desde baixo onde estamos até em cima onde riscam os poderosos, com os badalados salários “escandalosos”, com as expressões de novo-riquismo de carros topo de gama e necessitados de substituição antes do fim de mandato, nas  opções por obras grandiosos mas de menor interesse colectivo subalternizando investimentos essenciais para mais cultura e bem-estar do povo anónimo, no fomento preferencial daquilo que mais distrai e não tanto daquilo que eleva. Ou a necessidade de ter classes bem distintas desde os títulos demarcadores mais de posse exclusiva do que de articulação num objectivo comum, passando pela cor dos capacetes assinalando superioridade intelectual de uns e subalternização de outros,  até aos veículos, uns necessariamente mais vistosos e com vidros esfumados, condizendo com o mundo fechado de quem entrou na redoma do poder.

As narrativas evangélicas do Natal, não sendo reportagens jornalísticas, são mensageiras  de atitudes novas perante as emergências daqueles para quem “não há lugar na hospedaria”, emergências das quais Deus não liberta os seus filhos, mas que constituem ocasião para manifestar fidelidade a Ele e ao próximo, a começar pelo mais pequenino, com vista à transformação num mundo onde “a justiça e a paz correm como um rio".

P.Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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